O triângulo do lítio das Américas — Argentina, Chile e Bolívia — concentra mais de 56% das reservas mundiais conhecidas desse mineral que vai alimentar a revolução dos veículos elétricos, e enquanto Santiago e Buenos Aires correm para assinar contratos com montadoras asiáticas, europeias e americanas, o Brasil senta em cima da quinta maior reserva de lítio do planeta e ainda não industrializou nem uma única tonelada de carbonato de lítio em escala comercial competitiva.
O que está acontecendo no triângulo enquanto o Brasil observa

O Salar de Atacama, no Chile, é a mina de lítio mais produtiva do mundo. O Salar de Hombre Muerto, na Argentina, está em expansão acelerada depois que a Rio Tinto comprou a operação da Rincon Lithium por 800 milhões de dólares. O Salar de Uyuni, na Bolívia, ainda subutilizado por política pública boliviana que restringe participação estrangeira, começa a abrir para joint ventures. Os três juntos podem suprir mais de dois terços da demanda global de lítio prevista para 2030.
A Argentina foi particularmente agressiva. O governo de Milei desregulamentou o setor de mineração em 2024, simplificou a aprovação de licenças ambientais e criou um regime fiscal especial para projetos de extração de lítio. Em 2025, a Argentina aprovou mais projetos de lítio novos do que nos vinte anos anteriores somados. Empresas como Posco, Ganfeng, Eramet e Albemarle estão construindo ou planejando plantas de extração no norte do país.
O Chile, por outro lado, adotou uma abordagem de maior controle estatal: a Codelco estatal vai operar a exploração do Salar de Atacama em parceria com privados, mantendo soberania sobre o recurso. É o modelo “nação dona do lítio” — diferente da Argentina, que abriu mais para o capital privado estrangeiro.
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O que o Brasil tem — e o que ainda não faz com isso
As reservas de lítio do Brasil estão principalmente em Minas Gerais, em pegmatitos — rochas de granito ricas em minerais de lítio como espodumênio, lepidolita e petalita. O município de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, tem uma das maiores concentrações de lítio em rocha dura do mundo.
A Sigma Lithium — empresa canadense com operações em Grota do Cirilo, Araçuaí — é o único produtor de lítio em escala semi-industrial do Brasil hoje. Produz concentrado de espodumênio, que precisa ser processado em outro país para virar carbonato ou hidróxido de lítio — os produtos que as baterias realmente precisam. O Brasil não tem nenhuma refinaria de lítio operacional em escala industrial. Exporta minério, importa o produto processado.
A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração — CBMM — que domina o mercado global de nióbio com mais de 80% de participação é o modelo do que o Brasil poderia fazer com o lítio: refinar dentro do país, vender produto de alto valor, capturar mais da cadeia de valor. Mas o nióbio levou décadas para chegar lá.
Por que o lítio de rocha é diferente do lítio de salmoura

O lítio argentino e chileno vem de salmoura — água subterrânea supersaturada em lítio, bombeada de salares e evaporada ao sol. É um processo mais barato mas dependente de clima específico (sol intenso, altitude, pouquíssima chuva) e gera controvérsia sobre uso de água em regiões áridas. O lítio brasileiro vem de rocha dura — espodumênio que precisa ser minerado, britado, flotado e calcinado antes de virar produto.
O processo de rocha é mais caro por tonelada mas tem algumas vantagens: mais previsível, independente do clima, impacto hídrico menor, e o produto final — hidróxido de lítio de alta pureza — é o preferido pelas baterias NMC de alta performance, como as usadas em veículos premium. Para o mercado de estado sólido que a Basquevolt e a Toyota estão desenvolvendo, hidróxido de lítio de alta pureza vai ser essencial.
O que o Brasil precisa fazer e ainda não fez
A corrida pelo lítio não vai esperar. As capacidades de processamento que forem construídas agora, nos próximos cinco anos, vão determinar quem captura valor por décadas. O Brasil precisa de refinarias de lítio instaladas no território nacional — seja com capital estatal, privado nacional ou investimento estrangeiro direto.
A boa notícia é que o interesse existe: a CATL, maior fabricante de baterias do mundo, sinalizou interesse em instalar uma gigafactory no Brasil para abastecer o mercado de veículos elétricos brasileiro e exportar para a América Latina. Se isso acontecer com integração da cadeia nacional de lítio — e não apenas importando produto processado — é um salto de duas gerações na industrialização do setor.
A questão é se o Brasil vai negociar isso com inteligência estratégica ou vai deixar que a urgência do investidor estrangeiro dite os termos da negociação.
Leia também: a fábrica de baterias lítio-enxofre que não quer depender da China | os robôs que tomaram conta da mina mais funda do mundo.
Você acha que o Brasil vai conseguir industrializar o lítio a tempo de participar da corrida do EV, ou vai continuar exportando minério bruto enquanto Argentina e Chile entregam produto pronto? Comenta aqui.
