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Maioria das pessoas acredita em ao menos um dos 6 mitos de saúde mais comuns, revela pesquisa global com 16 mil pessoas em 16 países; confiança em médicos despenca, uso de IA explode e especialistas alertam para avanço perigoso da desinformação na saúde

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 13/05/2026 às 18:11
Atualizado em 13/05/2026 às 18:18
Pesquisa global revela avanço da desinformação em saúde, queda na confiança em médicos e crescimento do uso de IA.
Pesquisa global revela avanço da desinformação em saúde, queda na confiança em médicos e crescimento do uso de IA.
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Desinformação em saúde avança entre diferentes grupos sociais, amplia a desconfiança em médicos e acelera o uso de inteligência artificial para decisões médicas, segundo levantamento global que aponta dificuldades crescentes para identificar fontes confiáveis em meio ao excesso de informações e à erosão da confiança pública.

Sete em cada dez pessoas no mundo acreditam que ao menos uma entre seis afirmações falsas ou contestadas sobre saúde é verdadeira, segundo o Relatório Especial 2026 Edelman Trust Barometer sobre Confiança e Saúde, levantamento baseado em entrevistas com mais de 16 mil pessoas distribuídas em 16 países.

Ao contrário da percepção consolidada nos últimos anos, os dados indicam que a desinformação médica não circula apenas entre grupos radicalizados, pouco escolarizados ou excessivamente conectados às redes sociais, mas alcança praticamente todas as camadas da população.

Richard Edelman, CEO da empresa responsável pela pesquisa, afirmou à Fortune que o estudo desmonta a ideia de que apenas pessoas mais desconfiadas da ciência tradicional questionam consensos médicos amplamente aceitos.

“É um conjunto de dados bastante impressionante”, afirmou Edelman.

Na avaliação dele, havia uma expectativa de que os maiores níveis de ceticismo estivessem concentrados em nichos específicos da sociedade. “E não é verdade. É todo mundo”, disse.

Desinformação em saúde ultrapassa barreiras sociais e políticas

Os números reunidos pela pesquisa mostram que 69% dos entrevistados com diploma universitário acreditam em pelo menos uma dessas afirmações, percentual praticamente idêntico aos 70% registrados entre pessoas sem formação superior.

Quando os dados são cruzados com posicionamento ideológico, as diferenças também aparecem de forma menos acentuada do que o esperado pelos pesquisadores.

Entre os entrevistados identificados com a direita, 78% disseram acreditar em ao menos uma das alegações contestadas, enquanto o índice chegou a 64% entre pessoas alinhadas à esquerda.

O relatório destaca ainda que o padrão se repete em diferentes faixas etárias e regiões do mundo, com índices mais elevados em países em desenvolvimento do que em economias consideradas mais ricas.

Apesar da percepção recorrente de que os Estados Unidos seriam o principal epicentro da desinformação em saúde, o país não aparece entre os mais críticos do levantamento.

Excesso de informação aumenta a dificuldade de confiar em fontes

Para especialistas ligados ao Edelman Trust Institute, a crise atual não está associada apenas à ausência de informação confiável, mas principalmente ao excesso de conteúdos disponíveis em plataformas digitais e redes sociais.

Em meio a mensagens contraditórias e à dificuldade de distinguir fontes confiáveis de conteúdos enganosos, a confiança das pessoas na própria capacidade de tomar decisões informadas sobre saúde caiu 10 pontos percentuais em apenas um ano, chegando a 51%.

Enquanto isso, a credibilidade da mídia para tratar temas de saúde segue abaixo dos níveis registrados antes da pandemia de covid-19, cenário que reforça a sensação de insegurança diante do volume crescente de informações.

“As pessoas estão sobrecarregadas de informação, e não tenho certeza se conseguem diferenciar uma fonte da outra”, afirmou Edelman.

Segundo Jennifer Hauser, Global Health Chair da Edelman, a quantidade excessiva de dados disponíveis pode acabar dificultando decisões médicas que antes pareciam mais simples para grande parte da população.

Inteligência artificial ganha espaço nas decisões médicas

Diante desse ambiente de incerteza e excesso de estímulos informativos, a inteligência artificial passou a ocupar espaço cada vez maior na rotina de pessoas que procuram respostas rápidas para dúvidas relacionadas à própria saúde.

O relatório aponta que 35% dos entrevistados já usam alguma ferramenta de IA para gerenciar a própria saúde, seja para esclarecer sintomas, obter informações imediatas ou buscar uma segunda opinião sobre diagnósticos recebidos.

Entre aqueles que já utilizam recursos de inteligência artificial para temas médicos, 84% disseram recorrer à tecnologia para receber respostas rápidas, enquanto 74% afirmaram utilizá-la como apoio complementar diante de diagnósticos clínicos.

Especialistas demonstram preocupação porque parte dos entrevistados atribui à IA funções tradicionalmente associadas à formação médica e à avaliação profissional qualificada.

Segundo a pesquisa, 64% acreditam que uma pessoa fluente em inteligência artificial poderia realizar ao menos uma tarefa médica tão bem quanto, ou melhor do que, um médico treinado.

Nesse grupo, 21% citaram a definição de tratamentos e medicações, enquanto 17% mencionaram diagnósticos de doenças.

Relação entre pacientes e médicos enfrenta desgaste

Mesmo com o avanço acelerado da inteligência artificial, médicos pessoais continuam sendo apontados como as fontes mais confiáveis de informação em saúde nos 16 mercados analisados pelo levantamento global.

Ainda assim, o relatório identifica sinais claros de desgaste na relação entre pacientes e profissionais, especialmente quando pessoas relatam sentir que suas dúvidas são recebidas com julgamento ou pouca abertura ao diálogo.

Jennifer Hauser afirmou que parte dos entrevistados enxerga a IA como uma alternativa menos crítica e, em alguns casos, mais acolhedora durante a busca por orientações médicas.

“A IA pode ser menos julgadora do que médicos”, disse.

Na avaliação dela, muitos pacientes não esperam encontrar figuras de autoridade absolutas nos consultórios, mas profissionais capazes de orientar decisões complexas de maneira acessível e transparente.

Nos Estados Unidos, essa perda de confiança aparece também em outros levantamentos recentes.

Estudo publicado na JAMA Network Open mostrou que a confiança em médicos e hospitais caiu de 71,5% em abril de 2020 para 40,1% em janeiro de 2024.

Custos e dificuldade de acesso aceleram mudança de comportamento

Além da crise de confiança, especialistas associam a mudança de comportamento da população às dificuldades crescentes de acesso ao atendimento médico e aos custos elevados dos sistemas de saúde.

Dados divulgados pela West Health em parceria com a Gallup apontaram, em 2025, que 35% dos adultos nos Estados Unidos disseram não conseguir acessar cuidados de saúde de qualidade e financeiramente acessíveis caso precisassem naquele momento.

Segundo os pesquisadores, o impacto é ainda mais forte entre adultos negros, hispânicos e pessoas de baixa renda, grupos que relatam maior vulnerabilidade diante do aumento das despesas médicas.

Nesse contexto, cresce a procura por respostas fora do sistema tradicional de saúde, incluindo pesquisas em redes sociais, conteúdos produzidos por influenciadores e ferramentas automatizadas baseadas em inteligência artificial.

Levantamento da KFF divulgado em janeiro de 2026 mostrou que 66% dos adultos americanos estavam preocupados com a capacidade de pagar despesas médicas para si e suas famílias.

Já em abril, uma nova rodada da pesquisa registrou índice de 64%, mantendo os gastos com saúde entre as principais preocupações financeiras dos domicílios.

Especialistas defendem nova forma de comunicação científica

Na avaliação de pesquisadores ligados à Edelman, o combate à desinformação em saúde não pode partir da premissa de que apenas determinados grupos sociais estariam mais suscetíveis a conteúdos falsos ou enganosos.

Justin Blake, diretor executivo do Edelman Trust Institute, afirmou que a principal contribuição do levantamento está justamente em demonstrar que o público afetado por crenças divisivas é muito mais amplo do que se imaginava anteriormente.

A leitura dos dados indica que campanhas baseadas apenas em correções factuais tendem a ser insuficientes quando fatores como medo, ressentimento, isolamento social e sensação de abandono institucional passam a influenciar decisões individuais.

Dave Bersoff, chefe de pesquisa do instituto, relacionou esse processo a uma erosão gradual do tecido social e ao aumento da desconfiança entre grupos com visões diferentes sobre temas públicos.

Richard Edelman também defendeu mudanças na forma como a ciência se comunica com a população, argumentando que respostas técnicas isoladas já não conseguem produzir o mesmo efeito de confiança observado em anos anteriores.

“Por anos, a ciência foi sobre o ‘o quê’”, afirmou. “Na próxima fase, cientistas terão que falar sobre o ‘por quê’ e o ‘como’.”

Segundo especialistas ouvidos no relatório, reconstruir vínculos de confiança exige reconhecer dúvidas legítimas, ampliar a clareza das orientações médicas e evitar que informações falsas continuem interferindo em decisões capazes de afetar diretamente a saúde pública.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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