Tartaruga-cabeçuda monitorada desde os anos 1980 volta a desovar na Praia de Povoação, em Linhares, e estabelece um recorde histórico de conservação no Brasil.
A tartaruga-cabeçuda mais velha desovando no país foi vista novamente na Praia de Povoação, em Linhares, no Norte do Espírito Santo. O reencontro, em 2 de dezembro de 2025, consolida um acompanhamento iniciado em 1988 e considerado o mais longo já documentado no Brasil para uma tartaruga marinha em atividade reprodutiva.
Segundo o g1 Espírito Santo (publicado em 19 de fevereiro de 2026) e a Fundação Projeto Tamar, a fêmea foi marcada com anilha na década de 1980 e soma 37 anos de registros. Trata-se de um marco para a conservação marinha, que confirma a fidelidade dessas tartarugas ao local de nascimento, comportamento conhecido como filopatria.
O biólogo Alexsandro Santos, pesquisador da Fundação Projeto Tamar e coordenador de pesquisa e conservação no Espírito Santo, explica que este é o registro mais antigo de uma fêmea ainda desovando no litoral brasileiro. Para reduzir estresse durante a atividade, os técnicos usam luz vermelha, que interfere menos no comportamento do animal.
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Recorde brasileiro, 37 anos de registros e retorno ao mesmo ponto de desova

Marcada pela primeira vez em 1988, a fêmea foi reencontrada outras sete vezes ao longo das décadas, sendo esta a oitava recaptura confirmada. Os pesquisadores destacam que isso não significa que ela tenha vindo à praia apenas nessas ocasiões, pois há temporadas em que o animal pode passar despercebido mesmo com rondas noturnas.
Ao longo de quase 40 anos, a tartaruga foi recapturada sempre na mesma região de Linhares, o que reforça a fidelidade ao local de desova típica da Caretta caretta. De acordo com a equipe do Tamar, parte do casco desse indivíduo está danificada, o que impediu a medição exata do comprimento e inviabilizou estimar o peso nesta temporada.
Idade estimada, ciclo reprodutivo e números da desova da tartaruga-cabeçuda
Pela estimativa dos pesquisadores, a fêmea pode ter mais de 60 anos. As tartarugas-cabeçudas iniciam a reprodução por volta dos 25 anos, e os 37 anos de registros sugerem que este animal está mais próximo do fim do período reprodutivo. Segundo Alexsandro Santos, ela já desova ao lado de suas filhas e possivelmente netas.
Em cada temporada, a espécie faz de três a oito ninhos, com média de cinco desovas por fêmea. Cada ninho costuma conter cerca de 120 ovos, e nascem, em média, 90 filhotes. A espécie pode atingir até 1,23 metro de casco e pesar entre 150 e 200 kg, segundo a literatura citada pelo Tamar.
Quanto essa fêmea já produziu de ovos e filhotes
Considerando 19 temporadas reprodutivas possíveis ao longo de 37 anos, a estimativa aponta para aproximadamente 11.400 ovos colocados por essa mesma fêmea. Desse total, algo em torno de 8.550 filhotes podem ter eclodido, levando em conta a média de 90 nascimentos por ninho.
A sobrevivência, porém, é a etapa mais dura. A regra natural indica que apenas 1 a 2 em cada 1.000 filhotes chegam à idade adulta. Nesse cenário, a contribuição desta única fêmea pode ter garantido entre 8 e 17 adultos ao longo de quase quatro décadas, o que ilustra por que cada fêmea reprodutiva é tão valiosa.
Metodologia de monitoramento, limitações e por que cada fêmea conta na conservação
Para o pesquisador do Tamar, o caso simboliza o valor do método de marcação e recaptura mantido por décadas. Mesmo com equipes percorrendo a praia todas as noites, há variações no intervalo entre desovas e deslocamentos que podem dificultar alguns registros, além de fatores como a necessidade de a fêmea acumular energia para migrar e formar ovos.
Nas áreas acompanhadas pela Fundação Projeto Tamar na Bahia, Sergipe, Rio de Janeiro e Espírito Santo, são registrados, em média, 11 mil ninhos de tartaruga-cabeçuda por ano. A entidade ressalta que esse número se refere a ninhos, não a indivíduos no mar, o que evidencia lacunas de conhecimento e a importância da continuidade do monitoramento.
Rota de migração e lacunas de conhecimento sobre a população nos oceanos
No caso desta fêmea, a área de alimentação ainda é desconhecida. Estudos de telemetria citados pelo Tamar indicam que fêmeas que se reproduzem no Espírito Santo costumam migrar após a temporada, mas os destinos exatos variam e dependem de múltiplos fatores ambientais.
Sobre o tamanho da população global, o próprio Alexsandro Santos resume como a “pergunta de um milhão de dólares”. Há indicativos de recuperação populacional, com a espécie deixando a categoria ameaçada e passando a vulnerável, mas estimativas precisas seguem imprecisas. O caso capixaba, no entanto, dá um sinal de esperança baseado em dados de longo prazo.
Deixe sua opinião A proteção das praias de desova deve ser ampliada mesmo que restrinja atividades noturnas e iluminação nas orlas Ou o turismo e a pesca podem conviver sem novas regras Conte nos comentários se você acha que medidas como uso de luz vermelha e monitoramento intensivo são suficientes ou se é hora de apertar mais a fiscalização
