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O comitê que monitora o setor elétrico decidiu manter e aprimorar os mecanismos de Resposta da Demanda e cobrou da Aneel um cronograma para que as mudanças entrem em vigor já em 2027

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 04/09/2026 às 12:53 Atualizado em 04/09/2026 às 13:16
Sala de controle do Operador Nacional do Sistema Elétrico
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O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico deliberou em 3 de setembro pela continuidade e pelo aprimoramento dos mecanismos de Resposta da Demanda, e cobrou da Aneel um cronograma com as etapas em curso e previstas para que as mudanças entrem em vigor já em 2027.

Em primeiro lugar, Resposta da Demanda é o nome técnico de um arranjo simples de entender: em vez de ligar mais uma usina quando o sistema aperta, o operador paga para que grandes consumidores reduzam voluntariamente o consumo naquele momento. Uma fábrica que desliga parte da produção no horário crítico entrega ao sistema o mesmo efeito de uma usina entrando, e normalmente por um custo menor.

Segundo o comitê, o mecanismo funciona, mas precisa de ajuste em pontos concretos. Foram apontadas a necessidade de aperfeiçoar os mecanismos de remuneração, o monitoramento de desempenho e os processos de transparência e comunicação. Nenhum desses itens é detalhe: eles determinam se o consumidor confia o suficiente para se comprometer a reduzir carga quando for chamado.

Centro de operação do sistema elétrico com painel sinóptico

Por que a Resposta da Demanda virou peça central do sistema elétrico

De fato, o sistema elétrico brasileiro mudou de natureza na última década. A matriz encheu-se de fontes que produzem quando o recurso natural permite, e não quando o operador manda: sol na hora do sol, vento na hora do vento. Isso trouxe energia barata e limpa, mas também tirou previsibilidade, porque a geração deixou de ser inteiramente controlável.

Dessa forma, o resultado prático é um sistema com sobra em certos períodos e aperto em outros, às vezes no mesmo dia. Ao meio-dia, com sol forte, sobra geração solar a ponto de o operador precisar cortar usinas. No fim da tarde, quando o sol cai e a demanda residencial sobe, falta. Gerenciar essa gangorra apenas ligando e desligando termelétrica é caro e polui mais do que o necessário.

É aí que a demanda entra como recurso. Se o consumo pode se mover no tempo, ele deixa de ser um dado fixo que a geração precisa perseguir e passa a ser mais uma alavanca de equilíbrio. Além disso, reduzir carga é instantâneo, enquanto partir uma térmica leva tempo e queima combustível caro. Por isso países com muita renovável no sistema desenvolveram esse mecanismo antes do Brasil.

Operadores monitoram o sistema elétrico nacional

O que a Aneel e o ONS precisam entregar

Nesse sentido, a decisão do comitê distribuiu tarefas. A Aneel ficou encarregada de apresentar um cronograma com as etapas em andamento e as próximas, indicando direcionamentos para a continuidade e o aprimoramento dos mecanismos, conforme as diretrizes definidas. A agência e o ONS, cada um em sua competência, seguem desenvolvendo os instrumentos existentes junto com as instituições do setor, incluindo o chamado Produto Disponibilidade.

O Produto Disponibilidade merece explicação, porque é onde mora a diferença entre um mecanismo que funciona no papel e um que funciona na prática. Consumidor industrial não organiza sua produção para atender a um chamado esporádico sem previsibilidade de receita. Remunerar a disponibilidade, ou seja, pagar pelo compromisso de estar pronto para reduzir carga, e não apenas pela redução efetiva, é o que torna a adesão racional para quem tem fábrica rodando.

Além disso, o prazo escolhido diz algo. Mirar 2027 significa que as mudanças precisam ser desenhadas, colocadas em consulta pública e aprovadas ao longo de 2026, um ano em que o setor já tem agenda regulatória cheia. Ou seja, o comitê não pediu estudo aberto sem data: pediu implementação com calendário, e cobrou o cronograma para acompanhar.

Vale situar a decisão no contexto do ano. O mesmo comitê vem acompanhando de perto as condições de abastecimento, com os reservatórios do sistema recuando vários pontos percentuais em um único mês e modelos computacionais em revisão depois de correções relevantes de vazão. Em um cenário assim, ter um recurso que responde rápido e não depende de chuva nem de combustível importado deixa de ser luxo regulatório e vira ferramenta de segurança operativa.

Por outro lado, há uma dimensão pouco comentada: a Resposta da Demanda também ajuda no problema oposto, o do excesso de geração. Quando sobra energia renovável em determinadas horas e o operador precisa cortar parques eólicos e solares, deslocar consumo para dentro dessa janela aproveita energia que hoje simplesmente se perde. Portanto, o mecanismo atua nas duas pontas da gangorra, e não apenas no momento de aperto.

Ao mesmo tempo, outro detalhe relevante é quem pode participar. O mecanismo foi desenhado pensando em consumidores de grande porte, com carga suficiente para fazer diferença no balanço do sistema e com processo produtivo capaz de tolerar interrupção programada. Nem toda indústria se encaixa: uma linha de produção contínua, com forno que não pode esfriar, tem custo de parada altíssimo. Já operações com etapas moduláveis conseguem realocar consumo sem perder produção no fim do dia.

A conta que o consumidor paga no fim

No fim, todo esse arranjo desemboca na tarifa. Quando o sistema resolve um aperto acionando térmica cara, o custo aparece na conta de luz, seja por bandeira tarifária, seja por encargo. Se o mesmo aperto é resolvido com redução voluntária de carga em um punhado de grandes consumidores, o custo tende a ser menor, e a diferença fica no bolso de quem paga a fatura.

Por isso a discussão sobre remuneração é tão sensível. Pagar pouco demais pela disponibilidade afasta o consumidor industrial e mata o mecanismo por falta de adesão. Pagar demais transfere para a tarifa geral um custo que poderia ser menor. Encontrar esse ponto exige dado de desempenho confiável, e é exatamente por isso que o comitê citou monitoramento e transparência junto com remuneração.

Fico com a impressão de que o setor está finalmente tratando a demanda como recurso, e não como um número que o planejamento apenas tenta prever. É uma mudança silenciosa, sem inauguração nem corte de fita, mas que muda a lógica de operar o sistema. Se o cronograma pedido à agência sair do papel, 2027 pode ser o primeiro ano em que reduzir consumo na hora certa vale tanto quanto gerar.

Pagar indústria para reduzir consumo sai mais barato do que ligar térmica no horário de pico?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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