Escavado entre Santos e São Vicente, o Reservatório-Túnel Santa Tereza-Voturuá foi aberto dentro de um maciço rochoso de centenas de milhões de anos, funciona por gravidade e virou peça estratégica para o abastecimento da Baixada Santista.
O maior reservatório de água tratada em formato de túnel da América Latina fica onde muita gente passa sem imaginar: dentro de morros na divisa entre Santos e São Vicente, no litoral de São Paulo. A estrutura armazena 110 milhões de litros de água e foi escavada em rocha de granito gnaisse, formação associada a um período geológico de cerca de 600 milhões de anos.
Como informou o g1 em 6 de julho de 2026, o Reservatório-Túnel Santa Tereza-Voturuá atende Santos e São Vicente e ainda reforça o abastecimento de Guarujá e Praia Grande. A obra é tratada pela Sabesp como uma estrutura estratégica para a segurança hídrica da Baixada Santista, região que depende de reserva, distribuição e operação contínua para manter o fornecimento em períodos de alta demanda.
A construção começou em 1979 e terminou em 1981. O túnel foi executado simultaneamente pelos lados de Santos e São Vicente, em uma solução pouco comum: em vez de construir apenas tanques convencionais na superfície, a engenharia aproveitou o próprio maciço rochoso para criar uma grande “caixa d’água” subterrânea.
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O dado que mais chama atenção não é apenas o tamanho. O reservatório foi implantado a 42 metros acima do nível do mar, permitindo que parte do abastecimento ocorra por gravidade, o que reduz a dependência de bombeamento elétrico em comparação com sistemas que precisam empurrar água o tempo todo.
A “caixa d’água” subterrânea tem mais de um quilômetro e duas câmaras gigantes dentro da rocha
O Reservatório-Túnel Santa Tereza-Voturuá tem mais de 1 km de extensão e é dividido em duas câmaras. Cada uma mede cerca de 13 metros de altura por 15 metros de largura, dimensões próximas às de um prédio baixo escavado horizontalmente dentro do morro.

Segundo a AESabesp, associação ligada a engenheiros da Sabesp, a estrutura recebe 110 milhões de litros de água e representa cerca de um terço do armazenamento disponível na região. A entidade também registra que o reservatório foi inaugurado em 16 de novembro de 1981 e é considerado uma das obras mais ousadas já feitas pela companhia.
Para visualizar o volume, os 110 milhões de litros equivalem a 44 piscinas olímpicas ou a 220 milhões de garrafas de 500 ml. Também seria água suficiente para encher 55 mil caminhões-pipa de 2 mil litros, uma comparação que ajuda a traduzir a escala de uma estrutura que permanece invisível para a maior parte da população.
O acesso técnico fica pela região do Parque Ecológico Voturuá, em São Vicente. O local já foi aberto algumas vezes para visitação durante períodos de manutenção, mas a Sabesp informou que o interior do túnel não fica disponível ao público no dia a dia, com entrada restrita a equipes durante limpezas e inspeções programadas.
A rocha de 600 milhões de anos não é detalhe decorativo, ela explica por que o túnel pôde ser usado como reservatório
A escolha do local não foi apenas geográfica. O túnel foi escavado em um maciço de granito gnaisse, uma rocha resistente, antiga e comum em formações do Sudeste brasileiro. A Fundação Arquivo e Memória de Santos aponta que o material tem idade aproximada de 600 milhões de anos e permitiu o aproveitamento da própria estrutura natural dos morros.
Essa comparação com o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, vem da semelhança geológica. O Serviço Geológico do Brasil descreve o conjunto do Pão de Açúcar e Morro da Urca como área formada por litologias como gnaisse facoidal, biotita gnaisse, diabásio e granito, com idade ligada à evolução geológica do Sudeste.
Em termos simples, a rocha não é apenas o “chão” onde o reservatório foi aberto. Ela funciona como parte da própria engenharia, reduzindo a necessidade de grandes estruturas artificiais de contenção em alguns trechos e dando estabilidade ao espaço escavado.
Essa condição também ajuda a explicar por que a obra segue relevante mais de quatro décadas depois da inauguração. Reservatórios convencionais exigem grandes áreas livres na superfície, enquanto o Santa Tereza-Voturuá ocupa um espaço interno nos morros, em uma região urbana onde terreno é caro, escasso e disputado.
A obra começou nos anos 1970 e até as pedras retiradas ganharam outro destino em Santos
A construção do reservatório começou em 1979, período em que obras de saneamento e infraestrutura avançavam na Baixada Santista. O túnel foi escavado a partir dos dois municípios ao mesmo tempo, uma estratégia para acelerar a abertura e permitir o encontro das frentes de trabalho dentro do maciço.
De acordo com o portal Costa Norte, as pedras retiradas dos morros durante a escavação foram utilizadas na formação do Emissário Submarino, no José Menino, em Santos. O mesmo levantamento registra a inauguração do reservatório em 1981 e reforça que a estrutura foi concebida como reserva hídrica de grande porte para a região.
O funcionamento por gravidade é outro ponto central. A Sabesp registrou em publicação institucional que a obra foi feita a 42 metros acima do mar justamente para permitir distribuição com menor gasto de energia elétrica, além de informar que cerca de 300 pessoas participaram da execução.
Na prática, isso significa que a estrutura não é apenas grande. Ela foi pensada para operar com eficiência em uma região de alta concentração urbana, turismo intenso em feriados e verões, e pressão constante sobre o sistema de abastecimento.
O reservatório antigo ainda pesa no futuro da Baixada Santista
Mesmo inaugurado em 1981, o Santa Tereza-Voturuá continua no centro da discussão sobre segurança hídrica no litoral paulista. A Baixada Santista tem crescimento urbano, variação sazonal de população e municípios com forte dependência de sistemas interligados de produção, reservação e distribuição de água.
A Sabesp informou que há um conjunto de investimentos em andamento para reforçar o abastecimento regional. A previsão é que a Baixada Santista receba outros 21 reservatórios até 2029, ampliando a capacidade de armazenamento em mais de 130 milhões de litros, volume superior ao do próprio Santa Tereza-Voturuá.
Esse reforço não diminui a importância do túnel antigo. Pelo contrário, mostra que a reservação continua sendo uma das peças mais sensíveis do saneamento: captar e tratar água não basta se o sistema não tiver onde guardar volume suficiente para atravessar picos de consumo, manutenções e oscilações operacionais.
O reservatório escondido entre Santos e São Vicente virou, ao mesmo tempo, obra de engenharia, patrimônio técnico e peça prática do abastecimento. Quarenta e cinco anos depois do início da construção, ele ainda cumpre a função para a qual foi criado: guardar água tratada em grande escala antes que ela chegue às torneiras.
Você já conhecia a história desse reservatório escavado dentro da rocha? Na sua opinião, obras subterrâneas como essa deveriam ser mais divulgadas para a população entender de onde vem a água que chega em casa?

