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13 pesquisadores dos EUA, Itália, Alemanha, Reino Unido e Espanha encontraram novas marcas da megainundação que devolveu o Mediterrâneo ao mapa: há 5,97 milhões de anos, o mar virou um deserto de sal por 640 mil anos e depois foi invadido pelo Atlântico em uma catástrofe geológica que ainda desafia a ciência

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 29/05/2026 às 19:14
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13 pesquisadores dos EUA, Itália, Alemanha, Reino Unido e Espanha encontraram novas marcas da megainundação que devolveu o Mediterrâneo ao mapa
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Estudo revisita a crise de salinidade do Mediterrâneo, quando o mar secou há 5,96 milhões de anos, virou deserto e acumulou uma camada colossal de sal no fundo.

Segundo a Knowable Magazine, em 6 de outubro de 1970 o navio científico Glomar Challenger voltou a Lisboa após perfurar o fundo do Mar Mediterrâneo em 28 pontos durante a Leg 13 do Deep Sea Drilling Program. Logo no primeiro local, a broca travou em uma camada extremamente dura a 200 metros abaixo do fundo do mar, e os cientistas encontraram cascalho com fósseis marinhos misturados a cristais de gipsita, uma rocha evaporítica que se forma quando a água evapora.

A descoberta apontava para uma conclusão radical. Em algum momento do passado, o Mediterrâneo deixou de existir como mar contínuo e foi substituído por uma paisagem extrema de sal, gipsita e bacias profundamente rebaixadas. Essa é a base da chamada Crise de Salinidade Messiniana, um dos eventos geológicos mais dramáticos já identificados na Terra.

Crise de salinidade do Mediterrâneo começou quando Gibraltar fechou

Segundo a Knowable Magazine, a lógica do Mediterrâneo é simples. O mar evapora mais água do que recebe de chuva e rios, com um déficit anual de cerca de 3.300 quilômetros cúbicos, compensado pela entrada de água do Atlântico pelo Estreito de Gibraltar. Sem esse fluxo, o Mediterrâneo seca.

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Com volume aproximado de 3,7 milhões de quilômetros cúbicos, o mar poderia evaporar em pouco mais de mil anos nesse cenário. Foi o que aconteceu há 5,96 milhões de anos, quando movimentos tectônicos ligados à colisão entre as placas africana e euroasiática fecharam a conexão com o Atlântico.

Em menos de mil anos, o que antes era um mar interior de 2,5 milhões de quilômetros quadrados virou um deserto de sal e gipsita, situado entre 2 e 4 quilômetros abaixo do nível do mar global, uma das paisagens mais extremas já produzidas na superfície terrestre.

Glomar Challenger encontrou sal, gipsita e rachaduras de dessecação no fundo do Mediterrâneo

A cada novo ponto de perfuração, os pesquisadores encontravam o mesmo padrão. Segundo a Knowable Magazine, surgiam gipsita, anidrita, halita e cloretos de potássio e magnésio, minerais típicos de ambientes onde a água evapora quase completamente.

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Em alguns núcleos, a equipe identificou rachaduras de dessecação, iguais às que aparecem hoje em lagos secos. Em outro, apareceu uma camada de sedimento marinho transformado em poeira e depositado pelo vento entre camadas de halita, sinal de que partes do fundo estavam expostas ao ar e à aridez.

Os isótopos de oxigênio em conchas marinhas mostraram que esses organismos viveram em uma salmoura da qual 90% da água original já havia evaporado. Era o registro de um mar em colapso químico e físico.

Gigante de sal do Mediterrâneo guarda 10% de todo o sal dos oceanos

A camada perfurada pelo Glomar Challenger ficou conhecida como gigante de sal mediterrânico. Segundo a Knowable Magazine, ela tem em média 1 quilômetro de espessura, cobre cerca de 2,5 milhões de quilômetros quadrados e, nas bacias mais profundas, pode atingir 1,8 quilômetro.

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O dado mais impressionante é que essa estrutura retém cerca de 10% de todo o sal dos oceanos do planeta. Isso mostra a escala global do evento. Quando o Mediterrâneo secou, ele retirou de circulação um décimo do estoque total de sal marinho.

Não se trata apenas de um detalhe regional da geologia europeia. A Crise de Salinidade Messiniana foi um evento capaz de alterar química oceânica, nível do mar global e dinâmica hidrológica em escala planetária.

Mediterrâneo seco virou vale desértico a até 4 quilômetros abaixo do nível do mar

Imaginar o Mediterrâneo seco exige abandonar a geografia atual. Segundo a Knowable Magazine, o fundo das bacias mais profundas ficou entre 2 e 4 quilômetros abaixo do nível do mar global, formando um vale continental sem equivalente moderno direto.

Crise de salinidade do Mediterrâneo – Imagem ilustrando o ocorrido

Num ambiente árido e profundamente encaixado, as temperaturas teriam sido extremas. A publicação compara o cenário ao deserto de Afar, na Etiópia, onde a superfície já atinge 60°C. Em um vale muito mais profundo e cercado por paredes rochosas, o calor provavelmente teria sido incompatível com a permanência prolongada de animais terrestres.

Os grandes rios que desaguavam no Mediterrâneo também responderam ao colapso. Nilo, Ródano e Ebro escavaram cânions gigantescos seguindo a queda contínua do nível de base, inclusive um cânion do Nilo estimado em 3 a 4 quilômetros abaixo do nível do mar atual.

Crise de salinidade teve ciclos de evaporação, inundação parcial e Lago Mare

Segundo a Knowable Magazine, o evento não foi uma evaporação única e linear de 630 mil anos. Datações paleomagnéticas indicam que a crise começou de forma praticamente simultânea em toda a bacia em 5,96 ± 0,02 milhões de anos.

Os primeiros estágios, entre 5,96 e 5,6 milhões de anos atrás, produziram evaporação parcial e deposição de gipsita e carbonatos. Em 5,6 milhões de anos, o fechamento definitivo do estreito e o clima árido aceleraram o colapso. Depois, entre 5,5 e 5,33 milhões de anos, vieram fases cíclicas de salinidade extrema e diluição parcial.

13 pesquisadores dos EUA, Itália, Alemanha, Reino Unido e Espanha encontraram novas marcas da megainundação que devolveu o Mediterrâneo ao mapa
ilustração crise salinidade mediterraneo

Nesse intervalo apareceu o episódio chamado Lago Mare, quando o Mediterrâneo parece ter recebido influxo de água doce da bacia da Paratétis. As camadas de evaporita se alternam com fósseis de espécies de água doce ou salobra, indicando oscilações repetidas entre dessecação e reenchimento parcial.

Inundação de Zanclean pode não ter sido o megadilúvio imaginado por décadas

Em 5,33 milhões de anos, a barreira tectônica que isolava o Mediterrâneo cedeu e o Atlântico voltou a entrar. Durante décadas, a hipótese dominante descreveu esse evento como o Dilúvio de Zanclean, uma inundação catastrófica em que Gibraltar teria funcionado como uma cachoeira colossal e o mar encheria em menos de dois anos.

Mas a própria Knowable Magazine, em revisão publicada em março de 2026, afirma que a evidência geológica mais recente sugere um preenchimento mais gradual do que a versão clássica propõe. A entrada atlântica pode ter se combinado com aporte de água doce pelo leste e com subida do nível global do mar.

Isso não elimina a possibilidade de uma grande entrada de água por Gibraltar, mas enfraquece a imagem do megadilúvio instantâneo que dominou o imaginário científico e popular por mais de meio século.

O que a geologia ainda não sabe sobre o Mediterrâneo que secou

A Knowable Magazine destaca que ainda existem três grandes perguntas em aberto. A primeira é o mecanismo exato que fechou a conexão com o Atlântico. A tectônica de placas é a explicação dominante, mas a sequência precisa de falhas, soerguimentos e bloqueios ainda segue em estudo.

A segunda dúvida é a profundidade real da dessecação. A hipótese clássica propunha secagem quase total, mas pesquisas mais recentes sugerem que partes das bacias abissais podem ter mantido uma salmoura hipersalina profunda, o que indicaria um cenário intermediário entre mar e deserto absoluto.

A terceira pergunta é a mais desconfortável para o presente. Segundo a publicação, a resposta geológica é sim, em princípio: o Mediterrâneo pode secar de novo em algum futuro geológico, porque as placas africana e euroasiática continuam estreitando Gibraltar. A diferença é que, na próxima vez, haverá cidades, portos e infraestrutura humana em toda a bacia.

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Alex
Alex
30/05/2026 07:44

Todo processo histórico existe uma razão pela qual a ciência eh capaz de explicar e se não explicou ainda, eh pq ainda não se encontrou evidências capazes de solucionar o fato… Eh prudente que a razão sempre se sobreponha sobre qualquer fanatismo ou questões religiosas, pois eh assim que nós evoluímos como sociedade e como ser humano. A história eh exemplo concreto disso;)

Hugo
Hugo
30/05/2026 05:19

Não sei pra que tanta pesquisa, é só falar que é culpa do CO2 que gerou mudança climática

João Batista frança
João Batista frança
29/05/2026 21:12

Eles não sabem o mover das mãos de Deus ,sobre a face da Terra. A ciência não explica e sim se convence .

Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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