Com indícios de lítio, urânio, terras raras e titânio distribuídos em diferentes regiões, convite formal dos Estados Unidos para reunião em Washington e um arcabouço regulatório ainda em debate, o Paraguai passa a integrar o mapa global dos minerais críticos em um momento de forte disputa geopolítica e energética
Recentemente, o vice-ministro de Minas e Energia do Paraguai, Mauricio Bejarano, afirmou que a demanda global por minerais críticos elevou o interesse internacional pelo país, após convite do Departamento de Estado dos Estados Unidos para reunião ministerial em 4 de fevereiro, em Washington, focada em cooperação técnica e investimentos.
Interesse internacional e convite para Washington
Em entrevista à ABC TV, Bejarano analisou o crescimento do interesse externo por minerais estratégicos e disse que o Paraguai começa a se posicionar no mapa global devido a indicadores geológicos favoráveis. O convite formal dos Estados Unidos marca um passo inicial de diálogo.
O vice-ministro esclareceu que a abordagem não configura acordo definitivo. Trata-se, segundo ele, de um processo de cooperação técnica, intercâmbio de informações e avaliação de oportunidades para atrair capital ao setor mineral, sem compromissos vinculantes neste momento.
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Diálogo técnico com os Estados Unidos e agenda diplomática
Bejarano informou que o chanceler Rubén Ramírez Lezcano realizará reuniões nos Estados Unidos para avançar no entendimento sobre elementos de terras raras e outros minerais estratégicos, com foco em capacitação e compartilhamento de dados disponíveis.
“Esta é uma colaboração entre os governos dos Estados Unidos e do Paraguai. Discutiremos o desenvolvimento de recursos humanos, compartilharemos informações e exploraremos formas de atrair investimentos para a mineração”, afirmou o vice-ministro durante a entrevista.
Ele destacou que a demanda global por minerais críticos está “extremamente alta”, colocando países com potencial geológico, como o Paraguai, no radar de grandes potências e investidores.
O cenário amplia a visibilidade do país em cadeias produtivas ligadas à tecnologia.
Minerais críticos e a transição energética
Bejarano ressaltou que lítio, urânio e cobre ganharam centralidade por seu uso intensivo em tecnologia e na transição para energia limpa.
O lítio é essencial para baterias, enquanto o urânio integra matrizes de geração elétrica em diferentes países.
“O mundo inteiro está migrando para a energia elétrica. Dada a grande necessidade de energia, os minerais desempenham papel central. A energia pode até ser gerada a partir do urânio”, disse o vice-ministro, ao relacionar demanda energética e mineração.
Ele acrescentou que o país possui recursos comprovados de urânio, embora as reservas ainda não estejam certificadas. Há também perspectivas para terras raras, além de exploração de lítio e cobre no Chaco, com resultados considerados encorajadores.
Atualmente, o ouro é o único mineral extraído regularmente no Paraguai. A ampliação do portfólio mineral é vista pelo governo como um vetor para industrialização, geração de empregos e atração de grandes empresas intensivas em energia.
Política energética e desenvolvimento nacional
Segundo Bejarano, a política energética nacional foi elaborada por profissionais paraguaios com formação no exterior e conhecimento da realidade local. A diretriz é desenvolver recursos naturais como base para o crescimento produtivo do país.
“Sabemos que temos de desenvolver nossos recursos naturais. Vamos prosseguir com o desenvolvimento do país, independentemente de crenças ideológicas”, afirmou. Ele disse que energia e minerais críticos serão fundamentais nos próximos anos.
O vice-ministro enfatizou a necessidade de planejamento, regulamentação e sustentabilidade para transformar potencial geológico em resultados econômicos. A estratégia busca alinhar mineração, energia e atração de investimentos de longo prazo.
Inventário subterrâneo e indícios geológicos
Publicações do Vice-Ministério de Minas e Energia e estudos do Conacyt indicam a presença de minerais associados à alta tecnologia global no território paraguaio.
Elementos de terras raras, como nióbio e neodímio, aparecem em complexos carbonatíticos no departamento de Amambay, especialmente em Cerro Sarambí e Chirigüelo, com extensão em direção a Canindeyú e San Pedro.
Conhecidos como “sementes da tecnologia”, esses elementos são vitais para ímãs permanentes usados em veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas avançados de defesa, segundo os estudos citados pelo governo.
O titânio foi detectado em depósitos maciços nos solos vermelhos do Alto Paraná. Estimativas iniciais apontam investimentos superiores a US$ 1,5 bilhão, com potencial para posicionar o país como líder mundial nesse segmento.
O urânio foi certificado no projeto Yuty, em Caazapá, com estimativa de 4.800 toneladas, e em Coronel Oviedo, em Caaguazú, cujo potencial pode duplicar o volume anterior. O lítio foi encontrado em águas subterrâneas salinas do Chaco.
Peso econômico ainda limitado da mineração
Apesar do mapa de indícios, a mineração responde por apenas 0,087% do PIB nacional. No índice global de contribuição da mineração, o Paraguai ocupa a 189ª posição entre 205 países, evidenciando a distância entre potencial e exploração efetiva.
O dado reforça o desafio de converter recursos geológicos em atividade econômica, mantendo critérios técnicos e ambientais. O governo reconhece a necessidade de informações confiáveis para reduzir riscos e orientar investimentos.
Riscos ambientais e limitações legais
O advogado ambientalista Ezequiel Santagada alertou que, embora a prospecção apresente impactos limitados, os riscos aumentam na fase de exploração. Ele apontou fragilidade na atual estrutura legal de avaliação ambiental.
“A magnitude desses impactos não pode ser resolvida pela estrutura legal atual, que aplica as mesmas regras a um posto de gasolina e a uma mineração em grande escala”, disse Santagada, ao defender ajustes normativos.
A crítica ressalta a necessidade de marcos específicos para mineração de grande porte, com avaliações proporcionais aos riscos e mecanismos de mitigação. Sem isso, a atração de capital pode enfrentar resistências e insegurança jurídica.
Modernização regulatória e visão do setor privado
Para atrair grandes investimentos, o Paraguai precisa modernizar sua legislação, considerada um obstáculo pelo setor. A Câmara de Mineração do Paraguai compartilha dessa avaliação e defende estabilidade jurídica e fiscal.
O presidente da Capami, Víctor Fernández Crosa, afirmou no ano passado que o país deveria adotar modelos como o do Peru, com prazos realistas para investimentos de alto risco, entre 8 e 10 anos.
Constitucionalmente, a propriedade dos minerais pertence ao Estado, que pode conceder concessões por tempo limitado. O equilíbrio entre controle estatal e incentivos privados é central para o avanço do setor.
Código de mineração, comparações regionais e governança
Bejarano informou que há avanços em um novo código de mineração para modernizar a Lei nº 3.180/07, com foco em minerais críticos. O objetivo é atualizar regras e alinhar o país às demandas atuais do mercado.
O setor privado, porém, considera que normas como o Decreto 8699/2018 representam retrocesso e dificultam investimentos. A divergência expõe um labirinto regulatório ainda em construção.
Enquanto o Paraguai avança, vizinhos já competem. O Brasil possui 21 milhões de toneladas em reservas e recebeu US$ 465 milhões da Corporação Financeira de Desenvolvimento dos EUA para o projeto Serra Verde, já em produção comercial.
A Argentina identificou recursos de terras raras estimados em 190.000 toneladas e atrai capital via regime RIGI. A Bolívia detém as maiores reservas de lítio do mundo, mas responde por 0,05% da produção global, devido a barreiras técnicas.
Serviço geológico e perspectiva de longo prazo
O sucesso da estratégia dependerá da criação de um Serviço Geológico Nacional plenamente operacional, capaz de gerar informações sistemáticas e confiáveis sobre o subsolo, reduzindo incertezas para investidores e o Estado.
A expectativa é transformar o “ouro invisível” das terras raras em realidade sustentável para o desenvolvimento paraguaio. O desafio envolve governança, dados técnicos, regulação moderna e atenção aos impactos ambientais, em um processo graduaal e planejado.
