O documentário do Yachtory entra no estaleiro da Austal e mostra a cabine de passageiros de 1.100 lugares sendo baixada sobre o casco, os quatro motores MTU que empurram o navio a 38 nós e o software de inteligência artificial que desenha o casco antes de cortar o aço
Ver uma cabine de passageiros do tamanho de um prédio ser erguida no ar e encaixada sobre o casco de um navio é o tipo de cena que resume a engenharia naval de ponta. Segundo o canal Yachtory, em documentário publicado em julho de 2026, o estaleiro australiano Austal monta o Bajamar Express, um ferry de alta velocidade em formato de trimarã de 380 pés, cerca de 116 metros, num processo que leva mais de 3 anos do primeiro corte à entrega.
Os números do navio explicam a ambição. O navio custa cerca de US$ 74 milhões, o equivalente a uns 70 milhões de euros, e é capaz de carregar até 1.100 passageiros, 278 veículos e 750 toneladas de carga a uma velocidade de cruzeiro de 38 nós, conforme o Yachtory detalha. Tudo isso num casco de trimarã pensado para juntar capacidade de balsa com a velocidade de uma lancha.
Dois blocos gigantes que viram um trimarã só
A montagem é dividida para ganhar tempo. Segundo o Yachtory, o trimarã é construído em duas seções principais: a cabine de passageiros, com as poltronas e as áreas de serviço, e a estrutura do casco e da ponte, que abriga a propulsão, a navegação e os controles de operação.
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Separar em módulos é o segredo da produtividade. Montar a cabine e o casco em paralelo permite que equipes trabalhem nas duas partes ao mesmo tempo, e no encaixe final milhares de toneladas de estrutura precisam se alinhar com precisão milimétrica, num processo que parece durar minutos no vídeo mas leva vários dias, conforme o Yachtory mostra. Veículos transportadores manobram a seção inferior do trimarã lentamente até a posição, embaixo da cabine já suspensa.
1.100 passageiros, 278 carros e 750 toneladas de carga

A capacidade é o que justifica o porte do casco triplo. Segundo o Yachtory, o Bajamar Express foi projetado para levar grande número de passageiros em alta velocidade sem abrir mão do conforto, com bares, quiosques, áreas de loja e até um espaço infantil a bordo.
Esse volume coloca o navio numa categoria de elite. Com até 1.100 passageiros, 278 veículos e 750 toneladas de carga, o ferry rápido combina a capacidade de uma balsa grande com a agilidade de um casco esbelto, o tipo de máquina que só faz sentido em rotas de alta demanda como a das Ilhas Canárias, conforme o Yachtory registra. O navio-irmão, o Bañaderos Express, tem a mesma configuração e liga Gran Canaria a Tenerife.
Quatro motores MTU e hidrojatos para cruzar a 38 nós
A propulsão é o coração da velocidade. Segundo o Yachtory, o ferry é movido por quatro motores diesel MTU, cada um entregando 9.100 kW, cerca de 12.200 cavalos, que acionam quatro hidrojatos Kamewa em vez de hélices convencionais.
É essa combinação que dá o desempenho de lancha a um navio enorme. Os quatro hidrojatos empurram o trimarã a uma velocidade de cruzeiro de 38 nós, com alcance operacional de cerca de 710 milhas náuticas, números que fariam inveja a muita embarcação bem menor, conforme o Yachtory explica. Os hidrojatos, que jogam água para trás em vez de girar hélices, são o padrão desses ferrys rápidos justamente por combinar potência e manobra em águas rasas, onde uma hélice exposta correria risco de bater no fundo. Colocar um navio desse porte na água também é uma operação de dias: em outra embarcação da mesma família, o lançamento levou cerca de 5 dias, com o casco transportado do galpão por um veículo modular autopropelido, depois passado para uma balsa e só então levado a mar aberto.
A IA que desenha o casco antes de cortar o aço

O projeto começa muito antes do primeiro corte de chapa. Segundo o Yachtory, a Austal usa um software próprio de inteligência artificial chamado Deep Morphir, que analisa e otimiza cascos de monocasco, catamarã e trimarã para afinar o desempenho antes de a obra começar.
A tecnologia poupa combustível e ganha velocidade. A ferramenta de inteligência artificial avalia inúmeras variações de projeto para melhorar eficiência, consumo, velocidade e desempenho geral, e um de seus resultados é o Express 5, um catamarã de alta velocidade de 370 pés que hoje opera como o maior ferry catamarã rápido do mundo, conforme o Yachtory aponta. É a prova de que, na engenharia naval moderna, o casco nasce no computador antes de nascer no aço.
Austal, US$ 74 milhões e mais de 3 anos por navio
Por trás da obra há uma potência industrial. Segundo o canal Yachtory no YouTube, a Austal foi fundada em 1988, emprega perto de 6.000 pessoas e é uma das maiores fabricantes de ferrys rápidos e navios navais avançados do mundo, com estaleiros na Austrália, nos Estados Unidos e nas Filipinas.
A logística de produção explica o prazo e o custo. A operadora espanhola Fred Olsen Express encomendou dois navios idênticos em 2017 e recebeu os dois em 2021, cada um exigindo mais de 3 anos de trabalho, e construí-los em estaleiros diferentes, um na Austrália e outro nas Filipinas, encurtou o prazo total ao permitir obras simultâneas, conforme o Yachtory relata. O documentário do Yachtory percorre ainda a construção de superiates de estaleiros como Royal Huisman e Oceanco, mas é o ferry de alta velocidade que abre a produção. Depois que o navio toca a água, o trabalho está longe do fim: os engenheiros terminam o interior, ajustam os equipamentos e submetem cada sistema de bordo a testes extensos, incluindo provas de mar com a própria Fred Olsen Express, para garantir que a embarcação cumpre todos os requisitos de desempenho e segurança antes de entrar em operação regular. É esse rigor de acabamento e teste, somado à precisão milimétrica do encaixe entre a cabine e o casco, que separa a construção de um trimarã de alta velocidade de qualquer obra naval convencional.
Por que o ferry de alta velocidade importa para o Brasil
A pauta tem eco direto nas águas brasileiras. O Brasil tem forte transporte hidroviário de passageiros, das barcas da Baía de Guanabara no Rio aos catamarãs que ligam Salvador a Morro de São Paulo e às linhas rápidas na Amazônia, onde o rio é a estrada e o barco veloz encurta horas de viagem.
A tecnologia do trimarã conversa com essas rotas. Ferrys rápidos de casco leve de alumínio e hidrojatos, como os que a Austal fabrica, são exatamente o tipo de embarcação que atende travessias movimentadas e rotas insulares, e o modelo das Ilhas Canárias serve de referência para o transporte aquaviário brasileiro que busca mais velocidade e capacidade, um paralelo notório para o setor de mobilidade no país. Do arquipélago espanhol à Baía de Todos-os-Santos, a conta é a mesma: onde há muita gente para cruzar a água, o ferry rápido compensa o alto custo de fábrica.
O vídeo percorre a montagem do trimarã Bajamar Express na Austal, o encaixe da cabine sobre o casco, os motores MTU, os hidrojatos e o software de inteligência artificial que projeta os cascos.
A construção do trimarã prova que um ferry de alta velocidade é engenharia de arranha-céu deitada sobre a água. Conta pra gente nos comentários: tu encararias uma travessia a 38 nós num trimarã de 1.100 passageiros?

