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Latifúndios privados e poder: por que a Escócia ainda vive sob o feudalismo

Escrito por Sara Aquino
Publicado em 13/01/2026 às 09:13
Concentração fundiária mantém latifúndios privados e reforça a desigualdade territorial na Escócia, herança do feudalismo.
Foto: IA
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Concentração fundiária mantém latifúndios privados e reforça a desigualdade territorial na Escócia, herança do feudalismo.

A Escócia carrega, no século XXI, uma herança territorial rara na Europa: a concentração fundiária extrema.

Hoje, apenas 421 proprietários controlam cerca de 50% das terras rurais privadas do país, segundo levantamentos oficiais e estudos históricos.

O fenômeno envolve grandes herdeiros, bilionários internacionais e fundos de investimento, ocorre principalmente nas Terras Altas, se mantém por séculos sem rupturas profundas e levanta um debate crescente sobre desigualdade territorial, democracia local e a eficácia da reforma agrária na Escócia

Uma concentração fundiária que atravessou séculos 

concentração fundiária escocesa não é um fenômeno recente. Pelo contrário, trata-se de um modelo que sobreviveu a transformações que remodelaram quase toda a Europa.

Enquanto países como França, Alemanha e nações nórdicas passaram por revoluções, guerras ou redistribuições agrárias, a Escócia manteve praticamente intacto seu mapa de propriedades. 

Esse cenário faz do país uma exceção continental. Estudos indicam que, já no final do século XIX, a terra estava concentrada em poucas mãos.

A chegada do Estado moderno, portanto, não alterou de forma significativa essa estrutura. 

Feudalismo escocês: raízes históricas profundas 

A origem dessa configuração está diretamente ligada ao feudalismo escocês.

Primeiro, o poder era exercido pelos clãs tribais, que controlavam vastas extensões territoriais.

Depois, a aristocracia rural consolidou essas áreas em grandes propriedades hereditárias. 

Diferentemente de outras regiões europeias, o direito à terra na Escócia permaneceu protegido ao longo do tempo.

Não houve um momento histórico de ruptura capaz de fragmentar essas propriedades de forma ampla. 

Por que a reforma agrária nunca avançou? 

A ausência de uma reforma agrária na Escócia profunda não foi fruto do acaso.

Ao contrário de países que enfrentaram guerras civis, revoluções sociais ou colapsos institucionais, o Reino Unido viveu um processo político mais gradual. 

Essa estabilidade preservou a propriedade privada como um pilar central do sistema econômico.

Como resultado, privilégios territoriais foram mantidos mesmo após o fim formal do feudalismo. 

Dos lordes tradicionais aos bilionários globais 

Se antes os donos da terra eram duques e famílias aristocráticas, hoje o perfil mudou, mas o poder permaneceu concentrado.

A Escócia tornou-se um destino estratégico para milionários internacionais em busca de grandes extensões de terra e segurança jurídica. 

Entre os exemplos mais citados está o empresário dinamarquês Anders Povlsen, controlador de marcas como Jack & Jones e investidor da Zalando, que se tornou um dos maiores proprietários de terras privadas do Reino Unido. 

Na mesma linha, a herdeira bilionária do império Lego vem adquirindo áreas extensas nas Terras Altas, segundo o The Times.

Já o xeque Mohammed bin Rashid al-Maktoum, emir de Dubai, possui ao menos oito propriedades na região. 

Latifúndios privados e poder sobre comunidades 

Os latifúndios privados continuam sendo um símbolo de poder.

Se na Idade Média a terra garantia produção agrícola, hoje ela define decisões sobre energia renovável, projetos imobiliários, preservação ambiental e uso do solo. 

Quem controla milhares de hectares influencia diretamente o futuro de vilarejos inteiros.

Um estudo da Comissão de Terras da Escócia alerta que essa concentração pode enfraquecer a democracia local e limitar o desenvolvimento rural. 

Desigualdade territorial e impactos sociais 

desigualdade territorial é um dos efeitos mais visíveis desse modelo.

Comunidades locais enfrentam dificuldades para adquirir terras, enquanto agricultores não conseguem competir com o poder financeiro de grandes investidores. 

Esse cenário impulsiona a gentrificação das Terras Altas, elevando preços e reduzindo oportunidades para moradores tradicionais permanecerem na região. 

Reformas avançam, mas em ritmo lento 

Nos últimos anos, o governo escocês tentou enfrentar o problema com novas leis.

Houve avanços na transparência da propriedade, facilitação de licitações públicas e debates sobre o uso do “interesse público” em grandes projetos. 

Ainda assim, analistas e a imprensa britânica avaliam que essas medidas são insuficientes. A concentração fundiária segue como regra, não como exceção. 

Reconcentração reforça o modelo histórico 

O paradoxo é que, mesmo com o debate político em curso, dados recentes indicam uma nova onda de reconcentração. Grandes compradores estão adquirindo áreas que já pertenciam a outros latifundiários. 

Segundo o ex-parlamentar Andy Wightman, a maioria das grandes transações termina nas mãos de quem já detinha grandes propriedades.

Altos preços, escassez de oferta e capital abundante sustentam esse ciclo. 

Um debate que ganha força 

A Escócia entra no debate global sobre desigualdade não apenas pelo dinheiro ou pela tecnologia, mas pela terra.

O desafio agora é saber se a reforma agrária na Escócia conseguirá, finalmente, romper um modelo que atravessou séculos quase sem mudanças. 

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Sara Aquino

Farmacêutica e Redatora. Escrevo sobre Empregos, Geopolítica, Economia, Ciência, Tecnologia e Energia.

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