Protestos tomaram a Vila do Abraão no primeiro dia da Taxa de Turismo Sustentável em Angra dos Reis, após incêndio criminoso destruir totens de cobrança e embarcações bloquearem acessos à Ilha Grande
A entrada em vigor da nova Taxa de Turismo Sustentável (TTS) em Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio de Janeiro, provocou uma verdadeira onda de tensão na Ilha Grande nesta segunda-feira (02). O primeiro dia de cobrança foi marcado por protestos no mar, bloqueios de embarcações, tumultos com policiais e até um incêndio criminoso que destruiu parte da estrutura de cobrança instalada na Vila do Abraão.
Segundo informações divulgadas pela Prefeitura de Angra dos Reis e reportagens publicadas por O GLOBO e Diário do Rio, os totens utilizados para emissão e pagamento da taxa foram incendiados durante a madrugada por homens encapuzados. O caso aconteceu por volta das 3h25 na Estação Abraão, principal ponto de chegada e saída de flexboats na Ilha Grande.
Vídeos que circulam nas redes sociais mostram o momento em que dois homens quebram o vidro da estrutura e, em seguida, ateiam fogo no espaço utilizando um galão com líquido inflamável. O Corpo de Bombeiros foi acionado rapidamente e conseguiu controlar as chamas sem registro de feridos.
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Mesmo após o incêndio, a prefeitura manteve oficialmente o início da cobrança da taxa turística.
Protesto por terra e mar paralisou acessos à Ilha Grande
Horas após o incêndio, moradores, trabalhadores do turismo e empresários da região organizaram uma grande manifestação na Vila do Abraão. O cais ficou lotado de manifestantes usando camisetas com frases contra a cobrança, além de faixas e cartazes pedindo o fim da taxa.
Na água, dezenas de embarcações cercaram a área de acesso ao cais, impedindo temporariamente a circulação de flexboats que fazem o transporte entre Angra dos Reis e Ilha Grande. Com isso, alguns trajetos saindo de Conceição de Jacareí, em Mangaratiba, chegaram a ser suspensos durante a manhã.
A guia de turismo Daniele Lopes relatou que o setor já vinha sentindo impactos desde o anúncio da medida no ano passado.
— Tivemos muitos cancelamentos desde que começaram a falar da taxa. Foi um verão completamente diferente. Alguns negócios registraram mais de 60% de cancelamentos — afirmou.
Apesar do bloqueio das embarcações particulares, o serviço regular de barcas continuou funcionando normalmente, segundo a operadora responsável.
A tensão aumentou durante a tarde, quando vídeos registraram discussões intensas entre manifestantes e policiais civis que chegaram ao local para realizar perícia após o incêndio. Fogos de artifício foram disparados durante o tumulto.
De acordo com a Polícia Civil, um adolescente foi conduzido à delegacia por atos análogos aos crimes de desobediência, desacato e resistência. Ele foi liberado posteriormente após a chegada dos responsáveis.
A corporação afirmou ainda que os agentes foram cercados e hostilizados por manifestantes durante a ação policial na Vila do Abraão.
Como funciona a nova taxa de turismo em Angra dos Reis
A Taxa de Turismo Sustentável começou oficialmente a ser cobrada em 02 de junho de 2026. A medida foi criada pela Prefeitura de Angra dos Reis com o argumento de financiar melhorias em infraestrutura, preservação ambiental e organização do turismo nas ilhas da região.
O pagamento é obrigatório para visitantes que desembarcam nas ilhas do município, incluindo a Ilha Grande.
Os valores variam conforme o tipo de visita, tempo de permanência e local de embarque.
Atualmente, os principais valores são:
- Day use saindo de Angra dos Reis: cerca de R$ 28
- Day use saindo de cidades vizinhas: aproximadamente R$ 50
- Pernoite com hospedagem cadastrada: cerca de R$ 50
- Pernoite sem comprovação de hospedagem regular: aproximadamente R$ 100
Além disso, existe uma taxa de serviço de 12% cobrada pela plataforma responsável pela operação do sistema.
Segundo a prefeitura, o pagamento pode ser feito virtualmente pelo portal Viva Angra ou em totens espalhados pela cidade e pela Ilha Grande. Turistas recebem um voucher digital com QR Code após o pagamento.
A legislação também prevê multa equivalente ao dobro da taxa para visitantes flagrados sem a autorização turística durante fiscalizações.
Moradores e empresários criticam modelo da cobrança
Embora a prefeitura afirme que a arrecadação será destinada à preservação ambiental e melhorias urbanas, a taxa enfrenta forte resistência entre moradores e empresários do setor turístico.
Um dos principais pontos criticados envolve a infraestrutura atual da Ilha Grande. Profissionais ligados ao turismo afirmam que a cidade ainda enfrenta problemas graves de saneamento básico, iluminação pública e transporte marítimo.
O turismólogo Waldeck Tenório classificou a cobrança como “inconcebível” diante da realidade enfrentada pela região.
— Existe esgoto sendo lançado no mar e problemas sérios de estrutura. Antes de cobrar mais do turista, o atendimento precisa melhorar — afirmou.
Outro foco de críticas envolve a fiscalização considerada desigual. Empresários afirmam que o controle está concentrado principalmente na Vila do Abraão, enquanto turistas que chegam por embarcações particulares em praias e áreas isoladas poderiam escapar da cobrança.
A situação também preocupa proprietários de imóveis alugados informalmente por temporada. Isso porque visitantes sem comprovante de hospedagem cadastrada podem acabar pagando taxas significativamente maiores.
Questionamentos políticos e jurídicos aumentam pressão sobre a prefeitura
A implantação da Taxa de Turismo Sustentável também gerou debates políticos e jurídicos em Angra dos Reis.
Conforme publicado pelo Diário do Rio, o vereador Jorge Felippe Neto (PL), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara Municipal, acionou a Justiça questionando a legalidade da cobrança e a contratação da empresa responsável pelo sistema.
A principal crítica envolve a ausência de licitação pública para escolha da administradora da plataforma Viva Angra.
Além disso, moradores da Ilha Grande alegam que mudanças recentes feitas pela prefeitura no texto da lei aumentaram ainda mais o clima de conflito com a população local.
O projeto de alteração foi enviado à Câmara Municipal pelo prefeito Cláudio Ferreti (MDB) poucos dias após reuniões tensas entre moradores e representantes políticos.
Enquanto isso, a prefeitura sustenta que a taxa é essencial para garantir turismo sustentável e ampliar investimentos públicos nas ilhas do município.
Em nota oficial, o governo municipal afirmou que o programa Viva Angra representa “uma ferramenta fundamental para equilibrar sustentabilidade e desenvolvimento econômico”.
Mesmo com a forte reação popular, a administração municipal confirmou que a cobrança seguirá normalmente nos próximos dias.


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