Um sítio monumental no México reacendeu discussões sobre astronomia, organização social e engenharia da paisagem entre os maias antigos, com uma interpretação que conecta arquitetura, simbolismo e tecnologia de mapeamento em escala rara na arqueologia mesoamericana.
Aguada Fénix, no sudeste do México, voltou ao centro do debate arqueológico após um estudo defender que o sítio não era apenas uma construção monumental da tradição maia, mas um grande cosmograma criado para representar a ordem do universo.
Segundo os autores, o complexo, datado entre 1050 a.C. e 700 a.C., foi planejado com eixos, canais, passagens elevadas e estruturas dispostas em cruz, em uma escala comparável ou até superior à de cidades mesoamericanas posteriores.
O trabalho foi publicado na revista Science Advances e é liderado pelo arqueólogo Takeshi Inomata, da Universidade do Arizona.
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De acordo com a pesquisa, Aguada Fénix reúne a mais antiga e maior arquitetura monumental conhecida na área maia.
A hipótese central do artigo é que a paisagem inteira do sítio foi organizada para expressar uma visão de mundo baseada nos eixos norte-sul e leste-oeste, associados à organização do espaço, ao movimento do Sol e à passagem do tempo.
Aguada Fénix e a hipótese do cosmograma maia
Aguada Fénix já era conhecida pelo tamanho monumental, mas a nova pesquisa amplia a interpretação sobre a função do sítio.
Com base em escavações e em levantamentos por LiDAR, técnica que usa pulsos de laser lançados a partir de aeronaves para mapear o relevo sob a vegetação, os pesquisadores identificaram um sistema de canais, calçadas, corredores e uma barragem que se cruzam para formar padrões geométricos em larga escala.
Segundo o estudo, o conjunto mede cerca de 9 por 7,5 quilômetros, dimensão que os autores comparam à de centros urbanos mesoamericanos muito posteriores, como Tikal e Teotihuacan.
No centro do complexo está um agrupamento de pequenas plataformas e edifícios conhecido pelos arqueólogos como grupo E.
Esse tipo de arranjo arquitetônico aparece em vários sítios mesoamericanos e costuma ser associado à observação do nascer do Sol em datas específicas, segundo a literatura arqueológica citada na cobertura do estudo.
Foi nessa área central que a equipe encontrou depósitos enterrados com possível função ritual, incluindo ornamentos de pedra verde, vasos cerâmicos e pigmentos.

Entre os objetos descritos no material divulgado pela Universidade do Arizona e reproduzidos por reportagens sobre a pesquisa estão peças que podem representar um crocodilo, uma ave e, possivelmente, uma mulher dando à luz.
Astronomia maia, eixos solares e organização do espaço
A interpretação de Aguada Fénix como cosmograma se apoia principalmente na orientação espacial do sítio.
Em entrevista à Live Science, Inomata afirmou que os antigos ocupantes “provavelmente pensavam que o universo era ordenado de acordo com os eixos norte-sul e leste-oeste”.
Sobre o eixo leste-oeste, ele acrescentou que ele “estava ligado ao movimento do Sol e provavelmente também à passagem do tempo”.
A Universidade do Arizona informou ainda que a linha central do monumento se alinha ao nascer do Sol em 17 de outubro e 24 de fevereiro, datas separadas por um intervalo de 130 dias, metade de um ciclo de 260 dias associado ao calendário ritual mesoamericano.
Para os autores, esse arranjo reforça a interpretação de que espaço e tempo eram concebidos de forma integrada.
Em outra declaração reproduzida pela Live Science, Inomata afirmou que os construtores alinharam Aguada Fénix a uma direção específica do nascer do Sol ligada a esse ciclo de 260 dias, depois central na tradição maia e asteca.
A interpretação apresentada no artigo, porém, é tratada pelos próprios pesquisadores e pela cobertura especializada como uma hipótese arqueológica sustentada por evidências espaciais e contextuais, e não como um ponto encerrado no debate acadêmico.
Construção coletiva e sociedade maia antiga
Outro ponto destacado no estudo é a ausência de sinais claros de hierarquia social no local.
Segundo os pesquisadores, não foram encontrados indícios do tipo de organização rígida observada em cidades maias posteriores, como Tikal e Copán.
A equipe também estima que mais de mil pessoas tenham sido necessárias para construir Aguada Fénix.
Esse dado é usado pelos autores para sustentar a hipótese de um grande esforço coletivo.

No artigo, os pesquisadores sugerem que o peso cultural e cerimonial do projeto pode ter sido suficiente para mobilizar a população sem necessidade de coerção direta.
Eles escreveram que grandes eventos de construção e rituais coletivos “podem também ter envolvido banquetes, troca de bens entre diferentes grupos e oportunidades de encontrar parceiros”, o que teria criado incentivos adicionais para reunir pessoas.
Além disso, os autores mencionam a possibilidade de participação de figuras com conhecimentos especializados em observação astronômica e cálculos calendáricos na concepção do projeto.
Debate entre especialistas sobre o sítio maia no México
As reações reunidas pela Live Science mostram que a interpretação proposta no estudo não é consensual.
Michael Smith, professor de arqueologia da Universidade Estadual do Arizona, afirmou que o sítio é “fascinante e importante”, mas avaliou que os autores ainda não demonstraram de forma suficiente que ele era, de fato, um cosmograma.
Segundo Smith, seria necessário definir com mais clareza o que deve ser considerado um cosmograma e estabelecer um método mais preciso para identificá-lo.
Outros especialistas ouvidos pela reportagem receberam os resultados de forma mais favorável.
David Stuart, professor da Universidade do Texas em Austin, disse ver a descoberta como importante e elogiou a análise conduzida pela equipe.
Arlen Chase, da Universidade de Houston, avaliou que os depósitos encontrados no grupo E reforçam a interpretação apresentada pelos autores.
Já James Aimers, da Universidade Estadual de Nova York em Geneseo, afirmou que a classificação depende da definição adotada, mas destacou como ponto central do artigo a proposta de que a monumentalidade do local tenha resultado de construção coletiva, e não da direção de governantes poderosos.
LiDAR, arqueologia e novas leituras sobre Aguada Fénix
Como Aguada Fénix é anterior ao surgimento da escrita maia, não há registros textuais produzidos por seus construtores que permitam explicar com precisão o significado do complexo.
Esse limite faz com que parte das conclusões dependa da combinação entre escavação, análise de objetos, estudo do traçado da paisagem e comparação com tradições posteriores.
Ao mesmo tempo, o caso mostra como tecnologias como o LiDAR ampliaram a capacidade de investigação arqueológica na Mesoamérica nos últimos anos.
Foi esse tipo de mapeamento que permitiu identificar a escala do sítio e mostrar que seus canais, corredores e plataformas não eram elementos isolados, mas partes de uma composição maior.
Em vez de revelar apenas uma construção antiga, a técnica permitiu aos pesquisadores reconstruir a organização espacial de um centro ritual que, segundo a interpretação do estudo, articulava astronomia, engenharia da paisagem e simbolismo.

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