O ciclone Narelle foi o primeiro sistema em 21 anos a atingir a costa australiana três vezes como tempestade severa, com ventos de até 200 km/h que devastaram cidades como Exmouth e Carnarvon, mas a resposta da comunidade que saiu às ruas para ajudar desconhecidos impressionou tanto quanto a destruição.
O ciclone Narelle começou a se formar ao largo da costa do extremo norte de Queensland, a sudeste de Papua Nova Guiné, em meados de março, e o que se seguiu foi uma das tempestades mais destrutivas que o norte da Austrália enfrentou nas últimas décadas. A tempestade se intensificou para categoria cinco, a mais poderosa na escala, e atravessou todo o norte do país atingindo a costa em três momentos distintos como ciclone tropical severo. A região já estava encharcada por chuvas intensas que haviam provocado inundações nos dias anteriores, o que amplificou dramaticamente os danos causados pelo ciclone Narelle.
Telhados de zinco arrancados pelos ventos, árvores centenárias derrubadas, plantações de banana destruídas e praias transformadas em cemitérios de vida marinha compuseram o cenário de devastação. Mas quando a tempestade passou e o sol voltou a aparecer, a pergunta mais ouvida nas ruas não era “quando a energia volta?” ou “quando as estradas reabrem?”. A pergunta era: “Como podemos ajudar?” O ciclone Narelle revelou o pior da natureza e o melhor das pessoas ao mesmo tempo.
A trajetória do ciclone Narelle de Queensland ao oeste da Austrália

Conforme reportagem da ABC na Austrália, o ciclone Narelle iniciou sua trajetória pelo norte da Austrália atingindo a costa perto da pequena cidade de Coen, em Queensland, como uma tempestade de categoria quatro.
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A passagem danificou casas, derrubou árvores e linhas de energia e inundou ruas em uma região que, apesar de acostumada ao mau tempo, enfrentava as consequências de enchentes recentes que já haviam deixado a infraestrutura fragilizada. O rio Daintree havia atingido 7,25 metros nos dias anteriores à chegada do ciclone Narelle.
Após cruzar Queensland, o ciclone Narelle atravessou o Golfo de Carpentária, ganhou força novamente e atingiu a costa do Território do Norte como tempestade de categoria três. Comunidades evacuadas escaparam de danos maiores, mas as chuvas encontraram rios já cheios e provocaram enchentes que destruíram estradas e forçaram novas evacuações.
Mais de 200 milímetros de chuva caíram sobre o rio Adelaide em apenas 24 horas. A tempestade então seguiu para o mar, recuperou intensidade e atingiu a costa oeste da Austrália pela terceira vez, perto de Coral Bay, como categoria quatro.
A devastação em Exmouth, a cidade que recebeu a fúria total do ciclone Narelle

Exmouth, cidade turística a cerca de 1.250 quilômetros ao norte de Perth, recebeu o impacto mais severo do ciclone Narelle. Os ventos chegaram a 200 quilômetros por hora e forçaram a cidade a entrar em confinamento no final da tarde de uma quinta-feira.
Com a chegada da noite, os moradores não tiveram opção além de se abrigar em trincheiras e centros de evacuação enquanto a tempestade arrancava telhados e derrubava tudo em seu caminho.
Brock Keymer, morador de Exmouth, estava preparando o café da manhã quando parte do telhado de sua casa desabou sobre o corredor. “Ouvia-se um barulho de metal batendo, parecia que um avião a jato estava passando do lado de fora da casa”, descreveu ele.
Nicholas Tettero, que enfrentou a tempestade em um centro de evacuação com a namorada, resumiu a experiência de estar diante do ciclone Narelle: “Foi uma das coisas mais incríveis e extraordinárias que já presenciei na vida. O poder bruto da natureza. Me senti pequeno e insignificante.”
As plantações destruídas e a vida marinha que apareceu nas praias
O ciclone Narelle não poupou a economia agrícola da região. Em Carnarvon, um dos principais distritos de produção de alimentos da Austrália Ocidental, o produtor Les Ball estimou que 80% de sua colheita de banana foi destruída pela passagem da tempestade de categoria dois que atingiu a área.
Bananas verdes espalhadas pelo chão eram tudo o que restava de uma plantação que antes alimentava mercados em todo o estado.
No litoral de Exmouth, famosa por oferecer aos visitantes a chance de nadar perto de tubarões-baleia, as praias se transformaram em cemitérios de vida marinha. Serpentes marinhas, peixes, golfinhos e pássaros apareceram mortos ao longo da costa. A cuidadora de animais selvagens Brinkley Davies descreveu a cena como de partir o coração.
O ciclone Narelle também provocou enchentes que varreram fazendas inteiras. Jim Dorrell, da estação Mia Mia, disse que a tempestade trouxe mais chuva em 11 horas do que a propriedade havia recebido em anos, resultando na perda de centenas de cabeças de gado.
O céu vermelho que anunciou o pior antes da passagem do ciclone Narelle
Enquanto a tempestade seguia para o sul, as comunidades costeiras em seu caminho enfrentaram um presságio visual assustador. Em Shark Bay, uma espessa camada de solo rico em ferro obscureceu o ar e tingiu o céu de vermelho sangue, criando uma cena que moradores descreveram como apocalíptica.
Kerrie Shepherd, do parque de campismo local, disse que nunca havia visto nada parecido: o material entrava na garganta, arranhava os dentes e ardia nos olhos.
O ciclone Narelle transformou leitos de rios completamente secos em torrentes furiosas em questão de horas. Na região de Gascoyne, as enchentes cobriram paisagens inteiras.
Para os fazendeiros, a água abundante era uma boa notícia a longo prazo, pois recarregava os lençóis freáticos, mas a curto prazo representava devastação imediata: cercas destruídas, animais perdidos e infraestrutura arruinada.
A dualidade entre destruição e renovação marcou toda a passagem do ciclone Narelle pela costa australiana.
A comunidade que saiu às ruas para ajudar desconhecidos depois do ciclone Narelle

O que aconteceu depois que a tempestade passou pode ter sido mais impressionante do que o próprio ciclone Narelle. Em Exmouth, o time de futebol local saiu em caminhonetes cheias de ferramentas para consertar casas de desconhecidos.
Mochileiros que estavam de passagem largaram suas bicicletas e começaram a limpar jardins. Quem tinha gerador estendeu cabos por cima da cerca para abastecer a casa dos vizinhos. Quem tinha chuveiro funcionando abriu a porta para quem não tinha água.
Sally Eves, moradora de longa data, assistiu meia dúzia de pessoas trabalhando para limpar seu jardim e comentou emocionada: “É tão bonito. Minha vizinha publicou um aviso nas redes sociais e outras pessoas apareceram, e a maioria delas eu não conheço.”
Em Carnarvon, Jo Bumbak resumiu o espírito local de forma direta: “O povo de Carnarvon é muito resiliente. Certamente sabemos como nos unir e ajudar uns aos outros.” O ciclone Narelle arrancou telhados, mas não conseguiu arrancar a solidariedade.
O que mais te impressiona na história do ciclone Narelle: a força da tempestade que atingiu a costa três vezes ou a resposta da comunidade que saiu para ajudar desconhecidos? Você já viveu algo parecido em situações de desastre natural? Deixe nos comentários. Histórias de solidariedade em meio à destruição merecem ser contadas e compartilhadas.

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