Janaína Teodoro decidiu cavar um poço artesiano em casa durante o histórico apagão que deixou 90% do Amapá sem energia em novembro de 2020. O caso virou símbolo da situação enfrentada por mais de 700 mil pessoas durante a crise hídrica e elétrica no Norte do Brasil.
Em meio ao histórico apagão que atingiu o Amapá em novembro de 2020, uma decisão extrema dentro de uma casa simples em Macapá entrou para a memória do estado. A desempregada Janaína Teodoro chamou irmãos e vizinhos para cavar um poço artesiano no próprio quintal depois que sua filha passou a noite chorando de sede.
A obra começou em uma sexta-feira, 6 de novembro de 2020, e mostrou na prática a dimensão do colapso de energia e água no estado. Sem fornecimento elétrico, as bombas hidráulicas ficaram inoperantes e a população precisou improvisar soluções para garantir o básico. O caso de Janaína virou símbolo do que mais de 700 mil pessoas viveram durante o apagão que paralisou o Amapá por dias seguidos.
Como Janaína decidiu cavar o poço artesiano
Conforme reportagem da F. de São Paulo, Janaína Teodoro morava com a mãe e duas filhas, uma de sete e outra de 12. Desempregada, sustentava a casa com a ajuda do pouco que a mãe recebia de benefício. Quando o apagão chegou ao quarto dia, a família já não tinha comida e nem água potável dentro de casa.
-
Uma bola dourada gigante no meio de jardins na Índia foi montada com 1.415 discos, levou décadas para ser concluída e transforma luz solar em iluminação central controlada
-
A Tailândia desistiu de cortar o país com um canal e escolheu uma megaobra de US$ 28 bilhões por terra: o Southern Landbridge terá 90 km, dois portos gigantes, ferrovia, rodovia e dutos para ligar dois mares e desafiar o Estreito de Málaca sem entregar a rota estratégica à China
-
O Mali quer abrir caminho para o oceano cavando 900 km de hidrovia pelo Rio Senegal: projeto de US$ 800 milhões promete reduzir custos logísticos em até 60%, criar uma rota direta ao Atlântico e transformar a exportação de ouro de um dos países mais isolados da África sem depender de estradas ou ferrovias
-
Quanto custa o metro do reboco? Profissional cita média entre R$ 25 e R$ 30
“Foram de longe os piores dias que já vivi. No segundo dia, já não tínhamos comida e nem água potável. Minha filha não conseguia dormir por causa da sede, pedia água direto. Então a nossa única solução foi cavar um poço de imediato”, contou Janaína em entrevista à Folha de S.Paulo.
A obra emergencial mobilizou irmãos e vizinhos, que se revezaram com pás e ferramentas improvisadas para abrir um buraco no chão de terra do quintal. A previsão era concluir o poço artesiano até a terça-feira seguinte, com a expectativa de que ele garantisse água para a família mesmo se o apagão continuasse se arrastando.
O apagão que atingiu 90% do Amapá
O colapso elétrico começou na terça-feira anterior, dia 3 de novembro de 2020, após um incêndio em uma subestação de energia do estado. O efeito foi imediato e devastador. Em poucas horas, cerca de 90% da população do Amapá ficou sem fornecimento de energia elétrica.
O efeito cascata atingiu praticamente todos os serviços essenciais. Sem energia, as bombas que distribuíam água nas redes urbanas pararam de funcionar. Macapá e outras cidades do Amapá ficaram simultaneamente sem luz, sem internet, sem telefonia e sem fornecimento de água nas torneiras, situação que durou vários dias.
O cenário expôs a fragilidade da infraestrutura no Norte do Brasil. Diferentemente de outras regiões, o Amapá tem ligação limitada com o Sistema Interligado Nacional de energia, o que tornou o impacto local muito mais severo do que seria em outros estados do país.
O drama de famílias em Macapá durante a crise
O caso de Janaína Teodoro não foi isolado. Várias famílias relataram aos jornais o desespero por água durante o apagão no Amapá, em situações que iam do simples cansaço à urgência médica.
A advogada Débora Borralho descreveu a situação do pai, idoso e com sequelas de quatro AVCs, que ficou sem água nem para tomar os remédios receitados. “Entrei em desespero porque meu pai é idoso, doente e teve quatro AVCs em um ano. Ele perdeu a fala, tem locomoção limitada e precisa de medicação o tempo todo”, contou Débora. A ajuda veio por meio de redes sociais, com um ex-professor cedendo um garrafão de água.
Outra moradora, Ana Barros, contava com baldes de água originalmente destinados a banho e louça e acabou bebendo essa água por falta de alternativa. O irmão dela, Lucas Mateus, tem paralisia cerebral e enfrentou enorme dificuldade para dormir, comer e tomar banho durante os dias mais críticos do apagão.
O calor de 35 graus que agravava tudo
A temperatura média no Amapá durante o apagão girava em torno de 35 graus, e o impacto da falta de energia se somava ao calor extremo. Sem ar-condicionado e sem ventilador, dormir virou tortura para crianças, idosos e bebês.
A nutricionista Priscila Monteiro, mãe de um bebê recém-nascido de 27 dias, de um menino de 1 ano e 9 meses e de uma adolescente, descreveu noites em que ela e o marido se revezavam para embalar os filhos na rede.
“As noites foram bem difíceis, pois não chovia, estava quente, sem vento e com muito mosquito. Aí ficamos ainda mais angustiados, indignados e obviamente cansados em ficar abanando filhos, embalando rede ou os dois ao mesmo tempo”, contou Priscila à Folha de S.Paulo.
A combinação de calor, falta de energia e falta de água formou um cenário em que famílias passaram a tomar decisões extremas, como cavar um poço artesiano no quintal, justamente pela ausência de alternativas viáveis. Em uma das fotos enviadas pela família de Janaína à imprensa, dois homens sem camisa apareciam no buraco aberto no chão de terra do quintal da casa.
A simbologia da invenção popular sob pressão
A obra emergencial de Janaína Teodoro chamou atenção da imprensa nacional e virou símbolo do que vinha sendo chamado de abandono institucional do Norte do Brasil. A imagem de uma família cavando o próprio poço artesiano para sobreviver dentro de uma capital estadual chocou o país.
O caso documentou uma forma de invenção popular brasileira que surge em momentos de calamidade. Quando o sistema falha, famílias buscam soluções diretas no próprio território, usando ferramentas e mão de obra que estão ao alcance imediato, sem esperar pela resposta do poder público.
O poço artesiano caseiro tem limitações claras, especialmente em áreas urbanas. A profundidade alcançada manualmente costuma ser pequena, a água nem sempre é potável sem tratamento adequado e o risco de contaminação por lençóis superficiais é elevado. Ainda assim, naquela situação extrema, a solução foi o que separou a família da desidratação completa.
A resposta institucional veio aos poucos
O fornecimento de energia e água no Amapá começou a ser restabelecido aos poucos, em regime de rodízio a cada seis horas. Segundo informações divulgadas pelo governo estadual à época, cerca de 70% do sistema de abastecimento já havia sido restabelecido no domingo seguinte ao início do apagão.
A prefeitura de Macapá montou pontos de fornecimento de água em algumas escolas da capital. O governo do Amapá distribuiu também frascos de hipoclorito de sódio para a população purificar a água destinada ao consumo humano, além de 75 mil litros de água potável por dia em diversos pontos do estado.
A resposta, no entanto, foi considerada lenta diante da urgência. Para famílias como a de Janaína, que enfrentavam noites com crianças chorando de sede, a chegada do hipoclorito de sódio e dos pontos de distribuição não era suficiente para resolver o problema imediato. A solução do poço artesiano nasceu justamente desse descompasso entre a urgência humana e a velocidade institucional.
O que o apagão do Amapá deixou como aprendizado
O episódio de novembro de 2020 expôs a vulnerabilidade do sistema elétrico no Amapá e, por extensão, em outras regiões do Norte do Brasil. A dependência de uma única subestação para o fornecimento de energia da maior parte do estado ficou clara como falha estrutural a ser corrigida.
A história de Janaína Teodoro e do poço artesiano cavado em pleno quintal segue como lembrança da fragilidade de sistemas que parecem estáveis até o momento em que falham completamente. Quando a água não chega pela torneira e a energia não acende a lâmpada, a infraestrutura básica deixa de ser invisível e revela o quanto ela sustenta o cotidiano que se considera normal.
Mais de cinco anos depois, casos como o do poço artesiano de Macapá voltam a ser citados sempre que crises de energia ou abastecimento de água ameaçam regiões brasileiras. A imagem do buraco no quintal continua sendo um lembrete poderoso de até onde a necessidade pode levar uma família comum no Brasil.
O caso de Janaína Teodoro e o poço artesiano improvisado em Macapá marcou a memória do Brasil sobre a importância de infraestrutura básica funcionando. A história também mostra a força de famílias comuns que encontram saídas inesperadas quando o sistema oficial não responde a tempo.
E você, lembra do apagão que atingiu o Amapá em novembro de 2020? Conhece histórias parecidas em outros estados que ficaram sem energia ou água por longos períodos? Acredita que a infraestrutura no Norte do Brasil já avançou desde então? Deixe seu comentário, compartilhe sua opinião e marque alguém que precisa conhecer essa história.

Seja o primeiro a reagir!