Nova York converte um antigo lixão com 150 milhões de toneladas de resíduos em um parque três vezes maior que o Central Park.
Por mais de meio século, barcaças carregadas de lixo chegaram diariamente a Staten Island, despejando toneladas de resíduos em uma paisagem que crescia sem parar. O local se tornaria tão grande que acabaria sendo reconhecido como o maior aterro sanitário do mundo em operação durante parte do século XX. Hoje, esse mesmo espaço está sendo convertido em um gigantesco parque urbano. O antigo Fresh Kills Landfill, que recebeu lixo da cidade entre 1948 e 2001, está se transformando no Freshkills Park, um projeto de recuperação ambiental que pretende apagar uma das maiores marcas do consumo moderno e convertê-la em áreas verdes, trilhas, lagos e habitats para animais silvestres.
Quatro montanhas artificiais escondem cerca de 150 milhões de toneladas de resíduos acumulados durante mais de cinco décadas
Segundo o Departamento de Parques da Cidade de Nova York (NYC Parks), os quatro grandes montes existentes no local armazenam aproximadamente 150 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos. Essa quantidade é tão grande que transformou completamente a geografia original da região.
Durante décadas, o aterro recebeu praticamente todo o lixo produzido pela cidade. No auge das operações, o local recebia cerca de 20 barcaças por dia, cada uma transportando aproximadamente 650 toneladas de resíduos, de acordo com registros históricos do projeto.
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Em meados da década de 1950, Fresh Kills já era considerado o maior aterro do planeta. Em 1996, uma de suas montanhas artificiais alcançou aproximadamente 53 metros de altura, ultrapassando a altura da própria Estátua da Liberdade, segundo informações históricas compiladas pelo Freshkills Park.
O antigo lixão está sendo convertido em um parque quase três vezes maior que o Central Park
Segundo o Freshkills Park, a área total do empreendimento alcança aproximadamente 2.200 acres, equivalente a cerca de 890 hectares.
Isso significa que, quando estiver completamente finalizado, o parque será quase três vezes maior que o Central Park, tornando-se o maior parque construído em Nova York em mais de um século.
A transformação começou oficialmente após o encerramento definitivo das atividades do aterro em 2001. O plano de recuperação ambiental foi iniciado em 2008 e deve continuar até aproximadamente 2036, segundo o cronograma divulgado pela prefeitura de Nova York.
Camadas impermeáveis, solo artificial e sistemas de captura de gás tentam conter décadas de decomposição subterrânea
Recuperar um aterro dessa escala exige engenharia em nível monumental. Segundo o Freshkills Park, as montanhas de resíduos foram seladas com sistemas multicamadas compostos por membranas impermeáveis, argila, materiais drenantes e espessas coberturas de solo vegetal.
O objetivo é impedir a infiltração de água, reduzir a produção de chorume e controlar a emissão de gases provenientes da decomposição do lixo.
Especialistas explicam que o metano gerado pelos resíduos continua sendo capturado e encaminhado para aproveitamento energético, evitando que grandes volumes do gás escapem para a atmosfera.
Sob a vegetação aparentemente natural, permanecem enterradas dezenas de anos de consumo urbano, embalagens, resíduos domésticos, objetos descartados e materiais acumulados ao longo de gerações inteiras de nova-iorquinos.
Raposas, cervos e centenas de espécies de aves voltaram a ocupar uma área que durante décadas foi símbolo de degradação ambiental
Um dos aspectos mais surpreendentes da transformação é o retorno gradual da biodiversidade. Segundo o Freshkills Park, mais de 200 espécies de aves já foram registradas no local, incluindo falcões, águias-pescadoras, gaviões e espécies ameaçadas no estado de Nova York.
Pesquisas ecológicas realizadas no parque também identificaram o reaparecimento de mamíferos como raposas-vermelhas, cervos-de-cauda-branca, tartarugas, morcegos e pequenos mamíferos, demonstrando como áreas altamente degradadas podem recuperar parte de suas funções ecológicas ao longo do tempo.
Hoje, onde antes havia montanhas de lixo expostas, existem gramados extensos, zonas úmidas restauradas, trilhas e áreas destinadas à observação de fauna.
O maior lixão do mundo está se transformando em um laboratório para o futuro das cidades
O Freshkills Park representa muito mais do que um parque urbano. Ele se tornou um experimento global sobre como sociedades altamente urbanizadas podem lidar com o legado deixado por décadas de descarte em massa.

Enquanto muitas cidades ainda procuram espaço para armazenar resíduos, Nova York decidiu fazer algo ainda mais ambicioso: cobrir 150 milhões de toneladas de lixo com vegetação, ciência, engenharia e tempo.
Mas a questão permanece. Se uma das maiores cidades do planeta precisou criar um parque gigantesco para esconder sua própria história de consumo, quantas outras montanhas invisíveis de resíduos ainda estão crescendo ao redor do mundo?

