As Maldivas têm elevação média de 1,5 metro acima do nível do mar. As projeções do IPCC indicam que 80% do território estará submerso durante marés altas até 2100. A resposta do país: criar terra nova sobre o oceano que ameaça engolir as ilhas.
Segundo o IPCC e o governo das Maldivas, o arquipélago investe mais de US$ 10 bilhões até 2050 em adaptação climática.
Portanto, o país não aguarda o fim. Ele tenta construir o próprio futuro sobre a água.
Além disso, o paradoxo econômico é grave. O turismo representa 30% do PIB nacional. Se os recifes degradarem e as praias desaparecerem, a principal renda some antes do território físico.
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Contudo, a engenharia avança. O Greater Malé Fill Project, iniciado em 2019 e em fase final em 2026, criou 4,5 km² de terra nova a um custo de US$ 400 milhões.
A engenharia das Maldivas contra o oceano

O projeto mais emblemático é o Hulhumalé, ilha artificial elevada a 4 metros acima do nível do mar. Em 2023, a fase 2 foi concluída com 4 km² adicionais.
O projeto foi projetado para abrigar 100 mil pessoas.
Da mesma forma, a capital Malé tem apenas 5,8 km². Sem aterros, seria a área mais densamente habitada do mundo sem possibilidade alguma de expansão territorial.
Em outras palavras, o arquipélago está na vanguarda da engenharia climática de sobrevivência. Cada quilômetro quadrado criado é uma aposta de futuro contra a maré.
- Elevação média: 1,5 metro acima do nível do mar
- Território: 298 km² em 1.190 ilhas
- Projeção até 2100: 80% submerso em marés altas
- Hulhumalé fase 2: 4 km² elevados a 4 metros, US$ 200 milhões
- Greater Malé Fill: 4,5 km² criados, US$ 400 milhões
- Adaptação até 2050: US$ 10 bilhões — um terço do PIB anual
Tuvalu: o caso extremo com 95% submerso até 2100

Tuvalu enfrenta um cenário ainda mais extremo.
Com apenas 26 km² e 11 mil habitantes, o país do Pacífico viu o nível do mar subir 15 cm em três décadas, velocidade 1,5 vezes acima da média global.
Além disso, a capital Funafuti fica numa faixa de terra de 20 metros de largura em alguns trechos. Portanto, marés altas excepcionais já inundam casas e contaminam com sal o aquífero de água doce.
Consequentemente, Tuvalu assinou em novembro de 2023 a Falepili Union com a Austrália. O acordo garante ao povo tuvaluano direito de morar no país vizinho, mesmo que Tuvalu desapareça fisicamente.
Em maio de 2025, o Primeiro-Ministro Feleti Teo pediu na Conferência Oceânica da ONU um tratado que “consagre os direitos legais dos Estados e povos afetados, incluindo a continuidade da estatalidade”.
Conforme o Lowy Institute, a situação de Tuvalu é o cenário mais extremo e serve de referência para dezenas de outras nações insulares em risco semelhante.
Segundo o relatório sobre mudanças climáticas em Tuvalu, o nível do mar local sobe 1,5 vezes mais rápido que a média global, acelerando o risco de inundação permanente nas próximas décadas.
Portanto, a engenharia tornou-se a resposta mais pragmática diante de uma ameaça que os tratados climáticos ainda não resolveram.
Nesse sentido, cada metro de terra criado sobre o oceano representa uma vitória temporária e uma aposta permanente.
O custo impossível: quanto custa sobreviver ao oceano
Para o arquipélago, US$ 10 bilhões até 2050 representam um terço do PIB anual. Isso equivale a um esforço proporcional ao Brasil gastar R$ 2,5 trilhões para proteger duas metrópoles do avanço do mar.
Portanto, o financiamento vem de fora. China e Índia competem por influência nos projetos de aterro, criando dependência diplomática como subproduto da sobrevivência climática.
Em comparação, os Países Baixos gastam 6 bilhões de euros por ano em diques. Com 26% do território abaixo do nível do mar, a Holanda é a referência mundial em engenharia hídrica.
Da mesma forma que o maior rio artificial do mundo foi construído no deserto do Saara, os países insulares apostam que a engenharia pode vencer onde a natureza impõe limites.
Soberania sobre o oceano: a solução jurídica inédita
Tuvalu encontrou uma saída jurídica criativa. Mesmo que o território físico desapareça, o país planeja manter sua zona marítima de 900 mil km². Nela estão os direitos de pesca, principal recurso econômico.
Assim, Tuvalu pode existir como Estado sem terra firme, mas com oceano soberano. A lógica é direta: a soberania sobre o mar vale mais do que ilhas inabitáveis.
Além disso, o governo busca reconhecimento internacional de que os aterros artificiais são território soberano legítimo. Cada km² criado é extensão do Estado, não nova propriedade.
O debate ilumina uma questão maior. A Amazônia já emite mais carbono do que absorve, mostrando que mesmo grandes ecossistemas cedem sob pressão climática. As ilhas menores chegam primeiro ao limite.
O paradoxo final: criar terra para salvar um país

O paradoxo é visível: o país cria terra artificial mais rápido do que o oceano toma o que existe. Porém, o oceano está acelerando, e o orçamento não.
Os aterros elevados a 4 metros resistem às projeções do IPCC para 2100. Ainda assim, cenários mais pessimistas colocam o nível do mar até 2 metros acima do atual, o que inundaria os próprios aterros.
A pergunta que o mundo evita: quem paga pela sobrevivência de países cujas emissões são próximas de zero? O arquipélago emite menos de 0,01% do carbono global.
Os países ricos, que emitem a maioria, não são os que vão afundar.
Será que as ilhas menores serão os primeiros países a desaparecer do mapa por causas criadas por outros? E o que isso diz sobre a responsabilidade coletiva que todos afirmam ter com o clima?
Ainda assim, a engenharia avança, e talvez seja a única resposta concreta enquanto o mundo político debate.
Nota: dados do IPCC AR6 (2021), Banco Mundial (2023-2024) e governo do arquipélago. Projeções até 2100 variam por cenário de emissão e estão sujeitas a revisão científica.

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