Imagens de satélite apontam obras discretas nas montanhas da China, em Sichuan, onde estruturas com tubulações, rampas de terra e perímetros reforçados sugerem etapas do ciclo nuclear. Analistas veem aceleração desde 2019, num momento em que os freios internacionais enfraquecem e Washington cobra incluir Pequim em acordos futuros de armas
Em vales úmidos e cobertos por neblina nas montanhas da China, imagens de satélite mostram instalações nucleares em expansão na província de Sichuan, em especial nas áreas conhecidas como Zitong e Pingtong. O que aparece no terreno é novo, mas a lógica é antiga, com infraestrutura enterrada, perímetros reforçados e trabalho em silêncio.
A leitura, porém, está longe de ser consensual. Especialistas dizem que as mudanças podem indicar uma ampliação acelerada do arsenal, mas também admitem que a imagem sozinha tem limites e pode refletir upgrades de segurança. A dúvida central é se a escala observada em Sichuan muda o cálculo estratégico até 2030.
Zitong e o desenho de testes que não aparecem no horizonte

No vale conhecido como Zitong, em Sichuan, engenheiros vêm erguendo novos bunkers e rampas de terra, em um complexo que chama atenção pela aparência de fortificação.
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Um conjunto recente “se arma” com tubulações visíveis, um sinal associado ao manuseio de materiais altamente perigosos, segundo a leitura apresentada por especialistas que acompanham as transformações do local.
Além das áreas fortificadas, há um recorte geométrico que dá pista sobre a escala do investimento, uma área oval descrita como tendo aproximadamente o tamanho de 10 quadras de basquete.
Bunkers e taludes sugerem espaços para ensaios com explosivos de alta potência, a camada química que detona para comprimir o núcleo e viabilizar a reação em cadeia.
Ainda assim, como lembra o físico Hui Zhang, imagem de satélite não confirma o objetivo final, apenas revela expansão e obras ativas.
Pingtong, a chaminé de 360 pés e o recado de Xi Jinping

Em outro vale de Sichuan, uma instalação cercada por dupla grade, conhecida como Pingtong, aparece como peça-chave no quebra-cabeça. Especialistas acreditam que ali podem ser produzidos “pits”, os núcleos metálicos de ogivas, geralmente contendo plutônio.
O prédio principal é marcado por uma chaminé de ventilação de 360 pés, além de novas aberturas, dispersores de calor e novas obras em torno do edifício.
O complexo de Pingtong também foi descrito como tendo passado por reformas nos últimos anos e por novas intervenções visíveis, como equipamentos de tratamento de ar e unidades de troca de calor.
Acima da entrada, um slogan de Xi Jinping teria sido aplicado em caracteres gigantes, visíveis do espaço, segundo a descrição associada ao levantamento.
O mesmo recorte de imagens sugere uma nova área cercada depois de 2023 e um portão de segurança em construção.
O gesto mistura política e engenharia, e Renny Babiarz compara cada sítio nuclear a uma peça de mosaico que, vista no conjunto, revela um padrão de crescimento rápido, com aceleração descrita a partir de 2019.
O que muda quando os guardrails desaparecem e ninguém quer se prender
A expansão nas montanhas da China complica o esforço de retomar controles globais de armas após a expiração do último tratado nuclear remanescente entre Estados Unidos e Rússia.
Washington sustenta que qualquer acordo sucessor precisa incluir a China, mas Pequim tem mostrado desinteresse em se vincular a novos limites, ampliando a sensação de vazio regulatório.
Nesse contexto, Sichuan deixa de ser apenas geografia e vira sinal. Armas nucleares são tratadas como parte integral da ambição de superpotência, como avaliou Babiarz ao relacionar as obras a objetivos mais amplos.
Para Michael S. Chase, que hoje atua na RAND, o objetivo chinês seria reduzir a vulnerabilidade a coerção nuclear dos Estados Unidos, algo que poderia pesar em uma crise envolvendo Taiwan mesmo em um conflito convencional.
Quantas ogivas, que tipo de teste e por que o debate virou público
Os números mais citados vêm de estimativas do Pentágono, a China teria mais de 600 ogivas ao final de 2024 e estaria no caminho para chegar a 1.000 ogivas até 2030.
É um estoque menor do que os milhares mantidos por Estados Unidos e Rússia, mas, para analistas como Matthew Sharp, o ritmo e a modernização ainda são motivo de preocupação, especialmente quando não existe diálogo robusto para reduzir interpretações extremas.
O debate também ganhou calor com uma acusação pública de Thomas G. DiNanno, do Departamento de Estado, que disse neste mês que a China conduziu “testes explosivos nucleares” em segredo, contrariando uma moratória global.
Pequim rejeitou a alegação como falsa, e especialistas discutem quão robusta é a evidência. Sem conversa contínua, cresce a tendência de planejar pelo pior cenário, porque é difícil separar, de fora, modernização técnica de mudança de comportamento em crise.
A herança do Terceiro Front e o salto após 2019 em Sichuan
As instalações de Sichuan não surgiram agora. Elas foram construídas seis décadas atrás como parte do “Third Front”, iniciativa de Mao Zedong para proteger laboratórios e plantas de produção de armas de possíveis ataques dos Estados Unidos ou da então União Soviética.
Dezenas de milhares de cientistas, engenheiros e trabalhadores teriam escavado o interior montanhoso, criando o que Danny B. Stillman descreveu como “um império nuclear interior”.
Quando as tensões com Washington e Moscou diminuíram nos anos 1980, muitos complexos do Third Front fecharam ou encolheram, e cientistas migraram para um laboratório de armas na cidade próxima de Mianyang. Zitong e Pingtong continuaram operando, mas por anos as mudanças foram pontuais, compatíveis com uma política de arsenal relativamente pequeno, segundo Babiarz.
Esse período de contenção começou a se desfazer há cerca de sete anos, e a aceleração no terreno teria ficado mais nítida a partir de 2019.
A nova fase inclui, em Mianyang, um grande laboratório de ignição por laser que, segundo a descrição, pode ser usado para estudar ogivas sem detonar armas reais.
Para Zhang, parte das obras em Zitong pode também refletir necessidades de segurança e de adaptação de desenhos de ogivas para novos sistemas, como mísseis lançados de submarinos. A evidência disponível não fecha o diagnóstico, mas aponta uma curva de investimento difícil de ignorar.
A história nas montanhas da China, em Sichuan, não é só sobre concreto novo em Zitong e Pingtong. Ela fala de como imagens de satélite, estimativas de ogivas e símbolos políticos de Xi Jinping se encaixam num momento em que tratados expiram e a confiança entre potências diminui.
O resultado pode ser uma corrida silenciosa, com pouca margem para erro em crises.
Se você tivesse de escolher um ponto de atenção imediato, qual pesaria mais, a falta de acordos que incluam Pequim, a leitura incerta de imagens de satélite, ou a possibilidade de modernização mudar o comportamento em um impasse sobre Taiwan? Que tipo de transparência você consideraria aceitável em um tema tão sensível?

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