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Não foi apenas o coração enfraquecido: depois de 10 dias no espaço profundo, os astronautas da missão Artemis II voltaram com a coluna expandida entre 5 e 7 centímetros, músculos atrofiados, alterações no equilíbrio e exposição a uma radiação nunca antes medida com tanta precisão em um voo tripulado

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 20/04/2026 às 17:13 Atualizado em 20/04/2026 às 17:16
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A volta da Artemis II mostrou como poucos dias além da proteção da Terra já afetam corpo e imunidade. Os dados da missão agora ajudam a definir os limites médicos e tecnológicos para levar humanos à Lua e, depois, a Marte.

Não foi apenas o coração enfraquecido: depois de 10 dias no espaço profundo, os astronautas da missão Artemis II voltaram com a coluna expandida entre 5 e 7 centímetros, músculos atrofiados, alterações no equilíbrio e exposição a uma radiação nunca antes medida com tanta precisão em um voo tripulado

Na noite de 10 de abril de 2026, às 20h07 no horário de Brasília, a cápsula Orion cortou o Pacífico a 30 km/h após uma reentrada a Mach 33, 33 vezes a velocidade do som, e os quatro astronautas da missão Artemis II tocaram a Terra pela primeira vez em quase dez dias.

Christina Koch saiu primeiro da escotilha, seguida por Victor Glover, Jeremy Hansen e Reid Wiseman. Nenhum deles foi direto para casa.

O resgate, operado pela Marinha dos EUA, deu início a uma maratona de testes físicos e médicos para avaliar os impactos da microgravidade no corpo humano e validar a segurança das futuras caminhadas lunares.

A missão havia levado a tripulação a 406.771 quilômetros da Terra, o ponto mais distante que qualquer ser humano já alcançou, superando o recorde que pertencia à tripulação da Apollo 13 desde 1970.

O que 10 dias sem gravidade fazem com o corpo humano

O espaço profundo não mata rápido. Ele transforma o corpo de forma silenciosa, sistemática e, em alguns aspectos, ainda surpreendente para a ciência.

Jessica Scott, fisiologista do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, que trabalhou no desenvolvimento de equipamentos de exercício para a NASA, compara dez dias no espaço a dez dias de repouso absoluto em cama.

“Você se sentiria muito fraco e seus músculos começariam a perder volume muito rapidamente”, disse Scott. O coração, ressalta ela, é especialmente vulnerável nesse processo.

A analogia com a cama não é retórica. Em microgravidade, os músculos posturais, aqueles da lombar, das panturrilhas, do abdômen, simplesmente param de trabalhar porque não há peso a sustentar.

A massa muscular dos astronautas pode ser reduzida em até 20%, e eles podem perder até 2% da densidade óssea após cerca de 30 dias no espaço, porque seus corpos deixam de precisar de suporte esquelético no ambiente de microgravidade.

Para uma missão de 10 dias como a Artemis II, as perdas são menores, mas mensuráveis e clinicamente relevantes.

Tripulação da Artemis II posa após o retorno à Terra, já a bordo de um navio da Marinha dos Estados Unidos, no início da fase de resgate, avaliação médica e readaptação depois da missão histórica no espaço profundo.

O coração que encolhe e o sangue que sobe

Sem a gravidade empurrando o sangue para baixo, o sistema cardiovascular redistribui fluidos para cima. Os vasos da região torácica e da cabeça ficam sobrecarregados, enquanto as pernas “esvaziam”.

O coração, ao perceber esse excesso de fluido circulante, interpreta como volume sanguíneo excessivo e começa a bombear menos, literalmente encolhendo e perdendo parte de sua massa muscular.

Alterações no sistema cardiovascular podem levar a coágulos sanguíneos, arritmias cardíacas e pressão arterial baixa. A gravidade das consequências depende da duração da viagem, aumentando para missões mais longas.

No retorno, essa readaptação é imediata e brusca: o corpo precisa bombear contra a gravidade novamente, mas o coração está temporariamente menor e os vasos das pernas estão “esquecidos” de seu papel.

É por isso que nenhum astronauta pode dirigir nos primeiros dias após retornar. A reabilitação física intensa dura de 2 a 4 semanas, durante a qual a NASA não permite que os astronautas dirijam seus próprios veículos ou realizem atividades físicas intensas até que passem por uma fase de avaliação.

A coluna que cresce, e o ouvido interno que falha

Um dos efeitos mais contraintuitivos da microgravidade é o crescimento. Sem a compressão gravitacional constante sobre os discos intervertebrais, a coluna dos astronautas se expande.

Os quatro membros da Artemis II voltaram entre 5 e 7 centímetros mais altos do que quando embarcaram, e essa expansão súbita traz dores musculares significativas na fase de readaptação.

O sistema vestibular, o mecanismo de equilíbrio do ouvido interno, é outra área crítica. “O ouvido interno é algo delicado, e sabemos que ele é afetado pelo voo espacial, tornando difícil para a tripulação se movimentar por alguns dias após o retorno”, disse Steve Platts, cientista-chefe do Programa de Pesquisa Humana da NASA.

“Ele se recupera em três a cinco dias, mas para aqueles dias iniciais na superfície lunar, precisamos saber exatamente como eles vão responder.”

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A radiação que nenhuma missão anterior mediu com tanta precisão

A Artemis II foi além da órbita terrestre baixa, saindo da proteção do campo magnético da Terra. Nesse ambiente, a radiação é de outro tipo: raios cósmicos galácticos e partículas solares energéticas que atravessam o corpo e danificam células em profundidade.

Cada astronauta carregou um dosímetro pessoal, seis sensores ativos chamados Hybrid Electronic Radiation Assessors foram posicionados pela cabine e um monitor alemão M-42 EXT atualizado, com seis vezes a resolução de seu predecessor da Artemis I, mediu a exposição a íons pesados, considerados entre as formas biologicamente mais perigosas de radiação cósmica.

Os dados coletados são inéditos. Nenhuma missão tripulada desde a Apollo havia monitorado a exposição à radiação do espaço profundo com essa precisão.

E os resultados, ainda em análise, vão determinar os limites de tempo que um ser humano pode passar além da magnetosfera terrestre sem dano irreversível.

Os “avatares” que viajaram à Lua junto com a tripulação

O experimento mais inovador da missão não estava nos controles da cápsula Orion. Dentro da espaçonave, enquanto girava pelo lado distante da Lua no início de abril de 2026, um conjunto de dispositivos não maiores que pendrives de USB realizava ciência silenciosamente.

Cada um continha células vivas de medula óssea, cultivadas a partir de amostras de sangue coletadas dos quatro astronautas, mantidas em fluido que imitava as condições internas do corpo humano.

O experimento se chama AVATAR, A Virtual Astronaut Tissue Analog Response. A lógica é direta: em vez de esperar os astronautas retornarem e verificar se seus corpos mudaram, as células deles fizeram a mesma viagem e foram monitoradas em tempo real.

Wiseman, Glover, Koch e Hansen enviaram versões microscópicas de si mesmos à Lua antes de ir pessoalmente.

Agora que os chips de órgãos retornaram do voo Artemis, os pesquisadores vão examinar como o voo espacial afetou os chips de medula óssea por meio de sequenciamento de RNA de célula única, uma técnica poderosa que mede como milhares de genes mudam dentro de células individuais. Os resultados levarão meses.

Mas se confirmarem que os modelos de tecido personalizado detectam alterações induzidas por radiação de forma confiável, o próximo passo é enviar conjuntos maiores de chips em missões mais longas.

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O que Marte exige, e o que ainda não temos

A Artemis II foi um voo de 10 dias ao redor da Lua. Uma missão a Marte levará entre 7 e 9 meses só de ida, e os astronautas precisarão trabalhar na superfície ao chegar, sem período de recuperação em ambiente terrestre.

Se um evento médico como o sofrido pelo astronauta Michael Fincke em janeiro de 2026, que ficou incapaz de falar por 20 minutos a bordo da Estação Espacial Internacional, ocorresse em uma missão a Marte, o retorno à Terra poderia levar anos. Não há resgate possível a 225 milhões de quilômetros de distância.

Os dados da Artemis II são a primeira peça real desse quebra-cabeça médico. A medula óssea dos quatro astronautas viajou ao espaço profundo pela primeira vez na história, e agora os cientistas têm, pela primeira vez, evidência celular direta do que a radiação faz ao sistema imune humano além da proteção magnética da Terra.

Durante toda a missão, Wiseman, Glover, Koch e Hansen percorreram 1.117.638 quilômetros no total. O sobrevoo lunar os levou mais longe do que qualquer ser humano havia jamais ido, superando o recorde de distância anterior estabelecido pelos astronautas da Apollo 13 em 1970.

A próxima missão, Artemis III, prevista para 2027, levará dois astronautas ao solo lunar. O que os corpos de Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen revelarem nas próximas semanas ditará exatamente o que será necessário para que essa aterrissagem, e eventualmente a viagem a Marte, seja possível com segurança.

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Luciano da M. Silva
Luciano da M. Silva
27/04/2026 21:15

O que ficam na estação orbitando em volta da terra não sofrem danos parecidos?

Pereira José
Pereira José
27/04/2026 18:10

Na próxima quero ir. Pois se cresceram até 7 centímetros isso me interessou muito. Tenho só 1,6 metros.

Meire
Meire
27/04/2026 08:23

Ainda bem q não é só eu q não acredito na mentira da NASA montada por um governo q não tem escrúpulos em continuar mentindo

Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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