Um estudo científico revela que resíduos da mineração em águas profundas podem reduzir drasticamente a qualidade do alimento disponível na zona mesopelágica, afetando zooplâncton, micronécton, cadeias alimentares marinhas e atividades pesqueiras globais antes mesmo do início da exploração comercial
Pesquisadores da Universidade do Havaí em Mānoa identificaram que resíduos da mineração em águas profundas na Zona de Clarion-Clipperton, no Pacífico, podem comprometer a alimentação de organismos entre 200 e 1.500 metros, afetando cadeias alimentares e atividades pesqueiras, segundo estudo publicado em 6 de novembro de 2025.
Resíduos de mineração e a zona crepuscular do oceano
Um estudo publicado hoje na revista Nature Communications apresenta a primeira evidência direta de que resíduos da mineração em águas profundas podem perturbar ecossistemas da chamada zona crepuscular do oceano. A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade do Havaí em Mānoa.
A zona crepuscular, também conhecida como zona mesopelágica, estende-se aproximadamente de 200 a 1.500 metros abaixo da superfície. Nessa faixa, vive uma grande diversidade de organismos que sustentam cadeias alimentares marinhas e conectam as águas superficiais às profundezas oceânicas.
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Os pesquisadores identificaram que nuvens de resíduos geradas pela mineração diluem o suprimento de alimento disponível nessa região. As partículas em suspensão substituem a matéria orgânica natural por sedimentos pobres em nutrientes, alterando a base alimentar de pequenos organismos.
Segundo o estudo, 53% do zooplâncton e 60% do micronécton presentes nas profundidades analisadas seriam afetados pelos despejos de resíduos. Esses organismos constituem a base alimentar de peixes, aves marinhas e mamíferos marinhos.
A função do zooplâncton e do micronécton nas profundezas
O zooplâncton é composto por animais microscópicos que flutuam ou nadam lentamente na coluna d’água. Eles se alimentam de partículas orgânicas e sustentam organismos maiores ao longo de toda a cadeia alimentar marinha.
O micronécton inclui pequenos camarões, peixes e outros animais nadadores que se alimentam do zooplâncton. Muitos desses organismos realizam migrações verticais diárias, subindo à superfície à noite e retornando às profundezas durante o dia.
Esse movimento contribui para o transporte de carbono da superfície para o fundo do oceano, desempenhando papel central na saúde dos oceanos e no equilíbrio climático. A interrupção desse processo pode ter consequências sistêmicas ainda pouco compreendidas.
Michael Dowd, autor principal do estudo, comparou a turbidez causada pelos resíduos à lama do rio Mississippi. Segundo ele, as partículas dispersas reduzem a concentração de alimento nutritivo normalmente disponível para o zooplâncton à deriva.
Qualidade nutricional dos resíduos de mineração
A pesquisa analisou resíduos liberados durante um teste de mineração realizado em 2022 na Zona de Clarion-Clipperton. Essa região do Pacífico é destinada à extração de nódulos polimetálicos ricos em cobalto, níquel e cobre.
A equipe coletou amostras de água nas profundidades onde ocorreu o descarte dos resíduos. As análises mostraram que as partículas da mineração continham quantidades significativamente menores de aminoácidos em comparação à matéria orgânica natural.
Os aminoácidos são uma fonte essencial de nutrição para organismos da zona mesopelágica. A substituição dessas partículas naturais por sedimentos empobrecidos representa uma redução direta na qualidade do alimento disponível.
Erica Goetze, coautora do estudo, destacou que muitos animais dependem de pequenas partículas detríticas naturais. Segundo ela, as plumas de mineração substituem exatamente esse alimento essencial, afetando comunidades inteiras em águas profundas.
Processos técnicos da mineração em águas profundas
Durante a mineração em águas profundas, nódulos são coletados do fundo do mar juntamente com água do mar e sedimentos. Esse material é transportado por um tubo até um navio de coleta na superfície.
No navio, os nódulos são separados dos resíduos sedimentares. Os resíduos, compostos por sedimentos, água do mar e partículas pulverizadas de nódulos, precisam ser devolvidos ao oceano após o processamento.
A profundidade exata em que esses resíduos devem ser descartados ainda não foi definida. Algumas empresas propõem o despejo em águas intermediárias, dentro da zona crepuscular, onde vivem comunidades sensíveis.
Até recentemente, os impactos desses resíduos sobre os ecossistemas intermediários eram pouco compreendidos. Essa lacuna científica dificulta a criação de regras claras para o descarte, revelando uma falha na governança do setor.
Impactos potenciais em cadeias alimentares e pesca
Os cientistas alertam que as alterações na base alimentar da zona crepuscular podem repercutir em níveis superiores da cadeia alimentar. Predadores maiores dependem direta ou indiretamente do zooplâncton e do micronécton.
A pesca comercial também pode ser afetada. A pesca do atum no Pacífico opera na região da CCZ, o que significa que resíduos da mineração podem influenciar espécies que chegam ao consumo humano global.
Jeffrey Drazen, coautor do estudo, afirmou que as plumas de mineração não apenas tornam a água turva. Elas alteram a qualidade do alimento disponível, especialmente para animais que não conseguem se afastar rapidamente das áreas afetadas.
Segundo ele, o processo equivale a introduzir calorias vazias em um sistema alimentar ajustado ao longo de centenas de anos. Essa alteração pode comprometer o funcionamento de ecossistemas inteiros.
Contexto global e expansão da mineração marinha
O estudo surge em um momento de intensificação da busca por minerais críticos usados em tecnologias como baterias de veículos elétricos e infraestrutura de energia renovável. Esse cenário tem impulsionado o interesse pela mineração em águas profundas.
Atualmente, cerca de 1,5 milhão de quilômetros quadrados da Zona de Clarion-Clipperton já possuem licenças para possíveis operações de mineração. A expansão ocorre antes da consolidação de regulamentações ambientais específicas.
Os autores ressaltam que os impactos na coluna d’água intermediária precisam ser considerados com o mesmo rigor aplicado ao fundo do mar. Ignorar essas camadas pode gerar efeitos não previstos e difíceis de reverter.
Brian Popp, coautor do estudo, afirmou que a mineração comercial ainda não começou em larga escala. Segundo ele, este é o momento crucial para decisões informadas, antes que danos se tornem permanentes.
Regulação internacional e lacunas de governança
As descobertas devem contribuir para debates regulatórios conduzidos pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos. O órgão é responsável por estabelecer normas para atividades de mineração em áreas internacionais.
Nos Estados Unidos, a avaliação de impactos ambientais cabe à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, que analisa iniciativas de mineração lideradas pelo país.
Os pesquisadores defendem a ampliação dos estudos para toda a extensão vertical dos ecossistemas oceânicos. A maior parte das pesquisas anteriores concentrou-se apenas no fundo do mar, deixando lacunas importantes.
Sem regras claras sobre o descarte de resíduos, decisões técnicas podem gerar consequências ecológicas de longo prazo. A ausência de salvaguardas aumenta o risco de impactos sistêmicos ainda pouco estudados.
Riscos futuros e necessidade de precaução
Antes do início da mineração comercial, os cientistas consideram essencial avaliar cuidadosamente a profundidade de descarte dos resíduos. O comportamento das plumas varia conforme a profundidade e as correntes oceânicas.
O descarte inadequado pode afetar comunidades desde a superfície até o fundo do mar. Essa conectividade vertical torna os ecossistemas marinhos particularmente vulneráveis a intervenções mal planejadas.
Os autores do estudo afirmam que compreender essas dinâmicas é fundamental para evitar danos irreverssíveis. A mineração em águas profundas envolve riscos que ultrapassam o local de extração.
Ao destacar os efeitos na zona crepuscular, o estudo amplia o debate sobre os custos ecológicos da exploração mineral marinha. As conclusões reforçam a necessidade de decisões regulatórias baseadas em evidências científicas robustas.
Referência científica do estudo
O estudo “Despejo de mineração em águas profundas pode perturbar as teias alimentares em águas intermediárias” foi publicado em 6 de novembro de 2025. Os autores são Michael H. Dowd, Victoria E. Assad, Alexus E. Cazares-Nuesser, Jeffrey C. Drazen, Erica Goetze, Angelicque E. White e Brian N. Popp.
A pesquisa foi conduzida no âmbito da Escola de Ciências Oceânicas e da Terra da Universidade do Havaí em Mānoa. O DOI do artigo é 10.1038/s41467-025-65411-w.

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