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No Canadá um cozinheiro sem experiência ganha 16 dólares por hora mais gorjetas e no Brasil o mesmo profissional recebe 9 reais por hora em jornadas de até 15 horas em cozinhas que chegam a 50 graus

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 24/03/2026 às 19:14
Assista o vídeoNo Canadá, um cozinheiro ganha 16 dólares por hora mais gorjetas. No Brasil, o mesmo profissional recebe R$ 9 por hora em jornadas de 15h a 50°C. Entenda por quê.
No Canadá, um cozinheiro ganha 16 dólares por hora mais gorjetas. No Brasil, o mesmo profissional recebe R$ 9 por hora em jornadas de 15h a 50°C. Entenda por quê.
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Um cozinheiro iniciante no Canadá começa ganhando entre 15 e 25 dólares canadenses por hora, mais gorjetas que podem ultrapassar mil dólares mensais. No Brasil, o mesmo profissional recebe em média R$ 1.797 por mês, o equivalente a R$ 9 por hora, em cozinhas com temperaturas que beiram os 50°C e rotatividade de 74%.

Ser cozinheiro no Brasil e no Canadá são experiências tão diferentes que parecem profissões distintas. No Canadá, um cozinheiro sem nenhuma experiência começa ganhando 16 dólares canadenses por hora, com reajustes rápidos para 17 e depois 19 dólares conforme o desempenho. Somando gorjetas, o rendimento mensal ultrapassa 4 mil dólares canadenses. No Brasil, um auxiliar de cozinha ganha em média R$ 1.797 por mês, praticamente o salário mínimo. Dividindo por 25 dias trabalhados e 8 horas de jornada, o valor por hora fica em cerca de R$ 9.

A diferença salarial é brutal, mas não é o único abismo entre os dois países. No Brasil, a jornada de um cozinheiro pode ultrapassar 12 horas, com relatos de turnos de até 15 horas em cozinhas que beiram os 50°C. A rotatividade no setor de restaurantes brasileiro chegou a 74,3% no primeiro semestre de 2024, mais que o dobro da média do setor de serviços. Dos trabalhadores que saíram de restaurantes durante a pandemia, 62% não querem voltar. O cenário levanta uma questão urgente: por que ninguém mais quer ser cozinheiro no Brasil?

O salário de um cozinheiro no Brasil: R$ 9 por hora num setor que não para de perder gente

O setor de restaurantes no Brasil emprega diretamente 4,94 milhões de pessoas em mais de 1,3 milhão de estabelecimentos, dos quais 94% são microempresas. Padarias, lanchonetes, bares, buffets e marmitex compõem a maioria desses negócios, quase sempre com margem de lucro apertada.

Para o cozinheiro que trabalha nesses locais, o salário inicial é de R$ 1.797 em média. Mesmo com experiência, a faixa salarial do cozinheiro no Brasil raramente ultrapassa R$ 2.500 a R$ 3.500. O teto é baixo e a escada é curta.

Em Curitiba, o piso salarial do cozinheiro era de R$ 1.585 em 2022 e subiu para R$ 1.889 em 2025, basicamente o acumulado da inflação, sem ganho real de poder de compra. Com esse salário, um cozinheiro no Brasil não consegue nem sobreviver com dignidade numa capital.

E a comparação com alternativas como a entrega por aplicativo torna tudo pior: um entregador do iFood teve ganho bruto médio de R$ 28 por hora em 2024, mais que o triplo do que ganha um cozinheiro registrado.

Cozinheiro no Canadá: salário justo, gorjetas reais e progressão na carreira

No Canadá, o painel oficial do governo, o Job Bank, mostra que cozinheiros normalmente ganham entre 15 e 25 dólares canadenses por hora, dependendo da região. Um cozinheiro iniciante que começa ganhando 16 dólares pode chegar a 19 em poucos meses, simplesmente mostrando dedicação e confiabilidade.

Além do salário base, as gorjetas complementam a renda de verdade: em alguns meses, o valor extra pode ultrapassar mil dólares canadenses. No final, o cozinheiro leva para casa mais de 4 mil dólares por mês.

O trabalho é puxado, a cozinha é quente e a pressão existe como em qualquer lugar do mundo. Mas há uma diferença fundamental: o cozinheiro no Canadá é remunerado de forma justa pelo esforço que entrega.

Quanto mais ele baixa a cabeça e trabalha, mais ganha. Se cobre um colega, faz hora extra ou pega fim de semana, o dinheiro acompanha. No Brasil, o cozinheiro que acumula funções raramente vê diferença no contracheque.

Jornadas de 15 horas, 50°C na cozinha e uma cultura de gritaria: a realidade do cozinheiro brasileiro

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As condições de trabalho de um cozinheiro no Brasil vão muito além do salário baixo. Jornadas que ultrapassam 12 horas em pé, em espaços reduzidos com temperaturas que podem chegar a 50°C, são parte da rotina.

O risco constante de cortes e queimaduras é real e, depois de certa hora, o cozinheiro não está mais trabalhando: está apenas tentando sobreviver ao turno. E há a parte social que pesa: fins de semana, feriados e datas comemorativas são os momentos em que todo mundo está vivendo, e o cozinheiro está servindo quem está vivendo.

A cultura dentro de muitas cozinhas brasileiras ainda trata o grito como ferramenta de gestão. A chef Izabela Dolabela, participante da primeira edição do MasterChef Profissional, relatou que o ambiente é frequentemente tóxico, com gritaria, abuso de poder e sobrecarga.

Em 2025, 41% dos estabelecimentos identificaram sinais de adoecimento mental entre seus funcionários, e 45% desses casos resultaram em afastamento. O chef Franklin, vice-campeão do MasterChef Profissionais, publicou um manifesto pedindo regulamentação da profissão de cozinheiro e condições mais dignas de trabalho.

Por que os restaurantes brasileiros pagam tão mal ao cozinheiro

A resposta está na matemática dos restaurantes. O lucro líquido médio dos que conseguem operar com saldo positivo não ultrapassou 10% em 2024. Mais da metade dos restaurantes brasileiros opera sem lucro. Em outubro de 2025, 23% tinham prejuízo e 35% tinham dívidas atrasadas.

Os insumos subiram 6,3% em 2024, contra inflação geral de 4,83%. A comida fica mais cara, mas o cliente não aceita pagar proporcionalmente mais. O resultado é que sobra menos de R$ 0,10 de cada real faturado.

Essa conta apertada explica por que o salário do cozinheiro não sobe. Não é apenas uma questão de ganância do empregador. O dono diz que não consegue pagar mais senão quebra. O cozinheiro diz que não consegue sobreviver só com isso. E os dois, ao mesmo tempo, estão dizendo a verdade.

O setor está preso num dilema estrutural que não se resolve com boa vontade de um lado só. Enquanto a economia brasileira não crescer o suficiente para aumentar a renda disponível da população, a margem dos restaurantes segue apertada e o salário do cozinheiro segue estagnado.

62% não querem voltar: a pandemia mudou a relação do cozinheiro com os restaurantes

A pandemia foi o ponto de virada para milhares de cozinheiros no Brasil. O setor perdeu 1,2 milhão de postos durante a crise sanitária. Quando as vagas voltaram, os trabalhadores não. Dos que saíram, 62% declararam que não querem retornar.

Entre os que ainda estão, mais da metade pensa em mudar de área nos próximos 12 meses. E 90% dos empresários do setor consideram difícil ou muito difícil contratar. Há vaga, mas não há gente disposta a aceitar as condições oferecidas.

O cozinheiro que saiu durante a pandemia descobriu que existem alternativas. Entrega por aplicativo, trabalho remoto, comércio próprio ou simplesmente um emprego em outro setor que pague o mesmo, mas com condições menos brutais. Quando existe um mínimo garantido e alternativa real, o cozinheiro consegue dizer não.

E setores que historicamente pagam mal sentem o baque primeiro. A partir de maio de 2026, a NR-1 passa a obrigar empresas a incluírem riscos psicossociais no gerenciamento de saúde ocupacional, o que pode forçar mudanças nas cozinhas. Mas uma norma não muda cultura sozinha. O que muda cultura é gestão, remuneração justa e respeito.

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Sergio Carvalho
Sergio Carvalho
26/03/2026 12:23

Não li a matéria mas no Canadá o cozinheiro não ganha gorjeta somente o garçon e conforme as regras do sindicato, geralmente a confusão é grande.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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