A trajetória de Luana Lopes Lara revela como anos de balé rigoroso, dedicação aos estudos e uma parceria decisiva no MIT resultaram na criação da Kalshi, plataforma bilionária que redefiniu o mercado de previsão
A história de Luana Lopes Lara ganhou novo peso após a startup que ela construiu com Tarek Mansour atingir valor de mercado de US$ 11 bilhões. O número atrai atenção porque coloca a brasileira de 29 anos como a pessoa mais jovem do mundo a se tornar bilionária com uma empresa fundada do zero.
Mesmo assim, ela costuma lembrar que nada foi mais duro do que seus anos de formação, quando estudava balé e enfrentava uma rotina que poucos suportariam.
Durante o ensino médio, Luana treinava na Escola de Teatro Bolshoi, no Brasil, onde o rigor físico já moldava sua disciplina.
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As professoras seguravam cigarros acesos sob sua perna estendida para medir quanto tempo ela conseguiria mantê-la elevada.
Além disso, bailarinas escondiam cacos de vidro em sapatilhas alheias para ganhar vantagem. Tudo isso ocorria enquanto ela conciliava aulas acadêmicas das 7h às 12h e balé das 13h às 21h.
Ainda que o balé ocupasse quase todo o dia, Luana encontrava motivação para estudar à noite, impulsionada pela mãe, professora de matemática, e pelo pai, engenheiro elétrico.
Essa dedicação resultou em medalhas como ouro na Olimpíada Brasileira de Astronomia e bronze na Olimpíada de Matemática de Santa Catarina.
Depois de terminar o ensino médio, ela passou nove meses na Áustria como bailarina profissional.
Somente então decidiu abandonar os palcos para seguir outro caminho, iniciando uma jornada que a levaria aos Estados Unidos e ao MIT.
Luana, a bilionária mais jovem: Da sala de aula ao mercado
No MIT, Luana encontrou Mansour, que havia crescido no Líbano e aprendido inglês sozinho. Os dois compartilhavam interesses e disciplinas, o que facilitou a aproximação.
Ele lembra que ela sempre ocupava a primeira fileira nas aulas, e isso despertou nele a vontade de aprender mais ao seu lado.
O vínculo cresceu em 2018, quando conseguiram estágios na Five Rings Capital, em Nova York. Uma caminhada noturna de volta ao apartamento mudou tudo porque foi ali que imaginaram criar um mercado em que pessoas pudessem negociar probabilidades de eventos futuros.
Segundo a bilionária, traders já consideravam fatores externos nas decisões, portanto fazia sentido transformar previsões em produtos negociáveis.
O primeiro passo foi se candidatar ao Y Combinator, que aprovou o projeto em 2019. No entanto, a legalidade dos mercados de previsão era incerta.
Eles consultaram mais de 40 escritórios de advocacia, mas ninguém quis assumir o caso porque a empresa era pequena e os fundadores eram jovens.
Durante esse período, a pandemia separou fisicamente a dupla. Luana tocava o projeto de Londres, enquanto Mansour permanecia em Beirute.
Ele viveu a explosão no porto da cidade e dividiu seus dias entre ajudar vizinhos e trabalhar nas madrugadas.

A busca pela aprovação federal
A virada veio quando encontraram Jeff Bandman, ex-funcionário da CFTC. Ele aceitou ajudar e orientou o processo regulatório.
Em novembro de 2020, a Kalshi recebeu permissão para operar como um mercado de contratos de eventos, algo inédito.
Isso a diferenciou da principal concorrente, a Polymarket, que não tinha autorização federal e foi multada em 2022.
O mercado de previsão cresceu rápido. Em poucos meses, a Kalshi saltou de avaliação de US$ 2 bilhões para US$ 11 bilhões.
A mais recente rodada de investimentos, liderada pela Paradigm, injetou US$ 1 bilhão na empresa. Investidores como Sequoia Capital, Andreessen Horowitz e Y Combinator também participaram.
Cada fundador detém cerca de 12% da companhia, o que elevou o patrimônio individual para US$ 1,3 bilhão.
O volume teórico de negociações subiu oito vezes desde julho, alcançando US$ 5,8 bilhões em novembro.
Paralelamente, a Polymarket também cresceu e atingiu valor de mercado de US$ 9 bilhões. Portanto, o setor inteiro ganhou força.
Confronto jurídico e contratos eleitorais
Mesmo com avanços, a batalha regulatória não terminou. A CFTC recusou os contratos eleitorais da Kalshi antes da eleição presidencial dos EUA de 2024, alegando que pareciam jogos de azar.
A ideia de processar a agência foi de Luana, apesar da resistência de investidores.
Em setembro de 2024, o Tribunal Distrital decidiu a favor da Kalshi. A empresa se tornou a primeira, em mais de um século, autorizada a oferecer contratos eleitorais regulamentados no país.
Esse movimento ajudou a multiplicar a base de usuários. As apostas ultrapassaram US$ 500 milhões, divididas principalmente entre Trump e Kamala Harris.
Os usuários da plataforma previram corretamente a vitória de Trump um mês antes do pleito.
A Polymarket também se beneficiou do momento e registrou apostas totais de US$ 3,6 bilhões.
Crescimento após as eleições e novas alianças da empresa bilionária
Após a eleição, alguns investidores temiam queda no movimento. Entretanto, a Kalshi afirma negociar mais de US$ 1 bilhão por semana, e mais de 90% desse volume vem de contratos esportivos, que ganharam espaço rapidamente.
Donald Trump Jr. passou a integrar o conselho consultivo da empresa em janeiro. Ele também faz parte do conselho da Polymarket.
Além disso, a Kalshi ampliou parcerias com corretoras como Robinhood e Webull e recebeu apoio da Susquehanna International Group para dar liquidez ao sistema.
Mais recentemente, a empresa fez acordos com a NHL e com o marketplace StockX. Também passou a operar dentro do ecossistema Solana, reforçando presença no mercado de criptomoedas.
O novo capital deve financiar a expansão das integrações com corretoras e parcerias com veículos de comunicação.
Desafios estaduais e confiança renovada
Apesar do bom momento, alguns estados norte-americanos questionam os contratos esportivos e abriram processos argumentando que eles deveriam ser regulados e taxados localmente.
Mesmo assim, investidores acreditam que a dupla de fundadores saberá enfrentar mais esse obstáculo porque já superou desafios maiores.
Segundo Michael Seibel, que acompanhou a evolução da Kalshi desde o início, poucas empresas demonstraram potencial de impacto global tão grande.
Para ele, o que começou como uma ideia durante uma caminhada agora representa uma nova forma de compreender previsões e mercados.
A força que veio do balé
Muitos dos que trabalharam com Luana atribuem sua resistência ao treinamento de dança. Segundo Alex Immerman, da a16z, o balé ensina a lidar com rejeição e pressão constante.
Por isso, a jovem bilionária levaria para os negócios a mesma calma com que enfrentava desafios no palco.
A trajetória mostra como experiências duras, estudos intensos e decisões arriscadas construíram o caminho que hoje a coloca entre os nomes mais comentados do mundo tecnológico.
A Kalshi segue crescendo, e sua fundadora continua guiando a empresa porque acredita que ainda há espaço para transformar previsões em um mercado amplo e acessível.
Com informações de Forbes.

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