Iniciativa usa tecnologia ambiental e créditos de carbono para criar economia sustentável florestal na Amazônia.
Um projeto privado criado por empresários brasileiros e italianos está transformando 3 mil hectares da Amazônia em um ativo econômico sustentável, ao unir tecnologia ambiental, créditos de carbono e governança financeira no mercado voluntário de carbono.
Idealizado pelo economista italiano Fabio Ongaro, CEO da Energy Group Brasil, o empreendimento nasceu entre 2021 e 2022, ganhou forma no Amazonas e hoje já gera contratos reais com empresas de logística.
A iniciativa aposta em mensuração precisa, certificação internacional e rastreabilidade digital para provar que a economia sustentável florestal pode ser viável, escalável e financeiramente atrativa.
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Amazônia no centro de um novo modelo econômico
A Amazônia, maior floresta tropical do planeta, ocupa uma posição estratégica nesse modelo.
Com cerca de 700 milhões de hectares distribuídos por nove países, o bioma concentra no Brasil aproximadamente 60% de sua área, equivalente a 421 milhões de hectares.
Apesar disso, o avanço do desmatamento segue como desafio estrutural. Entre 1985 e 2024, o país perdeu cerca de 52 milhões de hectares de vegetação nativa, segundo dados do MapBiomas. Ainda que números recentes indiquem queda, como a redução de 11,08% no desmatamento entre agosto de 2024 e julho de 2025, conforme o Inpe, o cenário exige soluções além do discurso ambiental.
É justamente nesse contexto que o projeto se insere, propondo um caminho econômico para manter a floresta em pé.
Do telefonema à criação do Amazon Tree
A origem do empreendimento remonta a uma ligação internacional. Durante férias na Europa, Fabio Ongaro recebeu uma chamada do engenheiro elétrico italiano Rosário Zaccaria, amigo de longa data.
Inspirado por uma conversa familiar, Zaccaria questionou se haveria uma forma prática de contribuir para a preservação da Amazônia.
“Naquela época, eu estava de férias no norte da Itália. Estava numa pequena sacada com vista para a neve, aquela visão bucólica maravilhosa e este meu sócio também estava de férias em Lisboa, estava sentado em sua bela sacada, que dava para o Rio Tejo”, relembra Ongaro.
A resposta veio com pragmatismo. “A ideia seria comprar um pouquinho de terra e deixar lá. Isso já ajuda a preservar a mata.
E pode ser feita em numa escala menor”, disse ele ao amigo, reforçando a necessidade de algo simples, executável e financeiramente sustentável.
Tecnologia ambiental aplicada à preservação
O projeto ganhou forma com a criação da Amazon Tree, empresa fundada por Ongaro, Zaccaria e pelo engenheiro de produção brasileiro Jhonathan Santos.
Com recursos próprios, o trio adquiriu duas propriedades rurais em Rio Preto da Eva, município localizado a cerca de 80 quilômetros de Manaus.
O investimento inicial, estimado em aproximadamente R$ 5 milhões, incluiu compra de terras, desenvolvimento de plataforma digital, certificações e estrutura jurídica.
A proposta central é clara: a terra não é vendida. O que se comercializa é o serviço ambiental de preservação.
Para isso, a floresta é dividida digitalmente em parcelas de 256 metros quadrados.
Cada uma gera um NFT, ou Token Não Fungível, que funciona como um certificado digital de preservação registrado em blockchain. Essa tecnologia ambiental impede a duplicação de créditos e garante total rastreabilidade.
Créditos de carbono com mensuração e certificação
A monetização ocorre no mercado de carbono, mais especificamente no segmento voluntário.
O cálculo do potencial de sequestro de CO₂ utiliza imagens de satélite, estimativas de biomassa florestal, densidade e altura das árvores.
Todo o processo foi auditado e certificado pela Bureau Veritas, referência global em critérios ESG. Segundo Ongaro, esse selo foi decisivo para abrir negociações internacionais.
Atualmente, cada lote é precificado em cerca de US$ 25.
Caso toda a área monitorada seja comercializada em um ano, o faturamento pode alcançar US$ 1,5 milhão, o equivalente a R$ 7,5 milhões.
Primeiros contratos e validação do modelo
Antes mesmo de uma expansão comercial ampla, o projeto já avançou em negociações com empresas internacionais dos setores de transporte e logística.
Então uma associação suíça ligada ao transporte aéreo chegou a demonstrar interesse em absorver toda a área disponível.
A primeira operação, no entanto, foi fechada com a empresa paulista Action Cargo, especializada em logística aérea, marítima e rodoviária.
O contrato serviu como prova concreta da viabilidade do modelo.
“O mercado não está carente de discursos ambientais, mas de confiança.
Quando você mostra método, certificação e transparência, a decisão de compra deixa de ser ideológica e passa a ser econômica”, afirma Ongaro.
Economia sustentável florestal e visão crítica
Embora atue diretamente com créditos de carbono, o fundador mantém uma visão cautelosa sobre o setor. Para ele, a neutralização de emissões não resolve sozinha a crise climática.
“A resposta real é reduzir emissões. O crédito é uma ferramenta de transição, não um fim em si mesmo”, afirma.
Ainda assim, ele enxerga no Brasil uma vantagem estratégica rara. “Água, biodiversidade e capacidade produtiva serão os ativos geopolíticos do futuro.
Assim, o Brasil poderia ocupar uma posição comparável à do petróleo nos anos 1970, se houver governança e visão de longo prazo.”
Próximos passos do projeto na Amazônia
Entre os próximos movimentos avaliados está a possibilidade de dobrar a área preservada, com a aquisição de mais 3 mil hectares.
Então outra alternativa é abrir a plataforma para outros proprietários de terras, ampliando o alcance da economia sustentável florestal.
Assim, a decisão final dependerá do equilíbrio entre escala, retorno financeiro e impacto ambiental. “Não estamos construindo um projeto filantrópico, nem um fundo especulativo.
Então estamos testando se é possível fazer a floresta valer mais em pé do que derrubada e tudo indica que é”, conclui Ongaro.

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