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Gaddafi construiu o maior rio artificial do mundo debaixo do Saara — são 4.000 km de tubos gigantes que bombeiam água fóssil de 40 mil anos para cidades inteiras na Líbia

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 27/04/2026 às 18:15
Atualizado em 27/04/2026 às 18:48
Tubulações gigantes de 4 metros de diâmetro do Great Man-Made River enterradas no deserto do Saara na Líbia
O Great Man-Made River usa 4.000 km de tubos de concreto de 4 metros de diâmetro para levar água fóssil do Saara às cidades costeiras
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O Great Man-Made River é o maior projeto de irrigação do planeta — 4.000 km de tubulações gigantes enterradas debaixo do deserto do Saara, bombeando água que caiu como chuva há 40 mil anos

No início dos anos 1980, o líder líbio Muammar Gaddafi anunciou o que chamou de “a oitava maravilha do mundo”: um rio artificial escondido debaixo do maior deserto do planeta. Segundo a Encyclopaedia Britannica, o Great Man-Made River da Líbia é o maior projeto de irrigação já construído pela humanidade.

A obra consiste em 4.000 quilômetros de tubulações subterrâneas que transportam água doce de aquíferos profundos no sul do Saara até as cidades costeiras do norte, onde vivem milhões de pessoas.

Além disso, a água que corre por esses tubos não é qualquer água. Trata-se de água fóssil do Aquífero Núbio de Arenito, acumulada durante a última era glacial — há aproximadamente 40 mil anos.

Na prática, a Líbia está bebendo chuva que caiu quando os seres humanos ainda dividiam o planeta com os neandertais.

Os números que fazem deste rio artificial uma obra sem paralelo na engenharia moderna

Vista aérea de círculos de irrigação verdes no deserto da Líbia alimentados pelo rio artificial
Áreas irrigadas no deserto líbio — o contraste entre areia e vegetação mostra o impacto do rio artificial

Conforme dados compilados pela Wikipedia com base em fontes oficiais líbias, o projeto foi dividido em cinco fases e envolveu cifras que desafiam a imaginação.

O custo total projetado ultrapassa US$ 25 bilhões. Portanto, estamos falando de uma obra mais cara do que o Canal do Panamá ampliado.

Em sua capacidade máxima, o rio artificial consegue transportar 6,5 milhões de metros cúbicos de água por dia. Para ter uma ideia, esse volume seria suficiente para encher 2.600 piscinas olímpicas a cada 24 horas.

Além do mais, cada tubo de concreto pré-moldado tem 4 metros de diâmetro — largo o bastante para um carro passar por dentro.

A primeira fase da obra exigiu a escavação de 85 milhões de metros cúbicos de terra. Consequentemente, o volume de terra removido supera o de muitas das maiores barragens do mundo.

O mais impressionante é que a Líbia financiou tudo isso sem empréstimos internacionais. O dinheiro veio inteiramente das receitas do petróleo do país.

A água vem de um oceano subterrâneo escondido sob quatro países africanos

Reservatório de água cristalina no meio do deserto líbio com estação de bombeamento
A água bombeada dos aquíferos chega a reservatórios no deserto antes de seguir pelos tubos até as cidades

O Aquífero Núbio de Arenito é um dos maiores reservatórios de água subterrânea do mundo. De fato, ele se estende por baixo de quatro países: Líbia, Egito, Chade e Sudão.

Segundo geólogos, essa água se acumulou durante períodos em que o Saara era uma savana verde, com rios, lagos e vegetação abundante. Da mesma forma que o petróleo é um combustível fóssil, essa água é um recurso fóssil — não está sendo reposta pela chuva atual.

Isso significa que, tecnicamente, o rio artificial da Líbia está consumindo um recurso finito. Nesse sentido, cientistas estimam que o aquífero poderia durar entre 60 e 100 anos no ritmo atual de extração.

Contudo, outros pesquisadores alertam que o esgotamento pode ser mais rápido se os países vizinhos também aumentarem suas extrações.

Uma obra que levou décadas — e que transformou o deserto em fazendas

A construção do rio artificial começou em 1984 e se estendeu por mais de duas décadas. A primeira fase, que levou água até a cidade de Benghazi, no leste da Líbia, entrou em operação em agosto de 1991.

Em seguida, a segunda fase conectou o sistema à capital Trípoli, em setembro de 1996. Por sua vez, as fases seguintes expandiram a rede para cobrir praticamente toda a faixa costeira habitada do país.

O impacto na agricultura foi imediato. Áreas desérticas que nunca tinham visto irrigação passaram a produzir trigo, cevada e frutas.

De acordo com relatórios do governo líbio, o projeto também abasteceu cidades inteiras com água potável que antes dependiam de dessalinização cara ou importação.

Para entender a escala, os 1.300 poços que alimentam o sistema chegam a profundidades entre 500 e 800 metros abaixo da superfície do deserto.

A guerra civil quase destruiu o rio artificial — e milhões ficaram sem água

Apesar disso, o sistema enfrentou sua maior crise durante a Segunda Guerra Civil Líbia, entre 2014 e 2020. Combates danificaram tubulações, estações de bombeamento e poços de captação.

Segundo relatos da Interesting Engineering, 101 dos 479 poços do sistema oeste haviam sido desmontados até julho de 2019.

Em comparação, imagine se mais de 20% das estações de tratamento de água de São Paulo parassem de funcionar de uma vez. Ainda assim, o sistema continuou operando parcialmente graças à redundância projetada por engenheiros nos anos 1980.

Mesmo com os danos, o rio artificial continua sendo a principal fonte de água doce para a maioria dos 7 milhões de habitantes da Líbia. Portanto, a reconstrução das seções danificadas tornou-se uma prioridade nacional.

Enquanto o mundo constrói dessalinizadoras, a Líbia optou por uma solução que não precisa de eletricidade

Fazenda verde irrigada no meio do deserto líbio com trigo e árvores frutíferas
O rio artificial transformou trechos do Saara em áreas produtivas com trigo, cevada e frutas

Uma das características mais notáveis do rio artificial é que ele funciona parcialmente por gravidade. Os aquíferos no sul estão em altitude mais elevada do que as cidades costeiras no norte. Por isso, parte da água flui naturalmente pelos tubos sem precisar de bombas elétricas.

Em outras palavras, enquanto países como Jordânia e Arábia Saudita gastam bilhões em usinas de dessalinização que consomem energia enorme, a Líbia construiu um sistema que aproveita a topografia natural.

Da mesma forma, projetos de transposição como o do Rio São Francisco no Brasil — que move água por 477 quilômetros — parecem modestos perto dos 4.000 quilômetros líbios.

A diferença é que a transposição brasileira leva água de rio, que se renova com a chuva. O rio artificial da Líbia consome um estoque finito que nunca mais será reposto.

O dilema: a maior obra de engenharia da África está bebendo uma água que vai acabar

Sobretudo por esse motivo, o futuro do Great Man-Made River é incerto. Cientistas debatem se o Aquífero Núbio pode sustentar a extração atual por mais 60 anos — ou se o esgotamento virá antes.

Igualmente preocupante é a falta de investimento em manutenção desde a queda de Gaddafi em 2011. O sistema foi projetado para funcionar por décadas, mas requer cuidado constante com vedação, bombas e poços.

Apesar disso, o rio artificial permanece como uma das maiores demonstrações de engenharia civil do século XX. Em resumo, é uma obra que transformou um país desértico em um lugar onde pessoas podem viver, plantar e beber água potável.

Será que outras nações com desertos e aquíferos subterrâneos deveriam copiar o modelo líbio antes que a água acabe? Ou será que o mundo deveria investir em soluções renováveis, como dessalinização solar, antes que projetos como esse se tornem relíquias de uma era que esgotou seus recursos?

Por fim, o Great Man-Made River prova que a humanidade é capaz de obras extraordinárias quando há vontade e recursos. No entanto, também serve como alerta: até a maior engenharia do mundo tem prazo de validade quando o recurso que ela explora não se renova.

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Marco Antonio Soares de Moraes
Marco Antonio Soares de Moraes
28/04/2026 16:29

O comentário de Ademar Evangelista lenbra-me do que o meu pai, Rubilar Varella Moraes (Petrobrás) me falava ainda criança (Anos 70’s). Ele trabalhava no Setor Administrativo e Banco Interno (Setor de Pagtos e Resgate de Ações)e tinha muitos contatos com engenheiros e geólogos holandeses, americanos e ingleses (países das multinacionais do petróleo). Ele me dizia : “Deveríamos transportar uma parte do excedente de água do Rio Amazonas para transferir através de tubulações para o Nordeste”. Ainda nos Anos 70’s e 80’s; uma Empresa de São Paulo a “Pérsico Pizamiglio” fabricava tubos especiais de aço costurado (indústria do petróleo etc). Talvez fosse caso fizessem investimentos em pesquisas colocar em prática a sugestão de “Ademar Evangelista”; que guardadas as possíveis diferenças tem muitas, muitas semelhanças !.

Ademar Evangelista
Ademar Evangelista
27/04/2026 22:54

Pena que é finito mas a implementação com recursos oriundos da produção interna, ou seja, resolveu parcialmente uma necessidade do povo. Uma lição aos governantes brasileiros!

Na minha insignificante sugestão, no Brasil, para acabar com as bandeiras tarifárias sobre energia elétrica nos períodos de estiagem e racionamentos de água na região centro-sul do País deveriam usar essa experiência Líbia para transferir água do Rio Amazonas por gravidade para os represas hidroelétricas e de abastecimento de água potável para os centros urbanos nessas regiões!

Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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