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Milhões de metros cúbicos de rocha retirados de túneis e obras não viraram entulho em Hong Kong: foram reaproveitados em aterros que criaram novos bairros e infraestrutura sobre o mar

Escrito por Geovane Souza
Publicado em 04/01/2026 às 15:45
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Sem terra para crescer, Hong Kong cavou túneis do metrô e reaproveitou o material escavado para criar aeroporto, parques e bairros sobre o mar.
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Entre obras subterrâneas e aterros gigantes, a cidade transformou rocha e solo de escavações em território urbano, ampliando áreas costeiras, como aeroporto e bairros, e mudando o mapa

Hong Kong é um lugar onde a falta de espaço não é figura de linguagem. A combinação de montanhas, densidade e litoral disputado empurrou a infraestrutura para baixo da terra e, ao mesmo tempo, para dentro do mar.

Nessa equação, o material escavado virou ativo. Em vez de tratar rocha, concreto e terra como “entulho”, o governo organiza parte desse volume como public fill, um tipo de material inerte reaproveitável em aterros e obras de formação de terreno.

É aí que o metrô entra na história. Linhas, estações e túneis geram grandes volumes de escavação e, quando esse material é adequado, ele pode abastecer projetos de aterro que criam novas áreas urbanas.

Nas redes, a história às vezes aparece simplificada como “o metrô que criou ilhas artificiais”. O que as fontes técnicas mostram é uma realidade ainda mais concreta, grandes faixas aterradas que ampliaram penínsulas, costas e plataformas, conectando transporte, moradia e novos distritos em terra criada.

Como a rocha dos túneis vira aterro e vira bairro

O ponto de partida é a separação do que pode ou não ser reaproveitado. O Civil Engineering and Development Department explica que uma parcela muito alta dos materiais de construção e demolição é inerte e pode ser reutilizada como material de aterro, de formação de terrenos e em outras obras de preenchimento.

Quando sobra material, ele pode ir para áreas de recebimento e para fill banks, que funcionam como estoque temporário até surgir um projeto que consiga absorver aquele volume. A lógica é reduzir pressão sobre aterros sanitários e manter um “reservatório” de material para obras futuras.

Isso ajuda a explicar por que, em Hong Kong, grandes ciclos de infraestrutura tendem a andar juntos. Obras subterrâneas geram material, e obras costeiras consomem material, formando uma cadeia que transforma escavação em expansão urbana.

Aeroporto de Hong Kong em Chek Lap Kok e a escala que mede a ambição dos aterros

O exemplo mais emblemático é o aeroporto internacional inaugurado em 1998 na área de Chek Lap Kok, uma plataforma construída com uma combinação de escavação em terra e aterro no mar.

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Um relatório técnico da associação internacional de dragagem descreve a preparação do sítio do novo aeroporto com números de outra ordem, citando 120 milhões de m³ provenientes de operações em terra na ilha original de Chek Lap Kok e 76 milhões de m³ de fontes marinhas, além de dragagem e remanejamento que somaram mais de 238 milhões de m³.

Na mesma direção, um registro de projeto de dragagem afirma que foram dragados até 250 milhões de m³ para criar uma ilha de cerca de 1.248 hectares.

Há ainda fontes técnicas corporativas que citam volumes totais movimentados na casa de centenas de milhões de m³, reforçando como Chek Lap Kok virou referência mundial em aterro e formação de terreno.

O detalhe importante para a história do metrô é o efeito dominó. Um aeroporto desse tamanho puxa conexões ferroviárias e rodoviárias, estimula novos bairros e amplia a demanda por “terra” em um território onde a terra precisa ser criada.

West Kowloon Reclamation e o corredor onde o Airport Railway passou a existir

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Outro marco é o West Kowloon Reclamation, um projeto de aterro de 340 hectares ao longo da orla de Kowloon. Segundo o CEDD, tanto o Airport Railway quanto a West Kowloon Expressway, ligações essenciais para o aeroporto de Chek Lap Kok, foram construídos sobre essa área aterrada.

Essa faixa de “novo chão” não ficou apenas como infraestrutura de passagem. O próprio CEDD descreve que o terreno recuperado seria desenvolvido em etapas com habitação, comércio, vias, áreas abertas e usos comunitários, além de reservar área para um grande distrito cultural.

Tung Chung e a urbanização planejada em terra que não existia

O eixo aeroporto, ferrovia e aterro ajudou a consolidar novas frentes urbanas em Lantau e arredores, e Tung Chung é parte desse processo. Um texto técnico ligado ao Hong Kong Engineer resume o tamanho dessa estratégia ao afirmar que cerca de 27 por cento da população vive hoje em áreas formadas por aterro ao longo das últimas décadas.

Na fase mais recente, o CEDD descreve a extensão de Tung Chung como um projeto que inclui cerca de 130 hectares de aterro e que teve a etapa principal de reclamation substancialmente concluída em janeiro de 2023.

Um relato de contrato de engenharia detalha que essa área aterrada foi feita com métodos sem dragagem e destaca o uso de materiais de construção e demolição como material de preenchimento, além de medidas de mitigação ambiental como eco shorelines.

O resultado é que a pergunta deixa de ser apenas “para onde vai a rocha do metrô”. Em Hong Kong, ela pode virar parte de um sistema maior, com transporte guiando a expansão e o aterro criando o espaço físico para a cidade continuar funcionando.

Você vê solução inteligente ou custo ambiental alto

Transformar escavação em território urbano tem um lado eficiente, reduz descarte, cria estoque de material e diminui dependência de areia marinha em alguns casos. Também encurta distâncias logísticas quando o material é reaproveitado localmente, algo valorizado pela política pública de gestão de public fill.

Mas há um ponto de atrito permanente. Aterros mudam correntes, habitats e paisagens, e o debate sobre quanto “novo chão” vale o impacto ambiental é antigo e continua atual em Hong Kong.

Mesmo quando há soluções como eco shorelines e mitigação, a discussão reaparece em cada grande projeto, principalmente porque a cidade tem histórico de usar aterro como resposta estruturante para demanda por moradia e infraestrutura.

No fim, a história do material escavado do metrô vira um retrato da própria Hong Kong, uma cidade que cresce ao mesmo tempo para baixo e para fora, e que literalmente troca rocha por mapa.

Se você fosse decidir, Hong Kong está mostrando um modelo inteligente de reaproveitamento ou apenas empurrando o problema para o mar? O “novo território” compensa o risco ambiental e o custo público? Deixe seu comentário com sua opinião, porque esse é o tipo de obra que divide qualquer cidade.

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Geovane Souza

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