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Kuwait sobrevive no deserto transformando água do mar em 90% do abastecimento do país por meio de 8 estações de dessalinização com capacidade de 3,11 milhões de m³ por dia, incluindo Az-Zour North, maior planta integrada que produz simultaneamente 2.700 MW de eletricidade e 545 milhões de litros de água

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 10/03/2026 às 21:22
Assista o vídeoKuwait sobrevive no deserto transformando água do mar em 90% do abastecimento do país por meio de 8 estações de dessalinização com capacidade de 3,11 milhões de m³ por dia, incluindo Az-Zour North, maior planta integrada que produz simultaneamente 2.700 MW de eletricidade e 545 milhões de litros de água
Kuwait sobrevive no deserto transformando água do mar em 90% do abastecimento do país por meio de 8 estações de dessalinização com capacidade de 3,11 milhões de m³ por dia, incluindo Az-Zour North, maior planta integrada que produz simultaneamente 2.700 MW de eletricidade e 545 milhões de litros de água
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Kuwait foi pioneiro na dessalinização ao instalar a primeira planta moderna de água potável do mundo no início da década de 1950 e hoje depende de oito usinas ao longo do Golfo para suprir quase 90% da demanda nacional, em um país sem rios, com chuva média de 110 mm por ano e forte pressão sobre a segurança hídrica.

O Kuwait é um dos exemplos mais extremos de escassez hídrica no planeta. Localizado em uma das áreas mais áridas do Oriente Médio, o país praticamente não conta com recursos naturais convencionais de água doce. Não há rios permanentes, não há córregos de água doce relevantes e a precipitação média anual gira em torno de apenas 110 milímetros. Em termos práticos, isso significa que a segurança hídrica do Kuwait nunca pôde depender da geografia natural, mas sim da engenharia, da energia e da capacidade do Estado de transformar água do mar em água potável.

Hoje, a disponibilidade de água per capita no Kuwait é estimada em apenas 5 metros cúbicos por ano, uma das menores do mundo. Ainda assim, o consumo per capita segue entre os mais altos do planeta, alcançando cerca de 500 litros por pessoa por dia, com crescimento médio anual de demanda em torno de 3,6%. O paradoxo kuwaitiano é justamente esse: um país com escassez hídrica extrema e, ao mesmo tempo, um dos padrões de consumo mais elevados da região. Quase 90% da demanda nacional de água é atendida por dessalinização, o que transforma essa infraestrutura em peça central da estabilidade econômica, sanitária e social do país.

História da dessalinização no Kuwait começou no início da década de 1950 e colocou o país na vanguarda global

A história moderna da água no Kuwait mudou no início da década de 1950. O país é amplamente reconhecido como o primeiro do mundo a instalar uma planta de dessalinização voltada à produção de água potável em escala moderna. As referências históricas variam entre 1951, 1952 e 1953 para a entrada em operação inicial em Shuwaikh, mas o consenso é que foi nesse intervalo que o Kuwait inaugurou a infraestrutura que abriria um novo capítulo na história da engenharia hídrica mundial.

A primeira instalação em Shuwaikh, próxima ao porto, utilizava um sistema de tubos submersos e marcou a transição de uma economia hídrica baseada em chuva, poços e importação para uma lógica industrial de produção contínua de água potável.

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Antes da dessalinização, a vida no Kuwait dependia de fontes extremamente limitadas. Em períodos anteriores, a população recorria à água da chuva, a poços subterrâneos e, em momentos críticos, à água trazida por navios dhow a partir do Shatt al-Arab, no Iraque.

Quando a precipitação caiu fortemente em 1907, o transporte marítimo de água tornou-se ainda mais importante. Todos os dias, dezenas de grandes dhows cruzavam a região carregando água doce para abastecer uma sociedade instalada em pleno deserto.

Em 1939, o Kuwait criou sua primeira empresa formal de transporte de água para tentar responder ao aumento da demanda. Pouco depois, o governo passou a comprar poços privados, centralizando o controle sobre o abastecimento.

A dessalinização, nesse contexto, não surgiu como luxo tecnológico, mas como resposta de emergência de um país que precisava literalmente fabricar sua própria sobrevivência. O Kuwait foi o primeiro país do mundo a transformar dessalinização em política de Estado para produzir água potável.

Planta de Shuwaikh e tecnologia MSF colocaram o Kuwait na liderança da dessalinização moderna

A usina pioneira de Shuwaikh acabou sendo substituída e ampliada no início da década de 1960 por um sistema baseado em Multi-Stage Flash Distillation, a famosa tecnologia MSF, que se tornaria a espinha dorsal da dessalinização no Golfo por décadas.

A estação Al-Shuwaikh é frequentemente descrita como a primeira planta comercial MSF do mundo, marco técnico que colocou o Kuwait no centro do desenvolvimento dessa tecnologia.

A lógica do sistema MSF era revolucionária para a época. A água do mar era aquecida e submetida a sucessivos estágios de evaporação e condensação, permitindo separar o sal e produzir água potável em escala crescente.

O Kuwait rapidamente acumulou experiência operacional e passou a ampliar a capacidade de suas unidades. Em 1958, novas unidades já haviam sido adicionadas, e a tecnologia evoluiu com controles mais precisos de temperatura e estabilidade operacional. Naquele momento, o país não apenas buscava água; ele ajudava a construir o padrão industrial da dessalinização moderna.

Essa liderança teve importância regional e global. Enquanto outras nações ainda tratavam a dessalinização como tecnologia experimental ou de nicho, o Kuwait já a colocava no centro de sua estratégia de abastecimento. Ao longo das décadas de 1950 e 1960, o país consolidou-se como laboratório real de expansão da dessalinização em larga escala.

Oito plantas de dessalinização no Kuwait hoje sustentam um sistema nacional integrado de água e energia

Atualmente, o Kuwait opera oito plantas de dessalinização ao longo da costa, com capacidade total instalada na faixa de 3,11 milhões de metros cúbicos por dia.

A capacidade efetiva de dessalinização aparece em diferentes levantamentos com recortes específicos, mas gira em torno de 1,65 milhão de metros cúbicos por dia, dos quais cerca de 1,47 milhão provêm de tecnologia MSF e aproximadamente 0,17 milhão de osmose reversa.

O modelo kuwaitiano baseou-se historicamente na cogeração. Em vez de construir usinas de água totalmente isoladas, o país integrou plantas de dessalinização às estações de geração de energia. Assim, óleo ou gás são usados para produzir eletricidade, e o calor residual do processo é aproveitado para dessalinizar água do mar. Esse desenho reduziu custos relativos e permitiu escalar rapidamente a produção em um país que precisava, ao mesmo tempo, de energia elétrica e água potável.

A água produzida segue para reservatórios subterrâneos, estações de bombeamento e torres elevadas antes de entrar nas redes de distribuição. O bombeamento e a distribuição são monitorados pelo Centro de Controle de Água em Shuwaikh, uma peça central da gestão operacional. Em 2019, o número de conexões com edifícios privados, comerciais e industriais já passava de 185 mil para água doce e mais de 76 mil para água salobra.

Sistema de água no Kuwait usa duas redes separadas para água doce e água salobra

Um dos elementos mais interessantes da infraestrutura hídrica kuwaitiana é a existência de duas redes distintas: uma para água doce e outra para água salobra. Cada uma possui reservatórios, estações de bombeamento e torres elevadas próprias.

A água dessalinizada e de melhor qualidade é reservada para uso doméstico direto, enquanto a água salobra é usada em mistura, irrigação de áreas verdes, parques públicos, agricultura e determinadas finalidades urbanas e residenciais.

Em regiões ainda não plenamente conectadas às redes principais, a população também pode recorrer a estações de abastecimento distribuídas pelo país. Paralelamente, o Kuwait investiu fortemente em reuso de efluentes tratados. Cerca de 0,4 milhão de metros cúbicos por dia de águas residuais tratadas terciariamente são produzidos e reutilizados, principalmente para irrigação.

A estação de tratamento de Sulaibiya, inaugurada em 2005, ganhou destaque internacional por aplicar tecnologia de membranas com osmose reversa e ultrafiltração em grande escala para tratar os efluentes gerados na Cidade do Kuwait e em Hawalli. Em um país onde cada metro cúbico conta, o reuso passou a ser complemento importante da dessalinização.

Plantas de Shuwaikh, Shuaiba e Doha formaram a base industrial da segurança hídrica kuwaitiana

Ao longo das décadas, o Kuwait construiu um parque hídrico-energético integrado. A planta de Shuwaikh, fundada no começo da década de 1950, tornou-se símbolo do nascimento da dessalinização nacional. Mais tarde vieram as plantas de Shuaiba, em 1965, e uma segunda unidade em 1970, além da planta de Doha em 1977.

Essas usinas ampliaram a produção de água e eletricidade em paralelo, acompanhando o crescimento urbano e econômico do país.

Créditos: Almar Water Solutions

O caso de Shuwaikh permanece simbólico não apenas por ter sido o primeiro passo, mas porque resume a transição histórica do Kuwait: de um país que dependia de água trazida por embarcações para um Estado que passou a fabricar sua própria água em escala industrial. O avanço urbano acelerado e o crescimento populacional tornaram essa transformação inevitável.

Guerra do Golfo destruiu a infraestrutura hídrica do Kuwait e mostrou a vulnerabilidade da dessalinização

A dependência da dessalinização, porém, trouxe também vulnerabilidade estratégica. Durante a invasão iraquiana de 1990 e na subsequente Guerra do Golfo, grande parte da infraestrutura de energia e dessalinização do Kuwait foi deliberadamente sabotada e destruída.

O impacto sobre o abastecimento de água foi devastador. Ao mesmo tempo, milhões de barris de petróleo foram lançados no Golfo Pérsico, criando um dos maiores derramamentos da história e agravando o risco ambiental sobre a base marítima do sistema.

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Diante do colapso, as autoridades kuwaitianas tiveram de recorrer a medidas emergenciais, incluindo caminhões-tanque vindos da Turquia e da Arábia Saudita, além da importação de água engarrafada e do uso de geradores e unidades móveis de dessalinização fornecidos com apoio internacional.

A reconstrução do sistema levou anos e consolidou uma lição que continua atual: a água do Kuwait depende de infraestrutura altamente técnica, costeira e vulnerável a choques militares e geopolíticos.

Esse temor ressurgiu nos últimos anos com os ataques de drones e mísseis contra instalações sauditas no Golfo. Mesmo sem dano duradouro às plantas citadas, a região passou a discutir mais intensamente a segurança física de sistemas de dessalinização que sustentam milhões de pessoas.

Az-Zour North e Az-Zour South são a nova fronteira da dessalinização e da cogeração no Kuwait

O maior projeto integrado de energia e água do Kuwait é hoje Az-Zour North, cuja expansão por meio das fases 2 e 3 deverá elevar ainda mais a capacidade hídrica e elétrica nacional.

O empreendimento, localizado a cerca de 100 quilômetros ao sul da Cidade do Kuwait, é descrito como capaz de gerar pelo menos 2.700 MW de eletricidade e produzir 545 milhões de litros de água por dia quando estiver totalmente operacional, em um projeto com investimento estimado em €3,5 bilhões e cronograma associado a 2029.

Créditos: Veolia

O complexo segue a lógica de parceria público-privada e modelo BOT, em que consórcios lideram projeto, financiamento, construção, operação e manutenção por um período determinado antes da transferência ao Estado.

Fase 1 de Az-Zour North, comissionada em 2016, já foi um marco por combinar 1.500 MW de geração a gás com planta de dessalinização na faixa de 486 mil metros cúbicos por dia, respondendo por aproximadamente 10% da capacidade de geração elétrica e 20% da capacidade de dessalinização do país.

Az-Zour South, por sua vez, destaca-se pelo uso de água do mar previamente aquecida pela usina vizinha, aumentando a eficiência energética. Em Az-Zour North, tecnologias como MED, ou destilação de múltiplos efeitos, foram escolhidas por sua capacidade de se adaptar às variações de demanda e por oferecerem melhor relação entre consumo energético e confiabilidade operacional. Az-Zour North representa o maior salto recente do Kuwait em segurança hídrica e energética combinadas.

Dessalinização no Golfo sustenta cidades, mas também amplia risco ambiental e dependência energética

O Kuwait está longe de ser exceção regional. Mais de 400 plantas de dessalinização estão distribuídas ao longo da costa do Golfo Pérsico, sustentando uma das regiões mais secas do planeta.

Países do GCC respondem por cerca de 60% da capacidade global de dessalinização e por quase 40% da produção mundial de água dessalinizada. No Kuwait, cerca de 90% da água potável vem desse processo; em Omã, 86%; e na Arábia Saudita, cerca de 70%.

Esse sistema tornou possível o desenvolvimento urbano, industrial e turístico da região. Mas também tem custo ambiental elevado.

Dessalinização é intensiva em energia e contribui para emissões de carbono em escala relevante, além de produzir salmoura concentrada descartada no mar, com efeitos potenciais sobre habitats bentônicos, recifes de coral e organismos marinhos da base da cadeia alimentar. Em muitos casos, os sistemas de captação de água do mar também afetam larvas, plâncton e pequenos organismos.

Pesquisadores apontam que o volume de água dessalinizada produzido diariamente na região já seria suficiente para encher milhares de piscinas olímpicas. Mais do que isso, a quantidade total de água processada é ainda maior, porque a água doce gerada representa apenas uma fração do total captado e manipulado, com grande parte retornando ao mar como salmoura.

Demanda por água no Kuwait seguirá crescendo e exigirá conservação, reuso e energia renovável

As projeções indicam que a demanda hídrica do Kuwait continuará crescendo fortemente. Estudos mencionam faixas que podem ir de 722 milhões a mais de 3 bilhões de metros cúbicos por ano nas próximas décadas, dependendo do cenário adotado. Esse quadro torna inevitável o aumento da capacidade de fontes não tradicionais, especialmente dessalinização, água salobra tratada, reuso de águas residuais e estratégias de revitalização de aquíferos.

Ao mesmo tempo, especialistas apontam que o sucesso técnico da dessalinização reduziu o ímpeto por políticas robustas de conservação. Em outras palavras, como o país conseguiu produzir água, demorou mais a criar incentivos fortes para poupar água. O desafio agora é fazer as duas coisas ao mesmo tempo: expandir a oferta e frear o desperdício.

Nesse contexto, o uso de energia solar e outras fontes renováveis passou a integrar a Visão 2035 do Kuwait. A ideia é reduzir a pegada energética da dessalinização e tornar futuras plantas mais sustentáveis. Empresas envolvidas nos novos projetos destacam tecnologias mais eficientes, reaproveitamento de calor e maior flexibilidade operacional.

Kuwait pioneiro na dessalinização virou referência global em água fabricada

A trajetória do Kuwait é uma das mais emblemáticas da história da água no século XX e no início do século XXI. Um país sem rios, com chuva mínima e disponibilidade per capita extremamente baixa, conseguiu construir uma estrutura nacional baseada em dessalinização, reuso, cogeração e reservatórios integrados. Essa escolha não foi apenas tecnológica; foi civilizacional.

Ao inaugurar as primeiras plantas no começo da década de 1950, o Kuwait abriu caminho para que todo o Golfo adotasse a dessalinização em escala. Bahrein e Omã avançariam nos anos 1970, assim como os Emirados Árabes Unidos, e a região se consolidaria como centro mundial da água dessalinizada. A experiência kuwaitiana ajudou a estabelecer o padrão moderno de dessalinização no Golfo e no mundo.

Mas o mesmo caso também serve de alerta. A dependência extrema da dessalinização torna o país vulnerável a choques energéticos, conflitos, ataques e impactos ambientais cumulativos. Em um mundo mais quente, mais seco e mais instável, a água fabricada continuará sendo indispensável para o Kuwait. O desafio, daqui em diante, é garantir que essa dependência venha acompanhada de resiliência, eficiência e gestão hídrica muito mais rigorosa.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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