Mudança de atividade entre motoristas de aplicativo expõe ganhos, limites e contrastes de uma rotina marcada por custos, jornadas e autonomia, enquanto empresas de logística ampliam operações e atraem profissionais que antes transportavam passageiros pelas principais plataformas digitais do país.
Motoristas que deixaram o transporte de passageiros para trabalhar com encomendas relatam menor quilometragem, redução de despesas e mais controle da rotina, embora os resultados variem conforme a cidade, a plataforma escolhida, o veículo utilizado, a oferta de rotas e o modelo de pagamento.
Ao mesmo tempo, os casos reunidos pela Autoesporte indicam que a atividade não garante ganhos superiores para todos, pois também envolve esperas, escalas irregulares, metas de produtividade, riscos durante os trajetos e possíveis atrasos nos repasses feitos aos profissionais.
Motoristas reduzem quilômetros nas entregas
Em Canoas, no Rio Grande do Sul, Tainá Casali afirma que gastava R$ 100 por dia em combustível, percorria entre 150 e 200 quilômetros e trabalhava cerca de 12 horas para obter aproximadamente R$ 244 líquidos transportando passageiros por aplicativo.
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Depois de assumir entregas da Shopee, ela passou a rodar entre 30 e 40 quilômetros para alcançar o mesmo valor líquido, uma redução próxima de 80%, enquanto os mesmos R$ 100 de combustível podem durar três dias, dependendo das distâncias percorridas.

“Hoje, com as entregas, tenho mais tempo disponível”, afirmou Tainá, que também mencionou queda nos gastos com manutenção e limpeza, além de considerar menor o risco associado à permanência de passageiros desconhecidos dentro do veículo durante várias horas de trabalho.
Já Michele Bordignon, sua companheira, descreveu um cenário menos previsível, com longas esperas para carregar o carro no hub de Canoas, onde, segundo ela, mais de mil motoristas disputam entre 200 e 300 rotas disponíveis durante o turno da manhã.
Em dias considerados normais, a entregadora organiza cerca de 110 pacotes, distribuídos em 60 a 80 paradas, e conclui o serviço em aproximadamente cinco horas; quando o carregamento atrasa, porém, o período total à disposição pode alcançar 14 horas.
Lalamove atrai profissionais de aplicativo
Em São Paulo, Isaac Toledo Dull deixou o transporte de passageiros pela 99 com motocicleta e passou a atender a Lalamove, sem perceber grande diferença de renda ou tempo livre, embora relate menos reclamações de clientes e menor despesa com manutenção.
Por sua vez, Luciano Acioli afirma ter ampliado os ganhos após migrar para a mesma plataforma, adotando metas diárias e trabalhando geralmente entre 8h e 17h, com intervalo para almoço, encerramento após atingir o objetivo e folgas em fins de semana e feriados.
Nem todos, contudo, descrevem uma transição positiva, como mostra o depoimento de um entregador de Florianópolis que pediu anonimato e citou jornadas extensas, poucas escalas, atrasos no carregamento, cobrança por produtividade e dificuldade para evitar bairros considerados perigosos.
Segundo o profissional, algumas operações exigiriam a visita a cerca de 90% dos endereços para liberar o pagamento diário, enquanto atrasos na chegada das cargas reduziriam o tempo disponível e poderiam obrigar novas tentativas em locais onde a entrega não foi concluída.

Além das dificuldades operacionais, ele relatou valores pendentes superiores a R$ 1.400 em uma empresa e próximos de R$ 900 em outra, além de descontos não reconhecidos, alegações individuais sem confirmação independente apresentada na reportagem publicada pela Autoesporte.
Nas contas do entrevistado, determinadas rotas pagavam aproximadamente R$ 280 por dia para jornadas de até 13 horas, equivalentes a cerca de R$ 21 por hora antes de combustível, manutenção, alimentação, depreciação do veículo e dias sem escala.
Expansão da Shopee amplia rede logística
Enquanto motoristas avaliam vantagens e limitações da mudança, a Shopee anunciou, em 7 de maio de 2026, três centros de distribuição em Vitória, Curitiba e Fortaleza, com previsão de aproximadamente 900 vagas de trabalho geradas no país.
De acordo com a companhia, as novas unidades podem processar juntas até 700 mil pedidos por dia, enquanto a operação brasileira reúne 22 centros de distribuição, mais de 200 hubs, mais de 3 mil agências e aproximadamente 45 mil motoristas parceiros.
No início de 2026, a empresa também informou a abertura de centros de fulfillment em Goiás, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, ampliando a capacidade de armazenagem e melhorando os níveis de serviço oferecidos aos consumidores em diferentes regiões.
A Lalamove, por outro lado, avaliou que a passagem do transporte de passageiros para cargas integra a diversificação da economia de plataformas e informou que 65% dos parceiros apontam a possibilidade de definir a própria rotina como principal razão para realizar entregas.
Rotas e pagamentos influenciam a escolha
Na prática, a migração pode reduzir quilometragem, combustível, limpeza e contato prolongado com clientes, mas também pode trazer espera em centros logísticos, exposição à chuva, escalas incertas, pressão por produtividade e dificuldade para prever quanto entrará no orçamento mensal.
Com diferenças tão grandes entre cidades, plataformas, veículos e modelos de pagamento, trabalhar com encomendas representa uma alternativa sustentável para a maioria dos motoristas ou uma vantagem restrita a quem consegue acesso frequente às rotas mais rentáveis e organizadas?
