Travessia além do Círculo Polar Antártico reforça presença brasileira em área estratégica do planeta, com estrutura científica embarcada, investimentos milionários e apoio direto às pesquisas conduzidas na Estação Comandante Ferraz durante a Operação Antártica.
A Marinha do Brasil informou que o Navio Polar “Almirante Maximiano” realizou, em 27 de janeiro de 2026, sua segunda navegação além do Círculo Polar Antártico, durante a 44ª edição da Operação Antártica (OPERANTAR), parte do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR).
A linha do Círculo Polar, situada aproximadamente na latitude 66°33′ S, marca uma das referências geográficas usadas para delimitar a região polar sul e concentra condições que tornam a navegação especialmente sensível a janelas de tempo e ao avanço do gelo.
Segundo a própria Marinha, operar nessas águas exige planejamento rigoroso e monitoramento contínuo, porque o cenário combina meteorologia severa, presença constante de gelo e variações extremas de luminosidade ao longo da temporada.
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Operação Antártica e presença brasileira no continente gelado

A OPERANTAR é realizada de forma regular desde o início das atividades brasileiras na Antártica, em 1982, e funciona como o eixo logístico que mantém a presença nacional no continente, apoiando campanhas científicas e o funcionamento da base brasileira.
Na edição 2025/2026, a Marinha descreve o “Almirante Maximiano” como uma plataforma que sustenta pesquisas e também ações de apoio à Estação Antártica Comandante Ferraz, além de levantamentos hidrográficos e coleta de dados meteorológicos.
Em relato divulgado pela Força, o comandante do navio relacionou a atuação no oceano austral à convergência entre ciência, tecnologia e presença do Estado em áreas de governança internacional.
A mesma comunicação aponta que o planejamento das atividades embarcadas depende de previsões meteorológicas de alta precisão, que orientam desde a pesquisa científica até as operações aéreas, condicionadas por períodos curtos de tempo seguro.
Estrutura científica: cinco laboratórios e hangar climatizado
O “Almirante Maximiano” passou por alterações estruturais para atender ao PROANTAR, com destaque para a instalação de cinco laboratórios e a construção de convés de voo e hangar climatizado com capacidade para acomodar dois helicópteros.

Em página institucional sobre o navio, a Marinha descreve a distribuição desses espaços de pesquisa entre laboratórios de ambiente seco e molhado, com áreas informadas de 50 m² (secos) e 20 m² (molhados), somando cinco instalações voltadas ao trabalho científico.
A estrutura de aviação aparece como parte do pacote operacional que permite deslocar equipes e equipamentos em curtas janelas meteorológicas, ampliando a capacidade de coleta de dados e de apoio a ações logísticas associadas ao programa antártico.
Investimento de R$ 140 milhões e conversão para missão polar
A Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar informa que o navio foi construído em 1974, nos Estados Unidos, com uso inicial como embarcação de apoio no Mar do Norte, e depois passou por conversão antes de ser selecionado pelo Brasil.
Ainda de acordo com a SECIRM, a aquisição foi efetivada em 3 de setembro de 2008, e as mudanças para adequação ao PROANTAR ocorreram no estaleiro Bredo, em Bremerhaven, na Alemanha, com incorporação formal à Marinha em 3 de fevereiro de 2009.
Um registro do Arquivo da Marinha aponta que, ao considerar também o valor de aquisição, o gasto do governo brasileiro com o navio, até o fim de 2008, ficou perto de R$ 140 milhões, cifra associada ao conjunto de obtenção e adaptação.
Rota estratégica e marcos históricos na Antártica
No comunicado sobre a travessia, a Marinha relata que o navio navegou nas proximidades de referências geográficas como as Ilhas Cruls, o Pico Almirante Alexandrino de Alencar e o Monte Rio Branco, citadas como marcos toponímicos ligados à memória científica, naval e diplomática brasileira.
A mesma nota associa as Ilhas Cruls ao legado do astrônomo Luís Cruls e destaca o simbolismo do Monte Rio Branco como homenagem ao Barão do Rio Branco, enquanto enquadra a passagem como parte de uma presença histórica que combina pesquisa e atuação institucional.
Estação Comandante Ferraz e exigência de atuação científica contínua
A Estação Antártica Comandante Ferraz fica na Península Keller, na Baía do Almirantado, na Ilha Rei George, e integra a rede de infraestrutura que sustenta projetos brasileiros de pesquisa na região.
O governo federal informou, na reinauguração da nova estação, que a estrutura tem 4,5 mil metros quadrados e capacidade para abrigar 64 pessoas, dado que atualiza descrições anteriores que citavam área superior a 4 mil m².
A página histórica da Marinha sobre a estação registra que o Brasil aderiu ao Tratado Antártico em 1975 e que o país foi aceito como Parte Consultiva em 27 de setembro de 1983, condição vinculada à manutenção de atividade científica relevante e contínua no continente.
Se a travessia além do Círculo Polar reforça a capacidade operacional brasileira em ambiente extremo, que resultados científicos e logísticos essas missões anuais ainda podem revelar sobre o oceano austral e o papel do Brasil na Antártica?

