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Maior cidade da Nigéria está arrancando areia de lagoas e do litoral para erguer prédios e criar terra nova, enquanto peixes desaparecem e comunidades de pescadores veem a água virar canteiro de obras

Escrito por Ana Alice
Publicado em 15/05/2026 às 23:43
Entenda como a retirada de areia em Lagos impulsiona obras, ameaça lagoas e equilíbrio ambiental da maior cidade nigeriana. (Imagem: Ilustrativa)
Entenda como a retirada de areia em Lagos impulsiona obras, ameaça lagoas e equilíbrio ambiental da maior cidade nigeriana. (Imagem: Ilustrativa)
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Em Lagos, a retirada de areia de lagoas e áreas costeiras sustenta obras, aterros e novos empreendimentos, enquanto pesquisadores e comunidades pesqueiras relatam mudanças no ambiente aquático e na rotina de trabalho.

Lagos, maior cidade da Nigéria, retira areia de lagoas, rios e áreas costeiras para abastecer obras de infraestrutura, aterros e empreendimentos imobiliários em uma das metrópoles que mais crescem na África.

A atividade movimenta parte da construção civil local, mas pescadores, pesquisadores e organizações ambientais afirmam que a dragagem altera o fundo da Lagoa de Lagos, aumenta a turbidez da água e reduz áreas usadas por peixes para reprodução e alimentação.

Em trechos próximos a Makoko, comunidade pesqueira construída sobre palafitas, homens entram na água turva para retirar areia manualmente.

Em outras áreas, dragas mecanizadas sugam sedimentos em escala maior.

Segundo moradores ouvidos pela Associated Press, a mudança na paisagem já afeta rotas de barcos, pontos de pesca e áreas antes ocupadas por lâminas contínuas de água.

A dragagem transforma uma matéria-prima comum em elemento central da expansão urbana.

A areia retirada da lagoa e de áreas costeiras é usada na produção de concreto, na construção de estradas e no aterramento de margens.

Para construtores citados pela AP, a chamada sharp sand, mais grossa e áspera, é valorizada por sua aplicação em obras.

Areia retirada da Lagoa de Lagos abastece obras e aterros

O crescimento de Lagos elevou a demanda por areia nos últimos anos.

De acordo com analistas da indústria citados pela Associated Press, a cidade consome dezenas de milhões de metros cúbicos do material por ano, volume comparado pela reportagem a cerca de 16 mil piscinas olímpicas.

No mercado local, dragadores e comerciantes afirmam que os preços acompanham a procura.

Uma carga padrão de 30 toneladas de sharp sand era vendida por cerca de 290 mil nairas, aproximadamente US$ 202, segundo valores relatados à AP.

A extração também se tornou fonte de renda para trabalhadores informais.

Akeem Sossu, de 34 anos, disse que mergulha há pelo menos três anos para retirar areia da Lagoa de Lagos.

A cada descida, permanece cerca de 15 segundos sob a água e volta com baldes cheios de sedimentos destinados a canteiros de obras.

Antes de atuar na dragagem, Sossu trabalhava como alfaiate.

Ele relatou que ele e um parceiro recebem cerca de 12 mil nairas, o equivalente a US$ 8, por barco carregado.

Encher uma embarcação leva em torno de três horas, conforme o relato publicado pela AP.

“Eu saio cedo, às vezes às 5h ou 6h, dependendo da maré”, afirmou Sossu.

A frase resume a rotina de trabalhadores que dependem da maré, da demanda por construção e da fiscalização em uma atividade que combina necessidade econômica e impacto ambiental.

Dragagem muda fundo da lagoa e afeta habitats aquáticos

Para pesquisadores, a retirada de areia não afeta apenas a paisagem visível.

A dragagem remove sedimentos, suspende partículas finas e pode deixar a água mais barrenta, condição que dificulta processos como alimentação, deslocamento e reprodução de espécies aquáticas.

Estudo realizado no eixo Addo-Badore, em Ajah, no Estado de Lagos, analisou impactos da mineração de areia sobre solo e água.

A pesquisa registrou degradação ambiental e contaminação de águas subterrâneas em pontos avaliados, em uma região onde depósitos de areia atraíram atividades de mineração ao longo da margem.

A Associated Press também citou estudos revisados por pares conduzidos por pesquisadores nigerianos no corredor Ajah–Addo-Badore.

Segundo a reportagem, as análises identificaram turbidez acima de padrões nacionais, instabilidade no leito sob áreas dragadas e maior estabilidade em locais onde a dragagem estava ausente.

Em Makoko, pescadores relatam efeitos percebidos no cotidiano.

Alguns afirmam que os peixes voltam temporariamente quando a dragagem pausa, mas se afastam quando as máquinas retomam a operação.

A avaliação é local, mas coincide com estudos que associam turbidez e perturbação do leito a alterações nos habitats aquáticos.

“Nós não temos poder”, disse Baale Semede Emmanuel, líder comunitário de Makoko. “Os dragadores estragaram toda a água.”

Segundo Emmanuel, áreas rasas usadas por peixes em etapas iniciais do ciclo de vida foram alteradas.

Ele também afirmou que o ruído das máquinas afasta cardumes e que, em alguns casos, peixes são sugados por equipamentos de dragagem.

“Onde há dragagem, não há peixe”, afirmou. “O barulho os afasta. Os lugares onde eles costumavam se reproduzir desapareceram.”

Imagem: Reprodução/AP Photo/Grace Ekpu
Imagem: Reprodução/AP Photo/Grace Ekpu

Pescadores de Makoko relatam queda nas capturas

Com a queda nas capturas perto das comunidades, pescadores relatam a necessidade de navegar por distâncias maiores.

Isso aumenta gastos com combustível e expõe embarcações menores a condições mais difíceis no mar, segundo moradores ouvidos pela AP.

Joshua Monday, pescador em Lagos, disse que deixou seus dois barcos praticamente parados e passou a trabalhar como mecânico.

Ele havia aprendido a consertar motores de barco anos antes, como alternativa de renda.

“Se não fosse esse trabalho de mecânico, eu não sei como sobreviveria”, afirmou Monday.

De acordo com o pescador, uma única viagem pode consumir mais de 150 mil nairas, cerca de US$ 104, em combustível, sem garantia de captura suficiente.

“Às vezes você vai ao mar e volta sem nada. Todo o combustível se foi”, disse.

A perda de renda afeta uma cadeia que não se limita aos donos de barco.

Reportagens sobre comunidades costeiras de Lagos apontam que comerciantes de pescado e famílias que dependem da pesca artesanal também relatam redução de ganhos quando as capturas diminuem.

Em Makoko e em outras áreas ribeirinhas, moradores afirmam que a expansão de aterros e empreendimentos imobiliários pressiona comunidades tradicionais.

Monday disse que desenvolvedores e grupos com maior poder econômico têm ocupado áreas próximas à água, enquanto pescadores são obrigados a deixar seus pontos de trabalho.

“Homens grandes estão nos pressionando”, afirmou Monday. “Quando eles vêm, você não tem opção. Pega suas coisas e vai embora.”

O pescador passou a viver em Sagbo-Koji, outra comunidade costeira sob pressão.

Dragagem informal vira fonte de renda em Lagos

Entre trabalhadores da dragagem, a atividade é descrita como uma oportunidade de renda em uma cidade com poucas alternativas formais para parte da população.

Joshua Alex, operador de dragagem, afirmou à AP que depende do trabalho para se sustentar.

“Sou pai de uma criança”, disse Alex. “É assim que eu cuido de mim.”

O operador também relatou pagamentos a agentes de fiscalização para manter a atividade em funcionamento.

“A Polícia Marítima vem, nós acertamos com eles. A NIWA vem, nós acertamos com eles”, afirmou, em referência à Autoridade Nacional de Vias Navegáveis Interiores da Nigéria.

Para defensores ambientais ouvidos pela AP, esse tipo de arranjo dificulta a distinção entre operações autorizadas e ilegais.

Segundo esses grupos, atividades interrompidas podem voltar a funcionar pouco depois de ações de fiscalização, o que reduz a efetividade do controle público.

Governo de Lagos afirma combater dragagem ilegal

Autoridades do Estado de Lagos afirmam que combatem a dragagem ilegal.

Em fevereiro de 2025, o governo estadual anunciou uma operação do Ministério de Desenvolvimento de Infraestrutura de Waterfront contra dragadores sem autorização, com paralisação de atividades irregulares.

A AP informou que autoridades, incluindo o governador Babajide Sanwo-Olu, prometeram reforçar ações contra operações ilegais associadas a enchentes, erosão e degradação ambiental.

A reportagem também registrou que o Ministério de Desenvolvimento de Infraestrutura de Waterfront não respondeu aos questionamentos enviados.

Moradores, por outro lado, afirmam que a fiscalização é irregular.

Emmanuel, líder comunitário de Makoko, disse que pagamentos permitem a retomada das atividades depois de interrupções.

A declaração é uma acusação atribuída ao líder local e não uma constatação independente.

“Quando o governo interrompe as atividades de dragagem hoje, eles recebem pagamento e depois pedem que retomem as atividades”, afirmou Emmanuel.

Ele também acusou autoridades de priorizar receita e projetos privados em áreas da orla.

Lagoas e áreas rasas ajudam a reduzir impactos de enchentes

Lagos está localizada em uma região costeira baixa, com áreas urbanas próximas a lagoas, canais e margens sujeitas a alagamentos.

Segundo cientistas citados pela AP, zonas úmidas e trechos rasos de lagoa funcionam como amortecedores naturais, porque ajudam a absorver parte da água em períodos de chuva e maré elevada.

Quando esses ambientes são removidos, aterrados ou desestabilizados, pesquisadores afirmam que a cidade pode ficar mais exposta a riscos de inundação.

A avaliação aparece em estudos e relatórios sobre dragagem, erosão e perda de habitats em áreas costeiras de Lagos.

O Guardian citou levantamento atribuído ao Instituto Nigeriano de Oceanografia e Pesquisa Marinha segundo o qual a dragagem e a mineração não reguladas erodiram o leito em quase seis metros entre Banana Island e a Third Mainland Bridge, em um trecho de aproximadamente cinco quilômetros do canal principal da lagoa.

Especialistas ouvidos pelo jornal britânico também associaram a retirada de areia em larga escala à perda de habitats, à maior turbidez e à pressão sobre pescarias artesanais.

Nnimmo Bassey, diretor da organização Health of Mother Earth Foundation, afirmou que a dragagem sem avaliação ambiental adequada pode eliminar espécies e prejudicar comunidades dependentes da pesca.

Mineração de areia expõe disputa entre construção e pesca

A areia é um dos materiais mais usados pela construção civil, mas sua retirada em grande volume pode reorganizar ambientes inteiros.

No caso de Lagos, pesquisadores e moradores relacionam a extração a mudanças no leito da lagoa, na circulação da água e na disponibilidade de peixes.

Ao transformar sedimentos em prédios, estradas e aterros, a cidade também desloca parte do custo ambiental para comunidades que vivem na água ou perto dela.

Essa avaliação é sustentada por relatos de pescadores, por estudos sobre turbidez e por alertas de organizações ambientais que monitoram a região.

A disputa envolve interesses diferentes.

Para trabalhadores informais, retirar areia pode ser a principal fonte de sustento.

Para construtoras, o material atende à expansão urbana.

Para pescadores, a mesma atividade altera áreas de trabalho e aumenta o custo de permanecer na profissão.

O caso de Lagos mostra como uma metrópole pode depender de recursos retirados dos próprios ecossistemas que ajudam a protegê-la.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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