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Milhares de fazendas fantasmas sufocam o litoral da Grécia após empresas abandonarem viveiros no mar, espalharem plástico por décadas e empurrarem ecossistemas costeiros para um colapso silencioso que governos relutam em enfrentar

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 09/01/2026 às 12:41
Assista o vídeofazendas fantasmas expõem como plástico e isopor da piscicultura viram microplásticos no mar da Grécia, com fiscalização falha, riscos no mergulho e uma limpeza lenta e cara.
fazendas fantasmas expõem como plástico e isopor da piscicultura viram microplásticos no mar da Grécia, com fiscalização falha, riscos no mergulho e uma limpeza lenta e cara.
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Em Methana, mergulhadores desmontando fazendas fantasmas criadas em 1993 e abandonadas após 2011; anéis a 40 metros, redes, bóias e isopor viram plástico espalhado por 5 km. Multas existem, mas a aplicação falha e a limpeza custa caro. O risco gera microplásticos e pressiona a piscicultura a mudar.

Em Methana, uma pequena cidade a algumas horas de carro de Atenas, e vi os anéis gigantes que parecem inofensivos na superfície. Abaixo deles, porém, as fazendas fantasmas apodrecem há anos, soltando plástico ao longo da costa e mar adentro e criando armadilhas invisíveis para a vida marinha.

No levantamento em campo, a equipe de Veronika Mikos descreve o cenário como trágico já no primeiro olhar. A instalação existe desde 1993, produziu robalo e dourada, e foi abandonada quando a empresa começou a ter problemas de licenças a partir de 2011. Desde então, as fazendas fantasmas viraram infraestrutura sem dono, difícil de remover e fácil de negar.

O que está se desfazendo abaixo da linha d’água

fazendas fantasmas expõem como plástico e isopor da piscicultura viram microplásticos no mar da Grécia, com fiscalização falha, riscos no mergulho e uma limpeza lenta e cara.

Vistas de cima, as fazendas fantasmas podem parecer discretas, mas são obras grandes.

Parte do conjunto chega a 40 metros de profundidade.

Como a estrutura é majoritariamente de plástico, o abandono acelera falhas mecânicas e ambientais.

As redes começam a se emaranhar e prendem peixes selvagens, que morrem e passam a atrair outros animais, repetindo o ciclo.

Com o tempo, as gaiolas redondas colapsam ou se separam.

As bóias racham e liberam o isopor que as preenche, espalhando partículas que, para os peixes, se parecem com alimento.

Esse caminho do isopor para o organismo é uma porta aberta para microplásticos no ecossistema.

Cinco quilômetros de costa e uma trilha de isopor

fazendas fantasmas expõem como plástico e isopor da piscicultura viram microplásticos no mar da Grécia, com fiscalização falha, riscos no mergulho e uma limpeza lenta e cara.

Tassos Philippides, que dirige uma ONG grega e usa imagens de satélite para localizar fazendas fantasmas, me mostrou o tipo de resíduo que aparece repetidamente.

Segundo Tassos, parte do material são sacos de alimentação animal, fragmentados ao longo do litoral.

Ele também recolheu um componente identificado como biela, usado nas gaiolas para conectar tubos na base do anel.

“Ninguém nunca vai colecioná-los”, resumiu, ao explicar por que esses itens ficam anos no ambiente e se transformam em microplásticos que flutuam, viajam e se acumulam.

Mapeamento por satélite e o tamanho do problema

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Vídeo do YouTube

Tassos afirmou ter identificado mais de 130 possíveis locais abandonados nas áreas analisadas e confirmou, até agora, que pelo menos 22 são fazendas fantasmas.

Em vários casos, os proprietários originais são conhecidos, o que muda o debate de “ninguém sabe de quem é” para “por que ninguém cobra”.

O alcance do problema também não é exclusivo da Grécia.

Os relatos apontaram que o mesmo tipo de abandono tem acontecido no Chile e no Canadá, e há a suspeita de que existam fazendas fantasmas ainda não identificadas.

Lei existe, mas a aplicação falha no mar

Pela lei grega, empresas que abandonam ilegalmente viveiros de peixes podem ser multadas e sofrer sanções. Para reduzir o risco de abandono, as empresas são obrigadas a fazer um pagamento inicial que só é devolvido ao fim das operações, se a limpeza for comprovada.

Os proprietários originais foram instruídos a remover a estrutura em 2022.

Dois anos depois, foram multados em 6.000 euros por ainda não terem limpado.

Não está claro se essa multa foi paga.

Mesmo quando o estado retém o pagamento inicial, a avaliação local é que o valor perdido pode ser muito menor do que o custo real para reparar os danos de plástico, isopor e microplásticos.

A limpeza começa no mergulho e termina no Typhoon

Veronika foi direta quando perguntei o que dá para fazer agora: começar a limpeza.

Os mergulhadores entram primeiro e lidam com um ambiente imprevisível.

No momento em que as redes começam a ser puxadas, a visibilidade zera.

O equipamento submerso costuma estar enterrado sob uma camada de terra e entrelaçado com vida marinha, incluindo peixes e moluscos, formando um labirinto.

A equipe junta as redes em uma pilha, desconecta do fundo do mar as cordas que mantêm as gaiolas no lugar e prende balões para trazer tudo à tona em etapas.

Na fase final, os anéis gigantes são puxados lentamente para dentro do navio Typhoon, especializado em remoção de resíduos marinhos. Em minutos, o que ficou anos abandonado é desmantelado e descartado.

Ao todo, foram cinco dias de trabalho para remover as 18 seções desta instalação, reduzindo a fonte direta de plástico e isopor no entorno.

Permissão, ameaça de processo e um ano para começar

Quando questionado o apoio do governo, a resposta veio em tom de ironia: o sinal verde existe, mas o apoio prático é mínimo.

“Basicamente, eles não nos bloqueiam”, disse Veronika, ao explicar que o maior obstáculo é obter uma tarefa formal do governo.

No caso observado, levou mais de um ano para conseguir autorização, porque, sem isso, a equipe poderia ser acusada de roubo de uma instalação em funcionamento.

O risco não é teórico. Um ano antes, representantes da Healthy Seas e da Ozon foram processados pelo proprietário de outra instalação abandonada em Nafpaktos.

Ele alegou que houve dano de meio milhão de euros em equipamentos. Os grupos afirmam que receberam permissão do governo local e que tinham provas de abandono por mais de 10 anos.

O processo judicial segue em andamento, e esse tipo de disputa eleva o custo e o tempo para remover fazendas fantasmas.

A Healthy Seas, depende de financiamento da Hyundai e de outros patrocinadores para bancar operações que costumam custar centenas de milhares de dólares.

Expansão da piscicultura e a sombra das fazendas fantasmas

A piscicultura na Grécia é descrita como uma indústria em crescimento, e a questão das fazendas fantasmas ainda é tratada como relativamente pequena.

Mesmo assim, há planos de expansão.

Uma ONG contrária à piscicultura industrial afirma que o governo pretende ampliar, em média, 24 vezes as áreas aquáticas disponíveis para aquicultura, com base em contratos e legislação que analisou.

Chile como alerta e o custo do plástico barato

O Chile aparece como exemplo de como a expansão pode vir acompanhada de detritos.

A aquicultura chilena cresceu rapidamente nos anos 1990 e, em 2007, chegou a ser brevemente o maior produtor de aquicultura marinha no Ocidente.

Desde então, o país viu um aumento enorme de detritos marinhos flutuantes ligados à aquicultura, com destaque para o isopor, e a indústria segue crescendo.

Mas o país começou a reconhecer riscos.

As bóias de isopor foram proibidas, exigindo alternativas maiores cheias de ar.

Também foram sugeridos materiais alternativos, como madeira ou até cogumelos, para reduzir a dependência de plástico barato e, por consequência, de microplásticos no mar.

O legado que fica depois da retirada

A fazenda fantasma que foi acompanhada em Methana saiu do mapa físico, mas seu legado permanece. Microplásticos e detritos já espalhados por peixes e correntes oceânicas viajam para longe e podem durar séculos, muito além de qualquer ciclo de licenciamento.

“É a matéria que respiramos”, junto da lembrança de que ingerimos isso na água e nos alimentos.

Se você mora em área costeira, um passo concreto é registrar pontos com estruturas abandonadas, acionar órgãos locais e acompanhar se há ordem de remoção e multa efetiva.

Quanto mais cedo fazendas fantasmas forem identificadas, menor o estoque de plástico e isopor virando microplásticos no ecossistema.

Você já encontrou fazendas fantasmas, isopor ou plástico de piscicultura perto de onde vive?

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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