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Cientistas construíram uma bateria movida pelo mesmo mineral presente nos ossos e no giz de lousa — abundante, barato e amplamente distribuído pela Terra —, e ela sobreviveu a mil recargas mantendo cerca de três quartos de sua capacidade, em um passo raro rumo a um futuro sem lítio

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Escrito por Débora Araújo Publicado em 07/07/2026 às 14:54 Atualizado em 07/07/2026 às 14:56
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Cientistas construíram uma bateria movida pelo mesmo mineral presente nos ossos e no giz.
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Cientistas de Hong Kong desenvolveram uma bateria de íon-cálcio que resistiu a mil recargas e pode se tornar uma alternativa mais barata e sustentável ao lítio.

O futuro das baterias pode não depender apenas do lítio. Pesquisadores em Hong Kong anunciaram um avanço importante em uma tecnologia que utiliza cálcio — um dos elementos mais abundantes da Terra e o mesmo mineral presente nos ossos, dentes, cascas de ovos e rochas calcárias. A equipe desenvolveu uma bateria de íon-cálcio capaz de superar alguns dos maiores obstáculos que impediam essa tecnologia de competir com as baterias atuais, aproximando uma alternativa mais barata, abundante e potencialmente mais sustentável para veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.

Segundo a Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong (HKUST), o estudo apresenta uma nova arquitetura de bateria baseada em um eletrólito quase sólido que melhora significativamente o transporte dos íons de cálcio, permitindo um desempenho estável durante centenas de ciclos de carga e descarga. Embora ainda esteja em fase de laboratório, a descoberta é considerada um dos avanços mais importantes já obtidos nessa área.

O mundo procura uma alternativa ao lítio

As baterias de íon-lítio revolucionaram a eletrônica, os carros elétricos e o armazenamento de energia renovável. No entanto, a crescente demanda mundial vem expondo algumas limitações dessa tecnologia. Segundo o portal Interesting Engineering, o lítio possui reservas concentradas em poucos países, apresenta custos elevados e enfrenta uma cadeia de fornecimento cada vez mais pressionada pela expansão do mercado de veículos elétricos. Além disso, especialistas consideram cada vez mais difícil obter grandes saltos na densidade energética das baterias atuais utilizando apenas melhorias incrementais na química do lítio.

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É justamente nesse cenário que o cálcio desperta interesse. Além de ser muito mais abundante, ele é barato, amplamente distribuído na crosta terrestre e apresenta características eletroquímicas que o tornam um candidato promissor para futuras baterias de alto desempenho.

O maior obstáculo nunca foi encontrar cálcio

Durante anos, o problema das baterias de íon-cálcio nunca foi a falta de matéria-prima. O verdadeiro desafio sempre esteve na própria química da bateria. Segundo a HKUST, os íons de cálcio possuem carga dupla, o que dificulta seu deslocamento dentro dos eletrólitos convencionais. Em vez de circularem livremente durante os processos de carga e descarga, eles interagem fortemente com os materiais internos da bateria, tornando o transporte lento e provocando degradação acelerada do sistema.

Na prática, isso fazia com que as baterias perdessem capacidade rapidamente e apresentassem baixa eficiência, impedindo seu uso comercial. Esse comportamento foi o principal fator que manteve as baterias de íon-cálcio restritas aos laboratórios durante anos, apesar do enorme potencial econômico e ambiental da tecnologia.

A solução veio de uma espécie de rodovia molecular

A equipe da HKUST resolveu atacar exatamente esse problema. Os pesquisadores desenvolveram um novo eletrólito quase sólido formado por estruturas orgânicas altamente organizadas e ricas em grupos carbonila. Em vez de permitir que os íons se movimentem de maneira desordenada, o material cria caminhos internos que orientam seu deslocamento de forma muito mais eficiente.

Segundo a universidade, esses canais moleculares facilitam o transporte dos íons de cálcio entre os eletrodos, reduzindo perdas de energia e aumentando significativamente a estabilidade da bateria. O resultado foi a construção de uma célula completa de bateria de íon-cálcio capaz de operar em temperatura ambiente com desempenho muito superior ao observado em tentativas anteriores.

A bateria resistiu a mil ciclos de recarga

Os resultados obtidos pela equipe chamaram atenção justamente porque foram além da teoria. Segundo a HKUST, a bateria apresentou capacidade específica reversível de 155,9 miliampères-hora por grama e manteve mais de 74,6% dessa capacidade após 1.000 ciclos completos de carga e descarga.

Segundo a Interesting Engineering, esse nível de estabilidade representa um avanço importante para uma tecnologia que, até recentemente, sofria rápida degradação justamente por causa da dificuldade de movimentação dos íons de cálcio.

Em pesquisas sobre baterias, a durabilidade costuma ser um dos indicadores mais importantes de viabilidade tecnológica. Uma bateria pode armazenar muita energia, mas perde valor se sua capacidade diminuir rapidamente após sucessivas recargas. Os resultados obtidos pela equipe mostram que esse obstáculo começa a ser superado.

Ainda não é uma substituta do lítio

Apesar dos números promissores, os próprios pesquisadores destacam que a tecnologia ainda está distante do mercado. Segundo a HKUST, trata-se de uma demonstração experimental realizada em laboratório. Ainda serão necessários anos de pesquisa para ampliar a escala de fabricação, reduzir custos industriais, validar a segurança e comprovar o desempenho em aplicações comerciais.

Cientistas construíram uma bateria movida pelo mesmo mineral presente nos ossos e no giz de lousa — abundante, barato e amplamente distribuído pela Terra —, e ela sobreviveu a mil recargas mantendo cerca de três quartos de sua capacidade, em um passo raro rumo a um futuro sem lítio
Cientistas construíram uma bateria movida pelo mesmo mineral presente nos ossos e no giz.

Segundo a Interesting Engineering, transformar uma célula experimental em uma bateria utilizada em carros elétricos ou sistemas de armazenamento de energia exige inúmeras etapas adicionais de desenvolvimento, testes e certificações. Isso significa que a descoberta não representa uma substituição imediata das baterias de íon-lítio, mas um passo importante na busca por tecnologias menos dependentes de materiais escassos.

Um futuro mais barato pode estar em um dos elementos mais comuns da Terra

O avanço alcançado pela equipe de Hong Kong mostra que algumas das alternativas mais promissoras para o armazenamento de energia talvez não estejam em elementos raros, mas justamente em materiais extremamente comuns. Segundo a HKUST, o novo eletrólito demonstra que é possível melhorar significativamente o desempenho das baterias de íon-cálcio utilizando uma arquitetura molecular capaz de facilitar o transporte dos íons sem comprometer a estabilidade da célula.

Já a Interesting Engineering destaca que, caso pesquisas futuras confirmem esses resultados em escala industrial, o cálcio poderá reduzir a dependência mundial do lítio e abrir caminho para baterias potencialmente mais acessíveis, sustentáveis e abundantes.

Ainda há um longo percurso entre o laboratório e a produção em massa. Mas o fato de uma bateria baseada em um elemento presente nos nossos ossos, na casca dos ovos e em grande parte das rochas da Terra já ter suportado mil recargas mostra que uma das próximas revoluções no armazenamento de energia pode nascer justamente do material mais comum entre todos.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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