Vídeo do canal Terran Works mostra a linha de produção da Momo Pencils em Nairóbi: uma página dupla de jornal rende 3 lápis, o processo tem 9 etapas e o produto final custa 3 vezes mais que o importado da China, mas sustenta salários bem acima do mínimo
O lápis de jornal saiu do improviso e virou indústria no Quênia. Em vídeo publicado em 2 de julho de 2026, o canal Terran Works, no YouTube, mostra como a Momo Pencils, fundada por dois irmãos em 2017, transforma jornais velhos em lápis de verdade, num modelo de economia circular que já inspira olhares do mundo inteiro, incluindo quem pensa reciclagem no Brasil.
A escala do problema explica o negócio. Segundo o canal Terran Works, o papel representa cerca de 11 a 12% do lixo doméstico urbano de Nairóbi, cidade que gera de 2.000 a 2.500 toneladas de resíduos por dia. Enterrado no aterro sanitário, esse papel apodrece sem oxigênio e libera metano, um gás de efeito estufa potente, e é exatamente esse destino que os lápis interrompem.
O problema: toneladas de papel por dia rumo ao aterro
No Quênia, o jornal impresso ainda tem papel central, porque nem todo mundo tem acesso regular à internet, conforme o canal Terran Works. A consequência é um fluxo constante: jornais lidos hoje viram lixo amanhã, somando-se às centenas de toneladas de papel que a capital descarta diariamente.
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Foi nessa montanha de papel que os fundadores da Momo Pencils enxergaram matéria-prima. A pergunta que mudou tudo foi simples: e se o corpo do lápis, tradicionalmente de madeira, fosse feito de jornal? A resposta exigiu desenvolver um processo industrial próprio, porque uma folha fina de papel precisa ficar dura como madeira, confortável na mão e boa de escrever.
Uma página dupla de jornal vira 3 lápis

A matemática da produção é direta. Segundo o canal Terran Works, uma página dupla de jornal rende cerca de 3 lápis, e nada se perde no caminho: as sobras de papel do corte viram material de enchimento, preenchendo os vãos entre as camadas enroladas e o núcleo de grafite.
O grafite, aliás, é a única matéria-prima que a empresa não consegue comprar localmente. Todo o resto é Quênia: o jornal, a cola, a mão de obra e até o sol. Depois de enroladas na máquina, as hastes de lápis secam ao ar livre, aproveitando o clima quente do país como forno natural, um detalhe que corta custo de energia da linha de produção.
As nove etapas que endurecem o papel como madeira
Transformar folha de jornal em madeira de escrever exige método. Conforme o canal Terran Works, cada lápis passa por cerca de 9 etapas, do corte do papel no tamanho certo à colagem, enrolamento, secagem e acabamento.
O segredo técnico está na cola de madeira. Ela solda as camadas de papel umas às outras e dá ao corpo do lápis a rigidez e o toque parecidos com os da madeira. A dosagem é o ponto crítico: cola demais e o lápis demora a secar, cola de menos e o corpo não ganha firmeza, um equilíbrio que os operários dominam com prática. O núcleo de grafite é posicionado sobre a folha, fixado com cola e enrolado por uma máquina de laminação.
De 500 para 100 mil lápis por dia

O salto de escala é a parte mais impressionante da história. Segundo o canal Terran Works, quando começou, em 2017, a Momo Pencils produzia cerca de 500 lápis por dia. Com a automação de várias etapas, a capacidade pode chegar a 100.000 lápis por dia.
É um crescimento de duas mil vezes na capacidade produtiva, construído em menos de uma década. A automação não substituiu o trabalho manual, e sim multiplicou o que cada trabalhador consegue entregar, mantendo a produção intensiva em mão de obra local, que é parte do propósito do negócio.
O lápis 3 vezes mais caro que enfrenta o importado da China
Nem tudo é vantagem no papel reciclado. Segundo o canal Terran Works, o lápis de jornal pode custar cerca de 3 vezes mais que o lápis comum, que o Quênia importa principalmente da China. Para o dono de papelaria, a conta é cruel: por que pagar mais caro se o importado custa poucos xelins?
É a contradição clássica entre produto verde e mercado de preço baixo, e a Momo Pencils respondeu com estratégia comercial. Em vez de brigar por preço na prateleira, a empresa mira clientes estratégicos: empresas, escolas, organizações e marcas que valorizam produção ambientalmente responsável e o selo made in Kenya. É o mesmo dilema que qualquer indústria de reciclados enfrenta, do Quênia ao Brasil: o valor ambiental precisa encontrar quem esteja disposto a pagá-lo.
Salário de US$ 15 por dia: o custo que virou bandeira
O maior custo da empresa não é matéria-prima, é gente. Conforme o canal Terran Works, a Momo Pencils paga aos trabalhadores cerca de US$ 15 por dia, um valor significativamente acima do salário mínimo queniano.
Isso encarece o produto, mas define o modelo de negócio. A empresa não recicla só papel: recicla renda, criando empregos que pagam melhor num mercado onde isso é raro, e transforma cada lápis num argumento social além do ambiental. É o tipo de escolha que afasta o comprador de ocasião e fideliza o cliente institucional.
A meta de 1 milhão de crianças e as 10 mil árvores
A ponta social do projeto é a que mais cresce. Segundo o canal Terran Works, a Momo Pencils já doou mais de 50.000 lápis e tem como meta entregar lápis gratuitos a 1 milhão de crianças. Em muitas salas de aula quenianas, com cerca de 60 alunos, metade da turma escreve e a outra metade não tem com o quê.
As visitas às escolas viraram ritual duplo. A cada entrega de lápis, a equipe leva também mudas de árvore para plantar com os estudantes, e o placar já passa de 10.000 árvores plantadas. O ciclo se fecha com precisão: o jornal que deixou de virar metano no aterro vira ferramenta de alfabetização, e a árvore que não foi cortada para fazer lápis é replantada em dobro.
O detalhe que dá urgência à meta aparece dentro das salas de aula. Conforme o canal Terran Works registra nas visitas, é comum metade de uma turma acompanhar a aula escrevendo enquanto a outra metade apenas observa, porque não tem lápis. Para uma criança em fase de alfabetização, um objeto que custa centavos vira uma barreira concreta de aprendizagem, e é essa barreira que cada caixa doada derruba.
A lição que o próprio vídeo tira do caso serve de manual para qualquer cidade do mundo: comece pelo tipo de resíduo que a tua região mais produz e transforme-o num produto que as pessoas realmente precisem. Quando o lixo ganha um destino com valor econômico, a coleta passa a ter motivo para existir no longo prazo, e o que era passivo ambiental vira cadeia produtiva com emprego, receita e impacto.
Assista: a fábrica de lápis de jornal em vídeo
A linha de produção completa da Momo Pencils, do fardo de jornais velhos ao lápis pronto secando ao sol de Nairóbi, aparece em detalhe no vídeo do canal Terran Works, no YouTube, que também mostra outros modelos de reciclagem no Quênia.
Depois de ver um lápis de jornal nascer em 9 etapas, fica a provocação: quantos produtos do dia a dia poderiam nascer do lixo que o Brasil enterra todos os dias? Conta pra gente nos comentários: você pagaria 3 vezes mais por um lápis feito de jornal reciclado?

