O degelo do permafrost em Svalbard, no Oceano Ártico, está revelando restos humanos de baleeiros europeus enterrados entre 200 e 400 anos atrás no local conhecido como Likneset, a “Ponta dos Cadáveres”. Um estudo publicado na revista PLOS One analisou 19 esqueletos e descobriu que 18 apresentavam sinais de escorbuto avançado. Todos eram homens jovens, com idades entre 20 e 25 anos, e muitos mostravam sinais de raquitismo, desnutrição na infância e doenças degenerativas nas articulações normalmente associadas à velhice. O degelo acelerado ameaça destruir esses sítios arqueológicos preservados por séculos.
O degelo do Ártico está desenterrando uma história que permaneceu congelada por séculos. Em Svalbard, arquipélago norueguês no Oceano Ártico, a erosão costeira provocada pelo derretimento do permafrost expõe ossadas de baleeiros europeus que morreram entre os séculos XVII e XIX em um dos locais mais inóspitos do planeta. O cemitério de Likneset, chamado de “Ponta dos Cadáveres”, revela um padrão perturbador: os 19 esqueletos analisados eram todos de homens jovens com idades entre 20 e 25 anos, e praticamente todos carregavam no corpo as marcas de escorbuto, privação e trabalho extremo.
A pesquisa foi conduzida pela arqueóloga Lise Loktu, do Instituto Norueguês de Pesquisa do Patrimônio Cultural, e pela antropóloga forense Elin Therese Brødholt, do Hospital Universitário de Oslo. O degelo que expõe esses sepultamentos é o mesmo processo climático que ameaça destruí-los permanentemente, criando uma corrida contra o tempo para documentar sítios arqueológicos que sobreviveram séculos congelados e agora podem desaparecer em décadas.
O que o degelo revelou sobre a saúde dos baleeiros

A análise dos esqueletos expôs um quadro de saúde devastador. Do total de 19 esqueletos estudados, 18 apresentavam sinais claros de escorbuto, doença causada pela falta de vitamina C que provoca sangramentos nas gengivas, fadiga intensa, dores e reabertura de feridas antigas. No registro ósseo, o escorbuto deixa marcas visíveis especialmente nos ossos longos do corpo.
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Além do escorbuto, os pesquisadores identificaram casos de raquitismo e sinais de desnutrição na infância, indicando que muitos desses jovens já tinham saúde comprometida antes de embarcar para o Ártico. A combinação de má alimentação crônica e trabalho extremo criava um ciclo de vulnerabilidade: homens que chegavam doentes enfrentavam condições que aceleravam sua deterioração física.

Corpos de 20 anos com articulações de idosos

Mesmo sendo jovens, a maioria dos baleeiros apresentava sinais de osteoartrite, condição degenerativa normalmente associada à velhice. As lesões estavam concentradas na parte superior do corpo, indicando esforço repetitivo intenso ligado às atividades pesadas da caça e do processamento das baleias, que incluíam retirar a gordura com ferramentas manuais e transportar toneladas de material em condições de frio extremo.
Os pesquisadores também encontraram fraturas antigas e lesões na coluna já cicatrizadas, evidências de que o desgaste físico era cumulativo. As mortes não ocorriam por eventos isolados, mas pelo acúmulo de doenças, desnutrição e esforço ao longo de meses ou anos no Ártico. O degelo revelou corpos que contam uma história que nenhum documento escrito da época registrou com essa precisão.
A indústria baleeira que criou a Ponta dos Cadáveres
O interesse europeu por Svalbard começou no fim do século XVI, quando o explorador holandês Willem Barentsz avistou Spitsbergen. A exploração comercial organizada começou em 1612, e em poucas décadas a caça se expandiu rapidamente pelo Atlântico Norte, com centenas de navios operando simultaneamente durante o verão ártico. A baleia era valorizada pela gordura, usada na produção de óleo para iluminação e como lubrificante.
Um dos assentamentos mais conhecidos foi Smeerenburg, a “Cidade da Gordura”, fundado em 1619. Baleeiros que morriam durante as temporadas de caça eram enterrados em cemitérios improvisados como Likneset. O degelo que agora expõe esses sepultamentos revela que a indústria baleeira europeia dependia de mão de obra jovem e descartável, homens que chegavam já doentes e raramente sobreviviam mais do que algumas temporadas.
O alerta sobre o degelo e a memória histórica do Ártico
O estudo faz um alerta que vai além da arqueologia. O degelo acelerado do Ártico está destruindo sítios arqueológicos preservados por séculos no permafrost, e cada temporada de calor apaga registros insubstituíveis que a ciência ainda não teve tempo de documentar. As vestimentas dos baleeiros, excepcionalmente conservadas pelo frio, incluem gorros de lã, jaquetas, calças e até lenços de seda que oferecem informações detalhadas sobre o cotidiano da época.
Para os cientistas, é urgente ampliar o monitoramento e a documentação desses locais antes que desapareçam. O degelo não está apenas mudando o clima do Ártico, está apagando a memória histórica de uma região que guardou por séculos as evidências de uma das indústrias mais brutais da Europa.
Você sabia que o degelo do Ártico está desenterrando esqueletos de baleeiros com escorbuto e corpos destruídos pelo trabalho? O que mais impressiona: a idade dos mortos, a quantidade com escorbuto ou o fato de que esses sítios podem sumir? Conta nos comentários.

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