As geleiras da Suíça já perderam toda a neve do último inverno com quase três meses de antecedência, e agora derretem gelo de séculos sob uma onda de calor que matou milhares na Europa. Para os cientistas, as mudanças climáticas somadas a um El Niño forte prometem verões ainda mais extremos até 2027.
Imagine perder, a cada seis segundos, água derretida suficiente para encher uma piscina olímpica inteira. É mais ou menos isso que está acontecendo com as geleiras da Suíça neste começo de julho de 2026, enquanto uma onda de calor histórica castiga a Europa. O glaciologista Matthias Huss, que dirige a rede suíça de monitoramento de geleiras, a GLAMOS, usou exatamente essa imagem ao Jornal Nacional para descrever a velocidade com que o gelo alpino está desaparecendo. Toda a neve que caiu no último inverno já sumiu, e agora as geleiras começam a derreter o gelo acumulado ao longo de décadas, às vezes de séculos.
O problema vai muito além da paisagem. Segundo o G1, a mesma onda de calor que acelera o degelo já cobrou um preço humano assustador: França, Bélgica e Holanda confirmaram cerca de 3,7 mil mortes causadas pelo calor extremo do fim de junho, segundo balanço divulgado em 3 de julho. E o recado dos cientistas é que o pior ainda pode vir, porque as mudanças climáticas agora ganham um reforço poderoso: a Organização Meteorológica Mundial acaba de avisar que um El Niño forte está se formando e deve intensificar os extremos de calor pelo menos até 2027. As geleiras, nesse cenário, viraram o termômetro mais visível de um planeta em desequilíbrio.
As geleiras da Suíça estão perdendo em semanas o gelo de séculos

Todo verão as geleiras suíças derretem um pouco, e isso é normal. O que não é normal é a velocidade deste ano. Segundo a GLAMOS, toda a neve acumulada no inverno passado deve desaparecer já no início desta semana, o que marca o segundo dia de perda glacial mais precoce desde que o monitoramento começou, em 2000. Só 2022 foi pior, com a data caindo em 26 de junho. A partir desse ponto, cada grama de gelo que derrete é gelo antigo, formado ao longo de muitos anos, num quadro que os cientistas ligam diretamente às mudanças climáticas.
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Matthias Huss não esconde a preocupação. Numa visita recente à Geleira do Ródano, uma das mais emblemáticas do país, ele mediu uma perda de cerca de um metro de espessura de gelo em apenas dez dias, algo que classificou como evidência direta do impacto da onda de calor. Quanto mais dias seguidos de temperatura extrema, pior fica o estrago. O derretimento está acontecendo cerca de três meses antes do normal, já que as geleiras da Suíça costumam perder toda a neve do inverno só lá pela metade de agosto.
Para entender o tamanho do baque, vale lembrar o retrospecto. A Suíça tem cerca de 1.400 geleiras, e elas vêm encolhendo sem parar há duas décadas, num ritmo que só acelera. Nos anos de 2022 e 2023, as geleiras suíças perderam juntas cerca de 10% de todo o seu volume, e na última década sumiu perto de um quarto do gelo. O país sente o aquecimento na pele: a temperatura sobe por lá cerca de duas vezes mais rápido que a média mundial, segundo o serviço federal suíço de meteorologia.
Por que uma onda de calor derrete geleiras tão rápido?
A resposta começa na cor branca da neve. Durante o inverno, uma camada de neve fresca cobre a geleira e funciona como um escudo: por ser clara, ela reflete boa parte da luz do sol de volta para o céu, protegendo o gelo por baixo. Enquanto essa manta branca existe, a geleira aguenta o verão relativamente bem. O problema aparece quando a neve toda derrete cedo demais, como aconteceu agora.
Sem a neve protetora, o que fica exposto é o gelo nu, mais escuro e mais velho. Superfícies escuras absorvem calor em vez de refletir, então o gelo passa a derreter muito mais rápido sob o sol forte. É um efeito que se retroalimenta: quanto mais gelo escuro exposto, mais calor absorvido, mais derretimento. Some a isso um inverno que quase não nevou na Suíça, seguido por duas ondas de calor emendadas, uma em maio e outra no fim de junho, e você tem a receita perfeita para o degelo recorde que Huss está documentando. É por isso que geleiras funcionam como um dos sinais mais claros das mudanças climáticas.
A onda de calor que já matou milhares na Europa
Enquanto o gelo derrete nos Alpes, gente morre nas cidades. A onda de calor que atingiu a Europa entre o fim de junho e o início de julho foi classificada por cientistas como a pior já registrada no continente, e o número de vítimas impressiona. Só na França, a agência de saúde pública Santé publique France contabilizou 2.025 mortes em excesso na semana iniciada em 22 de junho, com as mortes em casa disparando 91% no auge do calor.
Na Bélgica, a mortalidade subiu 39%, o equivalente a 1.222 óbitos a mais, o maior número diário desde a primeira onda da covid. Já a Holanda registrou cerca de 480 mortes adicionais, a maioria entre pessoas com 80 anos ou mais.
Somados, os três países chegam às 3,7 mil mortes confirmadas em 3 de julho, e as autoridades avisam que os dados ainda são preliminares e podem subir.
A Espanha, à parte dessa conta, reportou pelo menos 1.028 mortes ligadas ao calor só em junho, mais que o dobro do registrado no mesmo mês de 2025. O calor extremo é uma das ameaças climáticas mais mortais e menos visíveis, porque não derruba casas nem arrasta carros, mas sobrecarrega corpos e hospitais em silêncio. Não à toa, a onda de calor deste ano expõe como as mudanças climáticas já matam gente de verdade.
E não foi só o calor em si. A onda trouxe fogo junto: na França, mais de mil e quinhentos turistas precisaram fugir de campings cercados por incêndios, e as chamas também avançaram pela Espanha, com termômetros passando dos 40 °C. A Itália chegou a colocar 25 das suas maiores cidades em alerta vermelho durante os piores dias.
O que o El Niño tem a ver com tudo isso?
Aqui entra o alerta que assusta os cientistas. No mesmo 3 de julho, a Organização Meteorológica Mundial avisou que um El Niño forte deve se desenvolver rapidamente entre julho e setembro de 2026, com alta confiança nas previsões e temperaturas da superfície do mar no Pacífico que devem passar dos 2 °C acima da média. O El Niño é um aquecimento natural das águas do Pacífico equatorial que bagunça o clima do planeta inteiro, e quando ele aparece, costuma empurrar as temperaturas globais para cima.
“O El Niño vai dar um empurrão extra nas temperaturas globais”, resumiu Alvaro Silva, cientista da OMM, lembrando que anos de El Niño costumam bater recordes de calor. A representante da entidade, Clare Nullis, reforçou que junho já veio quebrando marcas, com a Alemanha registrando um novo recorde nacional de 41,7 °C no último fim de semana do mês.
Como o El Niño tende a atingir o pico entre o fim de 2026 e o começo de 2027, e a exercer sua maior influência no ano seguinte, os especialistas projetam que os extremos de calor podem se intensificar pelo menos até 2027, quando somados às mudanças climáticas de fundo.
Esse recado tem endereço no Brasil também. É o mesmo El Niño que o Cemaden, centro brasileiro de monitoramento de desastres, vem apontando como risco de desastre térmico para o país na segunda metade de 2026, num momento em que reservatórios baixos podem pressionar o preço da energia e dos alimentos. Ou seja, o que derrete geleira na Suíça é parte do mesmo mecanismo que pode encarecer a conta de luz por aqui.
Geleiras que somem cobram um preço que vai além da paisagem
Pode parecer que uma geleira derretendo lá longe, nos Alpes, não muda nada na vida de quem está distante da neve. Mas muda. As geleiras da Suíça são peça central no abastecimento de água potável e na geração de energia hidrelétrica de boa parte da Europa Central. Quando o gelo que deveria durar o ano inteiro derrete de uma vez no verão, sobra água demais agora e de menos depois, o que ameaça o fornecimento de água e a produção de eletricidade nos meses mais secos.
O horizonte que Huss desenha é sombrio. Se o aquecimento global seguir no ritmo atual, ele alerta que, no fim do século XXI, a Suíça poderá ter apenas alguns pequenos restos de gelo nos picos mais altos das montanhas. A parte menos desesperadora é que ainda dá para salvar uma fatia das geleiras, mas isso depende de o mundo cortar emissões de forma rápida e drástica, algo que ainda não aconteceu.
O gelo dos Alpes virou o alarme mais claro de um planeta em febre
No fim das contas, as geleiras da Suíça estão fazendo o papel de alarme. Elas mostram, de um jeito visível e medível, o que uma onda de calor histórica somada às mudanças climáticas é capaz de fazer, e o aviso da OMM sobre o El Niño sugere que os próximos verões podem ser ainda mais duros. Enquanto o gelo de séculos derrete em semanas e milhares de pessoas morrem de calor na Europa, fica difícil tratar o assunto como algo distante.
E você, tem sentido essas mudanças no clima da sua região, com calor mais forte, chuvas fora de hora ou secas mais longas? Na sua opinião, o Brasil e o mundo estão se preparando de verdade para um cenário de extremos como esse, ou só correm atrás do prejuízo quando a crise já chegou? Deixe seu comentário com a sua cidade e conte o que você tem observado por aí.
