China iniciou no Tibete a usina de Medog, maior projeto hidrelétrico do mundo, com cinco barragens e impacto geopolítico sobre o Brahmaputra.
A China iniciou em 19 de julho de 2025 a construção do que descreve como o maior projeto hidrelétrico do mundo no curso inferior do rio Yarlung Zangbo, no Tibete. A cerimônia foi presidida pelo premiê Li Qiang em Nyingchi, e o empreendimento foi lançado com investimento estimado em cerca de 1,2 trilhão de yuans, equivalente a aproximadamente US$ 167,8 bilhões.
O complexo terá cinco usinas em cascata e foi desenhado para gerar cerca de 300 bilhões de quilowatts-hora por ano, volume que supera com folga a escala da hidrelétrica de Três Gargantas. Para Pequim, trata-se de uma peça central de oferta de energia; para os países rio abaixo, o projeto abre uma nova frente de tensão em torno de água, sedimentos, segurança hídrica e riscos ambientais em uma das regiões mais sensíveis da Ásia.
Maior projeto hidrelétrico da China começou no Tibete com cinco barragens em cascata e investimento bilionário
Segundo a Xinhua, o projeto foi oficialmente inaugurado com uma cerimônia no local da usina de Mainling, em Nyingchi, e será composto por cinco barragens em cascata.
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A agência estatal também informou que a eletricidade produzida será direcionada principalmente para consumo fora do Tibete, embora parte da carga também atenda à demanda local em Xizang, nome oficial chinês para a região.

A Reuters informou que o empreendimento fica na borda leste do Planalto Tibetano, no baixo Yarlung Zangbo, e deve se tornar o maior do mundo em geração hidrelétrica. A mesma reportagem afirma que a operação é a mais ambiciosa da China desde Três Gargantas e que a entrada em funcionamento é esperada para algum momento da década de 2030.
Queda de 2 mil metros em 50 quilômetros transformou o Yarlung Zangbo em alvo da engenharia energética chinesa
A força do projeto está diretamente ligada à geografia extrema do rio. A Reuters relata que, em um trecho de cerca de 50 quilômetros, o Yarlung Zangbo despenca aproximadamente 2 mil metros, criando um dos maiores potenciais hidrelétricos já explorados em escala comercial.
Esse desnível excepcional explica por que a região passou a ser tratada como estratégica para a expansão energética chinesa. Em vez de uma barragem isolada, o governo optou por um sistema em cascata que concentra geração em um dos pontos mais agressivos do relevo himalaio.
Megausina no Tibete virou peça central da estratégia energética e climática da China
Quando aprovou a obra em dezembro de 2024, Pequim afirmou que o projeto teria papel positivo no desenvolvimento econômico e na reorganização da matriz energética chinesa. A Reuters registrou, à época, que a barragem foi apresentada como parte do esforço para apoiar as metas chinesas de pico de emissões antes de 2030 e neutralidade de carbono até 2060.
Além do argumento climático, o governo chinês associa o projeto a segurança energética, expansão da infraestrutura e estímulo à economia.
A Reuters informou que o anúncio do início da construção foi lido pelo mercado como sinal de novo impulso em investimento pesado, com reflexo imediato em ações de engenharia, materiais e equipamentos de túnel.
Índia e Bangladesh veem risco para o Brahmaputra e reforçam alerta sobre segurança hídrica
A preocupação regional existe porque o Yarlung Zangbo não termina em território chinês. Depois de deixar o Tibete, ele entra na Índia e passa a integrar o sistema do Brahmaputra, antes de seguir para Bangladesh, o que transforma qualquer grande intervenção a montante em tema de segurança hídrica internacional.
Em janeiro de 2025, a Índia afirmou oficialmente que havia transmitido suas preocupações a Pequim. Segundo a Reuters, Nova Délhi cobrou que a China garanta que os interesses das regiões a jusante não sejam prejudicados, enquanto Bangladesh também demonstrou apreensão com possíveis efeitos sobre oferta de água e estabilidade ambiental.
A Reuters também registrou que a falta de detalhes técnicos divulgados por Pequim ampliou receios na Índia sobre vazão, retenção de sedimentos e uso estratégico da infraestrutura em um corredor geopolítico já marcado por disputas fronteiriças.
Ao mesmo tempo, especialistas ouvidos pela agência ponderam que o impacto sobre o volume total do Brahmaputra pode ser menor do que parte do discurso político sugere, porque grande parte da água do rio vem das chuvas de monção ao sul do Himalaia.
Região sísmica, deslizamentos e sensibilidade ecológica elevam o risco ambiental da usina de Medog
A obra será executada em uma área sujeita a terremotos, deslizamentos, eventos climáticos severos e enchentes de lagos glaciais.
A Reuters destaca que esse conjunto de ameaças torna a construção particularmente delicada e amplia as dúvidas sobre segurança operacional e impacto acumulado ao longo das próximas décadas.

O debate ambiental também envolve biodiversidade e alteração do comportamento do rio. A Reuters informou que organizações não governamentais alertam para possíveis danos a um dos ambientes mais ricos e diversos do planalto tibetano, enquanto a China sustenta que o projeto não terá efeito significativo sobre o meio ambiente nem sobre o abastecimento dos países rio abaixo.
Projeto de Medog transforma água, energia e fronteira em um único eixo estratégico para a Ásia
A nova megabarragem combina três agendas ao mesmo tempo: expansão da energia de baixo carbono, reforço da infraestrutura nacional e maior controle sobre um rio transfronteiriço vital para a Ásia do Sul. Por isso, o projeto saiu do campo da engenharia e passou a ocupar o centro de uma disputa maior sobre soberania, segurança hídrica e gestão de recursos estratégicos.
Se cumprir as projeções oficiais, a usina iniciada em 2025 vai redefinir a escala global da geração hidrelétrica. Mas, à medida que a construção avançar na década de 2030, o impacto real de Medog será medido não apenas em turbinas e quilowatts-hora, mas também em transparência, estabilidade regional e efeitos sobre um dos sistemas fluviais mais sensíveis do planeta.

