Sem parar uma única vez para carregar, um carro elétrico da Mercedes percorreu 1.205 quilômetros — mais que a distância de São Paulo a Florianópolis — usando uma bateria de estado sólido que pesa 25% menos e armazena mais energia que qualquer outra do mercado
A Mercedes-Benz completou um teste que nenhuma montadora havia conseguido antes. Um protótipo do EQS elétrico equipado com bateria de estado sólido percorreu 1.205 quilômetros com uma única carga — sem parar para recarregar em nenhum momento da viagem.
Para dimensionar: a distância entre São Paulo e Florianópolis é de 705 km. O carro teria feito essa viagem e ainda sobrado bateria para ir até Curitiba e voltar.
O teste foi realizado em condições reais de estrada na Alemanha, com a bateria fornecida pela empresa americana Factorial Energy. O veículo percorreu rodovias, estradas secundárias e áreas urbanas — o tipo de percurso que qualquer motorista faria em uma viagem real.
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O que essa bateria tem de diferente — e por que muda tudo
Baterias convencionais de carros elétricos usam um eletrólito líquido para transportar íons entre os polos. Baterias de estado sólido substituem esse líquido por um material sólido.
Essa mudança parece simples, mas tem consequências enormes.
A bateria do protótipo Mercedes tem capacidade estimada de 135 kWh — cerca de 25% mais energia do que a bateria padrão do EQS — com peso similar ou menor.
Isso significa mais autonomia sem carregar mais peso. E mais energia em menos espaço.
O consumo medido durante o teste foi inferior a 10 kWh por 100 km — um número impressionante. Para comparação, um Tesla Model 3 consome entre 14 e 16 kWh por 100 km em uso real.

Por que a bateria de estado sólido é a “revolução que todos esperam”
A indústria automotiva chama a bateria de estado sólido de “Santo Graal” dos veículos elétricos. E há razões concretas para isso.
- Maior densidade energética: mais energia no mesmo volume, aumentando autonomia em até 80%
- Menor peso: elimina componentes líquidos pesados
- Mais segura: sem líquido inflamável, risco de incêndio cai drasticamente
- Carregamento mais rápido: íons se movem de forma mais eficiente no sólido
- Vida útil maior: menos degradação ao longo dos ciclos de carga
A Mercedes realizou testes de validação nas instalações de Stuttgart-Untertürkheim e Sindelfingen, na Alemanha, combinando simulações digitais com testes reais em estrada.
1.205 km vs. o que existe hoje no mercado
O carro elétrico com maior autonomia homologada atualmente é o Mercedes EQS padrão, com 780 km pelo ciclo WLTP.
Na prática, a maioria dos carros elétricos de alta performance entrega entre 400 e 600 km em uso real.
Os 1.205 km do protótipo com bateria de estado sólido representam o dobro do que qualquer carro elétrico de série oferece hoje.
E o potencial é ainda maior. Segundo dados da Mercedes, a bateria poderia teoricamente entregar até 1.342 km em condições otimizadas.
Isso eliminaria por completo a chamada “ansiedade de autonomia” — o medo de ficar sem bateria no meio de uma viagem — que é o principal obstáculo para a adoção em massa de carros elétricos.

Factorial Energy: a empresa por trás da bateria
A bateria foi desenvolvida pela Factorial Energy, uma empresa americana especializada em células de estado sólido.
A parceria com a Mercedes já vem de anos, mas esta é a primeira vez que a tecnologia foi testada em um veículo completo em condições reais de estrada.
O programa de validação integral começou em fevereiro de 2025, passando de testes laboratoriais para integração em protótipo e, finalmente, para o teste de 1.205 km que está sendo divulgado agora.
A Mercedes-AMG High Performance Powertrains, sediada em Brixworth, no Reino Unido, participou do desenvolvimento. A mesma divisão que projeta motores para a Fórmula 1 agora aplica sua expertise em baterias elétricas — um sinal claro de que a Mercedes aposta pesado nessa tecnologia.
A corrida global: Mercedes, Toyota, China — quem chega primeiro
A Mercedes não está sozinha nessa corrida.
A Toyota planeja iniciar produção de baterias de estado sólido entre 2027 e 2030. A chinesa CATL, maior fabricante de baterias do mundo, também tem protótipos avançados.
A Changan Automobile, outra montadora chinesa, anunciou uma bateria de estado sólido com autonomia de 1.500 km — mas em ciclo CLTC (padrão chinês, tipicamente 20-30% mais otimista que condições reais).
A diferença do teste da Mercedes é que os 1.205 km foram percorridos em estrada real, não em laboratório ou ciclo padronizado. Isso torna o resultado significativamente mais credível.

Quando essa tecnologia chega ao mercado — e quanto vai custar
A Mercedes planeja iniciar a produção em massa de baterias de estado sólido antes de 2030 — possivelmente nos últimos anos da década.
O Mercedes CLA 2026, que chegará ao mercado como carro de produção, terá autonomia de 790 km — impressionante, mas usando bateria convencional de íon-lítio.
A diferença entre 790 km com bateria convencional e 1.205 km com estado sólido é de mais de 50%. Com a mesma bateria, o carro anda 415 km a mais — praticamente a distância de São Paulo a Curitiba de bônus.
O principal obstáculo para a produção em massa é o custo. Fabricar células de estado sólido em escala industrial ainda é significativamente mais caro que baterias convencionais.
Porém, o próprio teste da Mercedes prova que a tecnologia funciona fora do laboratório. O desafio agora é econômico, não técnico.
É importante notar que o teste foi conduzido pela própria Mercedes em rota que pode ter sido otimizada para máxima eficiência. Uma verificação independente por terceiros daria mais peso ao resultado. Ainda assim, os 1.205 km em estrada real são um marco que aproxima a era dos carros elétricos de longa distância — uma era onde recarregar seria tão raro quanto parar para abastecer em uma viagem de avião.
Se um carro já consegue percorrer 1.205 km com uma única carga, a pergunta que resta é: quando a infraestrutura de recarga vai alcançar a bateria — ou será que nem vai precisar?

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