Em Lagos, a retirada de areia de lagoas e áreas costeiras sustenta obras, aterros e novos empreendimentos, enquanto pesquisadores e comunidades pesqueiras relatam mudanças no ambiente aquático e na rotina de trabalho.
Lagos, maior cidade da Nigéria, retira areia de lagoas, rios e áreas costeiras para abastecer obras de infraestrutura, aterros e empreendimentos imobiliários em uma das metrópoles que mais crescem na África.
A atividade movimenta parte da construção civil local, mas pescadores, pesquisadores e organizações ambientais afirmam que a dragagem altera o fundo da Lagoa de Lagos, aumenta a turbidez da água e reduz áreas usadas por peixes para reprodução e alimentação.
Em trechos próximos a Makoko, comunidade pesqueira construída sobre palafitas, homens entram na água turva para retirar areia manualmente.
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Em outras áreas, dragas mecanizadas sugam sedimentos em escala maior.
Segundo moradores ouvidos pela Associated Press, a mudança na paisagem já afeta rotas de barcos, pontos de pesca e áreas antes ocupadas por lâminas contínuas de água.
A dragagem transforma uma matéria-prima comum em elemento central da expansão urbana.
A areia retirada da lagoa e de áreas costeiras é usada na produção de concreto, na construção de estradas e no aterramento de margens.
Para construtores citados pela AP, a chamada sharp sand, mais grossa e áspera, é valorizada por sua aplicação em obras.
Areia retirada da Lagoa de Lagos abastece obras e aterros
O crescimento de Lagos elevou a demanda por areia nos últimos anos.
De acordo com analistas da indústria citados pela Associated Press, a cidade consome dezenas de milhões de metros cúbicos do material por ano, volume comparado pela reportagem a cerca de 16 mil piscinas olímpicas.
No mercado local, dragadores e comerciantes afirmam que os preços acompanham a procura.
Uma carga padrão de 30 toneladas de sharp sand era vendida por cerca de 290 mil nairas, aproximadamente US$ 202, segundo valores relatados à AP.
A extração também se tornou fonte de renda para trabalhadores informais.
Akeem Sossu, de 34 anos, disse que mergulha há pelo menos três anos para retirar areia da Lagoa de Lagos.
A cada descida, permanece cerca de 15 segundos sob a água e volta com baldes cheios de sedimentos destinados a canteiros de obras.
Antes de atuar na dragagem, Sossu trabalhava como alfaiate.
Ele relatou que ele e um parceiro recebem cerca de 12 mil nairas, o equivalente a US$ 8, por barco carregado.
Encher uma embarcação leva em torno de três horas, conforme o relato publicado pela AP.
“Eu saio cedo, às vezes às 5h ou 6h, dependendo da maré”, afirmou Sossu.
A frase resume a rotina de trabalhadores que dependem da maré, da demanda por construção e da fiscalização em uma atividade que combina necessidade econômica e impacto ambiental.
Dragagem muda fundo da lagoa e afeta habitats aquáticos
Para pesquisadores, a retirada de areia não afeta apenas a paisagem visível.
A dragagem remove sedimentos, suspende partículas finas e pode deixar a água mais barrenta, condição que dificulta processos como alimentação, deslocamento e reprodução de espécies aquáticas.
Estudo realizado no eixo Addo-Badore, em Ajah, no Estado de Lagos, analisou impactos da mineração de areia sobre solo e água.
A pesquisa registrou degradação ambiental e contaminação de águas subterrâneas em pontos avaliados, em uma região onde depósitos de areia atraíram atividades de mineração ao longo da margem.
A Associated Press também citou estudos revisados por pares conduzidos por pesquisadores nigerianos no corredor Ajah–Addo-Badore.
Segundo a reportagem, as análises identificaram turbidez acima de padrões nacionais, instabilidade no leito sob áreas dragadas e maior estabilidade em locais onde a dragagem estava ausente.
Em Makoko, pescadores relatam efeitos percebidos no cotidiano.
Alguns afirmam que os peixes voltam temporariamente quando a dragagem pausa, mas se afastam quando as máquinas retomam a operação.
A avaliação é local, mas coincide com estudos que associam turbidez e perturbação do leito a alterações nos habitats aquáticos.
“Nós não temos poder”, disse Baale Semede Emmanuel, líder comunitário de Makoko. “Os dragadores estragaram toda a água.”
Segundo Emmanuel, áreas rasas usadas por peixes em etapas iniciais do ciclo de vida foram alteradas.
Ele também afirmou que o ruído das máquinas afasta cardumes e que, em alguns casos, peixes são sugados por equipamentos de dragagem.
“Onde há dragagem, não há peixe”, afirmou. “O barulho os afasta. Os lugares onde eles costumavam se reproduzir desapareceram.”

Pescadores de Makoko relatam queda nas capturas
Com a queda nas capturas perto das comunidades, pescadores relatam a necessidade de navegar por distâncias maiores.
Isso aumenta gastos com combustível e expõe embarcações menores a condições mais difíceis no mar, segundo moradores ouvidos pela AP.
Joshua Monday, pescador em Lagos, disse que deixou seus dois barcos praticamente parados e passou a trabalhar como mecânico.
Ele havia aprendido a consertar motores de barco anos antes, como alternativa de renda.
“Se não fosse esse trabalho de mecânico, eu não sei como sobreviveria”, afirmou Monday.
De acordo com o pescador, uma única viagem pode consumir mais de 150 mil nairas, cerca de US$ 104, em combustível, sem garantia de captura suficiente.
“Às vezes você vai ao mar e volta sem nada. Todo o combustível se foi”, disse.
A perda de renda afeta uma cadeia que não se limita aos donos de barco.
Reportagens sobre comunidades costeiras de Lagos apontam que comerciantes de pescado e famílias que dependem da pesca artesanal também relatam redução de ganhos quando as capturas diminuem.
Em Makoko e em outras áreas ribeirinhas, moradores afirmam que a expansão de aterros e empreendimentos imobiliários pressiona comunidades tradicionais.
Monday disse que desenvolvedores e grupos com maior poder econômico têm ocupado áreas próximas à água, enquanto pescadores são obrigados a deixar seus pontos de trabalho.
“Homens grandes estão nos pressionando”, afirmou Monday. “Quando eles vêm, você não tem opção. Pega suas coisas e vai embora.”
O pescador passou a viver em Sagbo-Koji, outra comunidade costeira sob pressão.
Dragagem informal vira fonte de renda em Lagos
Entre trabalhadores da dragagem, a atividade é descrita como uma oportunidade de renda em uma cidade com poucas alternativas formais para parte da população.
Joshua Alex, operador de dragagem, afirmou à AP que depende do trabalho para se sustentar.
“Sou pai de uma criança”, disse Alex. “É assim que eu cuido de mim.”
O operador também relatou pagamentos a agentes de fiscalização para manter a atividade em funcionamento.
“A Polícia Marítima vem, nós acertamos com eles. A NIWA vem, nós acertamos com eles”, afirmou, em referência à Autoridade Nacional de Vias Navegáveis Interiores da Nigéria.
Para defensores ambientais ouvidos pela AP, esse tipo de arranjo dificulta a distinção entre operações autorizadas e ilegais.
Segundo esses grupos, atividades interrompidas podem voltar a funcionar pouco depois de ações de fiscalização, o que reduz a efetividade do controle público.
Governo de Lagos afirma combater dragagem ilegal
Autoridades do Estado de Lagos afirmam que combatem a dragagem ilegal.
Em fevereiro de 2025, o governo estadual anunciou uma operação do Ministério de Desenvolvimento de Infraestrutura de Waterfront contra dragadores sem autorização, com paralisação de atividades irregulares.
A AP informou que autoridades, incluindo o governador Babajide Sanwo-Olu, prometeram reforçar ações contra operações ilegais associadas a enchentes, erosão e degradação ambiental.
A reportagem também registrou que o Ministério de Desenvolvimento de Infraestrutura de Waterfront não respondeu aos questionamentos enviados.
Moradores, por outro lado, afirmam que a fiscalização é irregular.
Emmanuel, líder comunitário de Makoko, disse que pagamentos permitem a retomada das atividades depois de interrupções.
A declaração é uma acusação atribuída ao líder local e não uma constatação independente.
“Quando o governo interrompe as atividades de dragagem hoje, eles recebem pagamento e depois pedem que retomem as atividades”, afirmou Emmanuel.
Ele também acusou autoridades de priorizar receita e projetos privados em áreas da orla.
Lagoas e áreas rasas ajudam a reduzir impactos de enchentes
Lagos está localizada em uma região costeira baixa, com áreas urbanas próximas a lagoas, canais e margens sujeitas a alagamentos.
Segundo cientistas citados pela AP, zonas úmidas e trechos rasos de lagoa funcionam como amortecedores naturais, porque ajudam a absorver parte da água em períodos de chuva e maré elevada.
Quando esses ambientes são removidos, aterrados ou desestabilizados, pesquisadores afirmam que a cidade pode ficar mais exposta a riscos de inundação.
A avaliação aparece em estudos e relatórios sobre dragagem, erosão e perda de habitats em áreas costeiras de Lagos.
O Guardian citou levantamento atribuído ao Instituto Nigeriano de Oceanografia e Pesquisa Marinha segundo o qual a dragagem e a mineração não reguladas erodiram o leito em quase seis metros entre Banana Island e a Third Mainland Bridge, em um trecho de aproximadamente cinco quilômetros do canal principal da lagoa.
Especialistas ouvidos pelo jornal britânico também associaram a retirada de areia em larga escala à perda de habitats, à maior turbidez e à pressão sobre pescarias artesanais.
Nnimmo Bassey, diretor da organização Health of Mother Earth Foundation, afirmou que a dragagem sem avaliação ambiental adequada pode eliminar espécies e prejudicar comunidades dependentes da pesca.
Mineração de areia expõe disputa entre construção e pesca
A areia é um dos materiais mais usados pela construção civil, mas sua retirada em grande volume pode reorganizar ambientes inteiros.
No caso de Lagos, pesquisadores e moradores relacionam a extração a mudanças no leito da lagoa, na circulação da água e na disponibilidade de peixes.
Ao transformar sedimentos em prédios, estradas e aterros, a cidade também desloca parte do custo ambiental para comunidades que vivem na água ou perto dela.
Essa avaliação é sustentada por relatos de pescadores, por estudos sobre turbidez e por alertas de organizações ambientais que monitoram a região.
A disputa envolve interesses diferentes.
Para trabalhadores informais, retirar areia pode ser a principal fonte de sustento.
Para construtoras, o material atende à expansão urbana.
Para pescadores, a mesma atividade altera áreas de trabalho e aumenta o custo de permanecer na profissão.
O caso de Lagos mostra como uma metrópole pode depender de recursos retirados dos próprios ecossistemas que ajudam a protegê-la.

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