A EPE projeta forte expansão da produção de etanol no Brasil até 2035, com avanço do milho, crescimento dos biocombustíveis, novos mercados de DDG e impactos na matriz energética
Em dezembro de 2025, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) divulgou um estudo estratégico que projeta uma mudança estrutural no setor de combustíveis renováveis no Brasil. Segundo a estatal vinculada ao Ministério de Minas e Energia, o milho poderá responder por até 42% da produção de etanol nacional em 2035, consolidando-se como um dos principais vetores dos biocombustíveis e da transição energética brasileira.
Segundo matéria publicada pela Agência Eixos nesta sexta-feira (26), o levantamento analisa cenários de oferta e demanda entre 2026 e 2035 e aponta que a produção de etanol no país deve crescer de forma consistente, impulsionada sobretudo pela expansão acelerada do etanol de milho, pelo fortalecimento de políticas públicas estruturantes e pela ampliação de mercados associados, como o de DDGS e óleo de milho. Para a EPE, o etanol seguirá como peça-chave da matriz energética, independentemente do ambiente econômico.
EPE projeta crescimento robusto da produção de etanol até 2035
De acordo com o estudo recém-lançado pela EPE, a produção de etanol no Brasil poderá variar entre 44,8 bilhões e 58,8 bilhões de litros em 2035, dependendo de fatores como crescimento econômico, ritmo de investimentos no setor sucroenergético e consolidação das políticas públicas de incentivo aos biocombustíveis.
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O relatório trabalha com três trajetórias distintas — crescimento alto, médio e baixo — considerando o uso da cana-de-açúcar e do milho como matérias-primas. Em todos os cenários, o etanol se consolida como elemento central da estratégia energética nacional, com impacto direto na redução das emissões de gases de efeito estufa e na segurança do abastecimento.
Milho ganha protagonismo na produção de etanol no Brasil
Um dos pontos centrais do estudo da EPE é o avanço consistente do etanol de milho. Em 2024, a produção a partir do cereal alcançou 7,6 bilhões de litros, representando cerca de 20% da produção de etanol nacional. Já em 2025, a produção acumulada até novembro chegou a aproximadamente 9 bilhões de litros, o equivalente a 25% do total produzido no país.
As projeções indicam que, até 2035, a participação do etanol de milho deverá variar entre 33% e 42% da oferta total, o que evidencia uma transformação profunda na estrutura da cadeia de biocombustíveis brasileira.
Vantagens do milho impulsionam a produção de etanol e os biocombustíveis
Segundo a EPE, o crescimento do etanol de milho está diretamente associado às características agronômicas e logísticas do cereal. Entre os principais fatores estão a possibilidade de mais de uma safra por ano, especialmente em sistemas de rotação com a soja, e a capacidade de armazenamento do grão, que permite a operação contínua das usinas ao longo de todo o ano.
Além disso, a produção de etanol a partir do milho gera coprodutos relevantes, como o óleo de milho e o DDGS (grãos secos de destilaria com solúveis), amplamente utilizados na nutrição animal. A recente habilitação de plantas brasileiras para exportação de DDGS à China ampliou o potencial de receitas do setor e reforçou a competitividade dos biocombustíveis nacionais no mercado internacional.
Cana-de-açúcar mantém papel estratégico na produção do biocombustível
Apesar do avanço do milho, a cana-de-açúcar segue como um dos pilares da produção de etanol no Brasil. O estudo da EPE aponta que o setor sucroenergético passa por um processo de ajuste financeiro, impulsionado pela atratividade do açúcar no mercado internacional e por ganhos de eficiência agrícola e industrial.
Entre os fatores positivos estão a renovação dos canaviais, a redução de custos de cultivo, o uso crescente de irrigação, a produção de biogás e o avanço do etanol de segunda geração (E2G). Essas iniciativas contribuem para manter a competitividade da cana dentro do conjunto dos biocombustíveis.
Produção de etanol cresce sem exigir expansão da área agrícola
Um dos aspectos mais relevantes destacados pela EPE é que o aumento da produção de etanol não implica, necessariamente, uma expansão proporcional da área agrícola. Grande parte do crescimento projetado deverá ocorrer por meio de técnicas poupa-terra, como ganhos de produtividade agrícola e industrial, expansão do milho de segunda safra e maior aproveitamento de resíduos agroindustriais.
Nesse contexto, a relação entre expansão da produção e uso da terra tende a se tornar cada vez mais dissociada. O milho segunda safra, cultivado majoritariamente após a colheita da soja em áreas já consolidadas, é citado como exemplo de intensificação agrícola sem avanço territorial.
Biocombustíveis ampliam geração de energia e reduzem emissões
Além do etanol combustível, o estudo da EPE destaca o crescimento da bioeletricidade a partir da biomassa da cana. Mesmo no cenário mais conservador, a bioeletricidade poderá injetar até 4,2 GW médios no sistema elétrico em 2035, reforçando a segurança energética nacional.
A utilização de resíduos como vinhaça e torta de filtro também cria oportunidades para a produção de biometano. Para o horizonte até 2035, a EPE estima uma geração potencial entre 3 bilhões e 3,4 bilhões de metros cúbicos, variando conforme a eficiência das usinas e o volume de investimentos em biocombustíveis.
Do ponto de vista ambiental, os ganhos são expressivos. As emissões evitadas de gases de efeito estufa podem variar, em 2035, entre 71,8 milhões e 80,5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, dependendo do cenário considerado.
Milho, etanol e o novo desenho da matriz energética brasileira
O estudo da EPE também analisou os impactos da expansão da produção de etanol sobre o mercado de combustíveis fósseis. Nos cenários de crescimento médio e alto, as importações de gasolina A seriam eliminadas antes de 2030, reforçando a segurança energética do país.
Ao projetar o milho como protagonista da produção futura, a EPE sinaliza uma mudança estrutural na matriz energética brasileira, alinhada aos compromissos climáticos internacionais e às políticas públicas como o RenovaBio e a Lei do Combustível do Futuro.

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