No vídeo do canal Recanto Curicaca, com mais de 137 mil visualizações, Rui mostra os canais internos do aquecedor de alvenaria, os erros que cometeu na obra e os termômetros provando 21,7°C dentro de casa com 3,7°C lá fora
A estufa russa saiu dos manuais antigos e entrou numa casa de madeira do Sul do Brasil, e o resultado está medido em vídeo publicado em 20 de junho de 2026 no canal Recanto Curicaca, no YouTube. Nele, Rui apresenta o aquecedor de alvenaria que construiu com as próprias mãos: queimando 15 kg de lenha numa única fornada, a estrutura mantém a casa de 90 m² aquecida durante a noite inteira e boa parte do dia seguinte.
O detalhe que muda tudo é a massa. Segundo o canal Recanto Curicaca, foram 430 tijolos só na parte de acumulação de calor, uma estrutura de mais de uma tonelada que absorve o calor do fogo e o devolve lentamente para a casa por horas, mesmo depois de a lenha virar brasa.
A casa que foi projetada para segurar o calor
Rui abre o vídeo com um alerta que derruba a expectativa de solução mágica: a maior parte do calor armazenado na estufa precisa ficar dentro da casa, e a construção dele foi feita para garantir isso. A casa é de madeira, com paredes duplas e grossas, elevada do chão frio, assoalho de madeira espesso, portas e janelas vedadas e subcobertura de madeira.
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O mais surpreendente é o que não tem: nenhum isolante industrial, nem lã de vidro nem lã de rocha, só madeira e ar, segundo o canal Recanto Curicaca. Rui ainda cutuca um mistério nacional: com raríssimas exceções, o jeito de construir casa no Brasil é o mesmo de norte a sul, e assim quem mora no calor sofre e quem mora no frio também.
Os canais escondidos por onde o calor viaja

O que ninguém vê na estufa russa pronta é justamente o seu segredo: os canais internos. Conforme o canal Recanto Curicaca mostra na obra, o calor sai da fornalha, percorre uma sequência de canais formados por tijolos e estruturas soltas e só então escapa pela chaminé, entregando energia para a alvenaria a cada curva do caminho.
A versão de Rui tem até mais canais que o modelo grande do manual. Depois que se entende como os canais são feitos, a quantidade é decisão do construtor, explica ele no vídeo. A base foi feita com pedras e cimento, fora do assoalho da casa, com um suporte de tijolos preenchido com areia, e a estufa ocupa praticamente o centro da planta, para não desperdiçar calor aquecendo parede voltada para fora.
Um mês de obra nas mãos de quem nunca tinha assentado tijolo
A parte mais inspiradora da história é a inexperiência do construtor. Rui admite que tinha pouquíssima vivência de alvenaria e, por isso, montou a estufa inteira a seco, fiada por fiada, numerou todas as peças, desmontou tudo e só então remontou com argamassa.
A obra levou perto de 1 mês, entre conferências de esquadro e prumo e correções de erros. Alguém com experiência em alvenaria, garante ele no vídeo, construiria a mesma estufa em poucos dias. O material principal foram tijolos maciços comuns, com refratários apenas na base da fornalha, na base do forno e em um dos canais, e até os tijolos tortos e fora de padrão entraram na parede.
Os erros que ele confessa: argamassa refratária e tijolo do manual
O vídeo vale ouro pelos erros assumidos. A argamassa refratária usada em alguns pontos trincou ou soltou já no primeiro fogo, mesmo brando; onde Rui aplicou a mistura de cimento, areia e açúcar, o resultado foi melhor. E a regra de ouro que ele aprendeu: quanto mais fina a camada de argamassa, menor a chance de trinca, o que ficou difícil com tijolos irregulares.
O outro arrependimento foi seguir as medidas do manual antes de escolher os tijolos. Se fosse construir de novo, ele primeiro selecionaria o material, montaria duas fiadas de teste e só então ajustaria as dimensões, cortando muito menos peça. As trincas que ficaram, garante, não comprometem nem a segurança nem a eficiência.
Os termômetros não mentem: 21,7°C dentro, 3,7°C lá fora

A prova de desempenho vem em números, com data e hora. Segundo o canal Recanto Curicaca, no dia 16 de junho, às 21h17, o termômetro marcava 23,7°C subindo dentro de casa e 8,4°C descendo lá fora. Na manhã seguinte, dia 17, às 5h, ainda havia 21,7°C no ambiente interno contra 3,7°C no exterior.
Na parede da própria estufa, a medição chegou a 42,6°C e seguia subindo, com pontos onde não dá para encostar a mão. A estufa leva cerca de 2 horas para esquentar e, depois disso, o casal apaga o fogo antes de dormir, fecha a entrada de ar e o registro da chaminé, e a alvenaria segue irradiando calor a noite toda. A sensação, descreve Rui, é a de entrar num lugar onde o calor envolve o corpo, como ficar no sol, sem o clássico problema do fogão a lenha de esquentar as costas e gelar o peito.
Porta de ferro fundido, forno de pão e chaminé acima da cumeeira
As adaptações locais são a parte mais técnica do vídeo. No lugar da porta de aço sugerida pelo manual, que empena com o calor prolongado, Rui garimpou uma porta de ferro fundido de 34 por 26 centímetros, material que não deforma, e repetiu o tamanho na porta do forno.
Sim, tem forno: empurrando as brasas para o compartimento, sobra calor de sobra para assar pão e fazer cozidos, um opcional que ele decidiu incluir porque forno é sempre útil. A chaminé, encomendada num modelo antirretorno, sobe cerca de 1,10 metro acima da cumeeira e não devolve fumaça nem com vento forte, instalada sobre placa de concreto em vez da chapa de aço do manual. A fornalha, com quase 1 metro de profundidade, engole lenha irregular e pedaços grandes, sem exigir corte miúdo.
O que a estufa russa exige em troca
Nem tudo é conto de fadas, e o vídeo não esconde. Como todo equipamento a lenha, a estufa exige limpeza periódica da chaminé e dos dutos de fumaça, com pontos de acesso que normalmente pedem a desmontagem de alguma parte, e o intervalo depende da lenha: madeira resinosa suja mais rápido.
O calor forte também seca o ar. O casal dorme com a porta dos quartos fechada, mantendo o ambiente de dormir cerca de 5°C mais frio e com umidade perto de 70%, um arranjo que junta conforto térmico na sala e ar respirável no quarto. A serpentina para aquecer água era possível, mas Rui desistiu do peso da caixa d’água e do boiler no sótão.
A tecnologia centenária que o Brasil frio ignora
O arremate do vídeo é uma provocação. Nada ali é invenção nova: o projeto da estufa russa é público, o manual está disponível, e Rui repete que não era pedreiro quando começou e talvez ainda não seja. Uma estufa dessas pode atender dois andares e até ser acoplada a um fogão.
Mesmo assim, uma solução simples, barata e comprovada em regiões frias do mundo continua praticamente desconhecida por boa parte de quem vive no frio brasileiro, onde o inverno do Sul castiga casas construídas no mesmo padrão do Nordeste. A estufa de 430 tijolos do Recanto Curicaca funciona como um recado: o problema do frio dentro de casa no Brasil não é falta de tecnologia, é falta de informação.
Assista à estufa russa por dentro em vídeo
A construção completa, dos canais internos escondidos aos termômetros medindo o desempenho na madrugada gelada, está no canal Recanto Curicaca, no YouTube.
Depois de ver 15 kg de lenha aquecerem 90 m² a noite inteira, fica a pergunta: por que o Sul do Brasil, que se veste de inverno todos os anos, ainda constrói casa como se morasse no verão eterno? Conta pra gente nos comentários: você construiria uma estufa russa na tua casa?

