Brasileiros que migraram para a Irlanda em busca de salários maiores encontraram nos frigoríficos jornadas prolongadas, acidentes, humilhações e contratos considerados abusivos por trabalhadores e diplomatas. Em 2024, 4,5 mil brasileiros receberam novas autorizações de trabalho, enquanto 66% das permissões do processamento de carne desde 2020 foram destinadas a brasileiros.
A indústria da carne transformou a Irlanda em destino de uma nova leva de trabalhadores brasileiros, atraídos principalmente por salários muito superiores aos pagos para funções semelhantes no Brasil. Nos frigoríficos, porém, parte desses imigrantes relata jornadas acima de 12 horas, acidentes, funções para as quais não recebeu treinamento, humilhações e medo de reclamar por depender do emprego e do visto.
A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) publicou o quadro em 30 de janeiro de 2025 sob a expressão de que os brasileiros estariam “comendo o pão que o diabo amassou” e reproduziu uma investigação da BBC News Brasil, assinada por Luiz Fernando Toledo e Laís Alegretti. Durante três meses, a reportagem ouviu mais de dez brasileiros em diferentes cidades irlandesas e teve acesso a telegramas da Embaixada do Brasil em Dublin.
Telegramas brasileiros falam em trabalho precário, insalubre e turnos prolongados

As comunicações diplomáticas obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação foram produzidas em 2024 e registravam preocupação com trabalhadores submetidos a condições descritas como precárias, insalubres e abusivas.
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Os documentos também citavam múltiplas funções, segurança deficiente, jornadas prolongadas e casos de salário inferior ao mínimo. Na avaliação registrada pela representação brasileira naquele momento, faltava disposição governamental para uma fiscalização mais sistemática das empresas.
Irlanda concedeu 4,5 mil novas autorizações a brasileiros em 2024
O fluxo migratório cresceu junto com a procura por trabalhadores. Somente em 2024, brasileiros receberam 4,5 mil novas permissões de trabalho na Irlanda, número muito acima do observado uma década antes, quando não chegava a mil por ano.
O Itamaraty estimava em aproximadamente 80 mil o número de brasileiros vivendo no país, incluindo residentes temporários e pessoas em diferentes situações migratórias.
Brasileiros receberam 66% das permissões para processamento de carne desde 2020
A concentração fica ainda mais clara quando se observa apenas a indústria da carne. Das 8 mil autorizações de trabalho concedidas desde 2020 a pessoas de fora da União Europeia e do Espaço Econômico Europeu para esse segmento, 66% foram destinadas a brasileiros.
Recrutadores e especialistas ouvidos pela reportagem apontam experiência prévia em frigoríficos, disposição para o trabalho pesado e dependência do visto entre os fatores que tornam os brasileiros procurados pelas empresas.
Guilherme perdeu um dedo meses depois de chegar à Irlanda

O tocantinense Guilherme dos Santos, hoje com 34 anos, mudou-se para a Irlanda e sofreu em 2021 um acidente poucas semanas depois de começar a trabalhar em um frigorífico.
Ele contou que estava usando uma arma no processo de abate quando o animal movimentou a cabeça e o equipamento disparou contra sua mão. O tiro atingiu um tendão da palma e levou Guilherme a passar por três cirurgias.
Três cirurgias não evitaram amputação e perda de força na mão
Duas operações tentaram reconstruir a região lesionada, mas um dos dedos precisou ser amputado. Guilherme também fraturou o anelar e afirma ter perdido força na mão.
O trabalhador disse que recebeu apoio inicial da empresa durante o tratamento, mas posteriormente levou o caso à Justiça. Segundo seu relato, ele não havia sido treinado para operar a arma usada na sangria do animal.
Mesmo com dores, brasileiro continua no mesmo frigorífico
Guilherme passou a atuar na área de limpeza de carcaças da mesma empresa e considera voltar ao Brasil depois de cumprir o prazo necessário para conseguir residência na Irlanda.
A experiência deixou uma consequência profissional clara para ele: não pretende continuar trabalhando em frigoríficos. Apesar disso, quando questionado sobre a decisão de migrar, respondeu que valeu a pena, embora tenha dito que ninguém iria para aquele trabalho pensando em permanecer por muito tempo.
Advogado relata medo de processar empresas por causa do visto
O advogado brasileiro Bruno Borges, do escritório Murray Flynn Solicitors, em Dublin, atua há quatro anos em processos relacionados a acidentes com lesões.
Segundo Borges, a maioria de seus clientes em casos de acidentes de trabalho atua justamente na indústria de processamento de carne. Ele afirma que trabalhadores acabam lesionados pelo peso da atividade e por irregularidades e que alguns evitam buscar a Justiça por medo de comprometer o visto.
Lucas chegou para trabalhar na desossa e acabou enviado ao abate

Lucas dos Anjos, de 27 anos, mudou-se para a Irlanda em 2020 depois de ser selecionado ainda no Brasil. A empresa pagou passagem, hospedagem, acomodação inicial e adiantou 100 euros.
Contratado inicialmente para atuar na desossa, Lucas acabou direcionado para o abate. Ele desembarcou com um grupo de 20 pessoas, que, segundo seu relato, precisava aprender pelo menos três funções diferentes.
“Ou você aprende, ou te mando de volta para o Brasil”
Lucas afirma que os trabalhadores recebiam pressão para dominar rapidamente atividades que nunca haviam executado. Segundo ele, um supervisor ameaçava devolver ao Brasil quem não conseguisse aprender.
Depois de cerca de um ano, Lucas deixou a primeira empresa e encontrou vaga em um frigorífico menor. O estabelecimento era chamado por brasileiros de “pela jegue”, expressão associada às condições degradantes relatadas pelos trabalhadores.
Jornada passou de 12 horas e trabalhador relata punição para quem fosse embora
No segundo frigorífico, Lucas afirmou ter trabalhado mais de 12 horas em um único dia, sem horário definido para terminar.
Segundo ele, quem deixasse o serviço antes era prejudicado posteriormente e poderia não ser chamado para trabalhar, situação particularmente sensível porque o pagamento era semanal.
Couro de 50 kg era arrastado sozinho durante o dia
Lucas também descreveu problemas de segurança. Relatou acidentes com facas, trabalhadores passando mal e falta de pessoal suficiente para prestar primeiros socorros.
Em uma das atividades, afirmou que precisava arrastar sozinho um couro de aproximadamente 50 kg durante o dia inteiro. O esforço provocou inchaço em sua virilha.
Pedido por melhores condições terminou em demissão e processo
Lucas participou com outros colegas de uma mobilização por melhorias no ambiente de trabalho e acabou demitido, segundo seu relato.
Ele levou o caso à Justiça e conseguiu uma indenização em 2024. No mesmo ano, começou em um frigorífico maior, onde estava havia quatro meses quando foi entrevistado e avaliava as condições como melhores.
Embaixada vê trabalhadores dos frigoríficos como grupo especialmente vulnerável
Os documentos diplomáticos classificaram a comunidade brasileira empregada nos frigoríficos como “especialmente vulnerável”.
Entre os fatores citados estavam falta de domínio do inglês, isolamento em cidades do interior e dificuldade para se mobilizar coletivamente. O medo de perder o emprego depois de reclamar também aparece como preocupação recorrente.
Cinco de seis empresas fiscalizadas tinham irregularidades em 2023
A fiscalização trabalhista cabe à Comissão de Relações de Trabalho da Irlanda (WRC). O relatório mais recente citado pela investigação mostra que, em 2023, o órgão visitou seis empresas do setor de carnes e encontrou irregularidades em cinco delas.
Em 2022, a proporção também foi elevada: 15 das 20 empresas fiscalizadas apresentavam falhas. O governo irlandês lançou no fim de 2024 uma pesquisa com trabalhadores do setor, cujos resultados ainda não haviam sido divulgados.
Embaixador citou contratos abusivos, salários deprimidos e segurança precária
No início de 2024, o então embaixador brasileiro Marcel Biato apresentou à WRC problemas observados nas contratações.
Segundo ele, trabalhadores eram frequentemente submetidos a contratos abusivos, condições insalubres, horários extensos e salários deprimidos, em desacordo com ofertas feitas durante o recrutamento no Brasil.
Biato também apontou contratos com muitas obrigações para os empregados e poucos direitos, além de múltiplas funções realizadas com segurança precária.
Irlanda tinha 70 inspetores trabalhistas e previa chegar a 80
A WRC informou possuir 70 inspetores para todo o país e disse que o quadro subiria para 80 em 2025.
O órgão afirmou que seleciona empresas para fiscalização a partir de reclamações de trabalhadores, empregadores e cidadãos, além de informações fornecidas por outras agências. A comissão não comentou especificamente as críticas apresentadas na reportagem.
Brasileiro relata horas extras sem pagamento e xingamentos no trabalho
Um trabalhador que chegou à Irlanda em 2022 pediu anonimato porque permanecia empregado e temia perder o visto. Ele afirmou não receber pelas horas extras e considerou a fiscalização mais fraca que aquela existente em seu emprego anterior no Brasil.
O brasileiro também relatou ausência de bebedouro dentro da fábrica, cobranças de gerentes durante pausas e xingamentos que alguns colegas sequer compreendiam porque não dominavam o inglês.
Falta de inglês aumenta dependência de chefes e empregadores
O mesmo funcionário afirmou que a empresa havia prometido pagar um curso de inglês, mas isso não ocorreu. Ele disse ter aprendido o idioma no cotidiano, sob pressão dos superiores.
A barreira linguística aparece repetidamente nos relatos porque muitos brasileiros chegam ao país sem falar inglês, fator que dificulta tanto a adaptação ao trabalho quanto o conhecimento dos próprios direitos.
Salário de 30 mil euros por ano ajuda a explicar corrida pelas vagas
A recrutadora Micheline Oliveira trabalha desde 2018 para alguns dos maiores frigoríficos da Irlanda, depois de mais de dez anos no mesmo setor no Brasil.
A empresa para a qual ela recruta oferece contrato inicial de dois anos, documentação e passagem aérea custeadas e salário anual de 30 mil euros, equivalente na reportagem a aproximadamente R$ 16 mil mensais.
Processos seletivos chegam a reunir centenas de candidatos por vaga
Nas redes sociais, grupos de brasileiros compartilham informações sobre processos de recrutamento que podem receber centenas de interessados para uma única oportunidade.
Há também venda de “métodos” para obter vagas e agências que anunciam salários até cinco vezes superiores aos pagos no Brasil para a mesma função, além de passagem e moradia.
Micheline afirma que o principal atrativo ainda é financeiro. Muitos candidatos dizem querer mudar de vida, comprar uma casa e acumular dinheiro mais rapidamente.
Europeus consideram serviço pesado e brasileiros ganharam espaço
Segundo a recrutadora, muitos trabalhadores europeus evitam o setor por considerarem o serviço pesado, o que ajuda a manter vagas disponíveis para imigrantes.
Os brasileiros ganharam reputação de trabalhadores dedicados e com permanência prolongada nas empresas. Parte deles busca completar os cinco anos necessários para a cidadania, enquanto outros aprendem inglês e conseguem chegar a funções de encarregado.
Duas mudanças em 2024 deram mais liberdade a trabalhadores estrangeiros
A legislação irlandesa passou por duas alterações em 2024 que beneficiaram titulares de vistos de trabalho e suas famílias.
Cônjuges e parceiros passaram a poder trabalhar sem uma autorização adicional. Também foi reduzido de um ano para nove meses o período durante o qual o trabalhador precisa permanecer vinculado à empresa que o levou à Irlanda.
Especialistas citados na reportagem esperavam que a redução do prazo diminuísse a vulnerabilidade a abusos.
Setor afirma que funcionários são tratados de forma igualitária
A Meat Industry Ireland (MII), que representa diversas empresas de processamento de carne bovina, contestou as inferências da investigação.
A entidade afirmou que trabalhadores de empresas associadas são valorizados e tratados de forma igualitária, inclusive os contratados fora da União Europeia e do Espaço Econômico Europeu.
Segundo a associação, remuneração e condições seguem o sistema de permissões do governo irlandês, e os frigoríficos passam por auditorias e inspeções regulares de saúde, segurança e trabalho. A MII ressaltou que não representa todas as empresas do setor.
Pesquisador diz que salário pode significar ascensão, mas “frigoríficos moem as pessoas”

O pesquisador Igor Machado, mestre em Antropologia Social e doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, estudou brasileiros na Irlanda e avalia que a migração pode representar ascensão social para profissionais vindos do mesmo setor no Brasil.
Ele destaca menor desigualdade salarial e maior acesso a determinadas políticas sociais. No ambiente de trabalho, porém, sua avaliação é muito mais dura: segundo Machado, a atividade repetitiva, pesada e sujeita a acidentes provoca desgaste físico intenso.
Migração para frigoríficos começou décadas antes da atual onda
A relação entre brasileiros e a indústria da carne irlandesa é antiga. Machado aponta uma onda de contratações já nos anos 1990, com trabalhadores que posteriormente levaram familiares para o país.
Pesquisa dos acadêmicos Garret Maher e Mary Cawley remonta essa conexão aos anos 1970. Um irlandês ligado à exportação de carne em Goiás começou a receber pedidos de frigoríficos de seu país que enfrentavam escassez de mão de obra.
Grande parte dos recrutados veio da Vila Fabril, nos arredores de Anápolis, depois que o fechamento de um frigorífico deixou 900 pessoas desempregadas e com experiência no setor.
De 1.075 brasileiros em 2002, população quadruplicou em quatro anos
O censo irlandês contabilizou 1.075 brasileiros no país em 2002. Apenas quatro anos depois, em 2006, esse número já havia quadruplicado.
A expansão histórica desembocou em uma comunidade estimada pelo Itamaraty em 80 mil brasileiros, enquanto as permissões recentes mostram que a indústria da carne continua funcionando como importante porta de entrada para trabalhadores.
Maurício Lino diz que veteranos trabalham “na base de injeção”

Maurício Lino, de 50 anos, vive na Irlanda desde 2003 e passou anos trabalhando como desossador. Em 2019, problemas causados por esforço repetitivo comprometeram os movimentos de uma de suas mãos.
Ele ficou três anos afastado, passou por duas cirurgias e recebeu de um médico o alerta de que poderia perder o movimento do braço caso mantivesse o mesmo ritmo.
Maurício afirma que trabalhadores com mais de dez anos no setor chegam a depender de injeções para aliviar a dor, principalmente em ombros, punhos e mãos.
Auxílio durante a pandemia não chegava a um quinto do antigo salário
Nos primeiros meses do afastamento, a empresa continuou pagando Maurício. A situação mudou no início da pandemia, em 2020, quando ele deixou de receber o salário e passou a depender de um auxílio governamental.
Segundo ele, o benefício correspondia a menos de um quinto do que ganhava trabalhando. Durante esse período, aproximou-se da ONG Migrant Rights Centre Ireland e começou a aprender mais sobre legislação trabalhista.
Pesquisa com 151 imigrantes apontou problemas na terceirização
Maurício participou de um trabalho da Migrant Rights Centre Ireland (MRCI) que entrevistou 151 imigrantes, incluindo brasileiros empregados no setor da carne.
O estudo identificou muitos contratos feitos por meio de agências terceirizadas, em vez de contratação direta pelos frigoríficos. A conclusão apresentada foi de que o modelo poderia reduzir salários e deixar trabalhadores inseguros sobre seus direitos e sobre a quem recorrer.
Brasileiros passaram a criar redes para cobrar salários e melhores condições
Maurício voltou à mesma empresa e ajudou a formar uma associação de trabalhadores, além de atuar como referência para brasileiros que precisam encaminhar denúncias ou entender direitos trabalhistas e regras de visto.
A organização coletiva tornou-se uma resposta às vulnerabilidades identificadas tanto pelos trabalhadores quanto pela diplomacia brasileira. Entre salários em euro, possibilidade de residência e relatos de jornadas pesadas, acidentes e abusos, os frigoríficos continuam ocupando um lugar central na experiência migratória de milhares de brasileiros na Irlanda.
Para você, salários maiores e a possibilidade de construir uma vida na Europa compensam os riscos e as condições de trabalho relatadas por brasileiros nos frigoríficos irlandeses? Deixe sua opinião nos comentários.

