Antes celebrado como hotel chinês de luxo sete estrelas em Sanya China, o Crown of Beauty mistura floresta de nove árvores, diária de 10 dólares, corredores vazios, rua comercial abandonada e um silêncio de decadência que revela excessos da bolha imobiliária e turística chinesa nas últimas décadas de crescimento acelerado
Desde os anos 1980, quando a reforma e abertura econômica chinesa criou uma geração de novos ricos obcecados pela estética ocidental, projetos de arquitetura extravagante passaram a pontuar o mapa do país. Em Sanya China, na ilha de Hainan, esse impulso se materializou em um hotel chinês monumental, o Crown of Beauty, concebido como floresta de nove árvores e promovido como experiência de luxo sete estrelas para o turismo de alto padrão.
Quase quarenta anos depois, em plena década de 2020, o cenário é oposto: o complexo que já simbolizou ascensão meteórica da elite chinesa hoje opera com diária de 10 dólares, taxa de ocupação mínima e sinais visíveis de abandono. O hotel chinês que prometia luxo sete estrelas e visual de floresta de nove árvores agora exibe carpete embolorado, comércio fechado e uma decadência silenciosa que contrasta com a imagem oficial de prosperidade em Sanya China.
Do luxo sete estrelas à floresta de nove árvores quase vazia

À distância, o conjunto do Crown of Beauty ainda impressiona.
-
Estudante de São Paulo chamada Júlia Ramos Genzini cria método térmico que separa a fibra de vidro da resina das pás eólicas conquista o 1º lugar em Engenharia na Febrace da USP e ataca um lixo que pode somar 43 milhões de toneladas no mundo
-
Lagos “sem fundo” deixam lendas para trás e revelam abismos reais: no Cáucaso, um lago de apenas 2 hectares pode passar dos 270 metros, escoa 70 milhões de litros por dia e ainda desafia medições por correntes subterrâneas
-
Depois de perderem tudo em terremoto e tsunami na Indonésia, sobreviventes ajudaram a escolher o terreno, desenharam o novo assentamento e construíram 38 casas resistentes para recomeçar perto do mar
-
Um Cavalo de Troia gigante surgiu diante do Coliseu e o que está dentro da exposição é ainda mais raro, a Turquia levou a Roma 221 artefatos de 19 museus para revelar a cidade real por trás da lenda
São nove edifícios em forma de árvore gigante, com varandas que se espalham como galhos em camadas sucessivas, criando o efeito de uma floresta de nove árvores recortando o céu de Sanya China.
Cada torre foi desenhada para que as varandas perfuradas funcionassem como folhas, compondo um mosaico futurista que transformou o hotel chinês em ícone arquitetônico amplamente compartilhado nas redes.
Durante a fase de auge, o complexo foi apresentado como hotel de luxo sete estrelas, com interiores suntuosos, iluminação intensa e uma combinação ostensiva de mármore, dourado e espelhos.
A promessa era oferecer ao turista estrangeiro e ao novo rico local uma experiência visual única: dormir em um hotel chinês que parecia emergir de uma floresta de nove árvores suspensa sobre uma rua comercial vibrante.
Hoje, o contraste é visível. A mesma estrutura que servia de cartão-postal virou cenário de vazio.
A marca de luxo sete estrelas permanece nos discursos, mas o cotidiano é de corredores pouco movimentados, vitrines apagadas e um silêncio que ocupa os espaços onde antes se esperava uma multidão.
Diária de 10 dólares, milhares de quartos e um vazio difícil de disfarçar

Por dentro, o Crown of Beauty revela outro tipo de choque. Logo ao sair do elevador, o visitante encontra corredores acarpetados, supostamente pensados para reduzir ruídos, mas com cheiro forte de mofo, resultado de anos sem limpeza adequada.
No quarto reservado pelo explorador que registrou a experiência, a diária de 10 dólares é suficiente para garantir um espaço amplo, cama arrumada e aparência geral de higiene aceitável, apesar das instalações antigas.
Quase todos os quartos seguem a mesma configuração, multiplicada por milhares de unidades ao longo das nove torres.
A oferta de leitos do hotel chinês é gigantesca para a ocupação real, descrita como extremamente baixa em plena alta temporada turística de Sanya China.
Em vez de filas no check-in, o que se vê são recepções silenciosas, elevadores raramente acionados e andares inteiros com portas fechadas e luzes apagadas.
A diária de 10 dólares, que em outros tempos seria impensável em um hotel de luxo sete estrelas, virou estratégia de sobrevivência para atrair qualquer fluxo de hóspedes.
Mesmo assim, a combinação de transporte precário, queda no número de turistas e mudança de hábitos de consumo deixa claro que o preço baixo não basta para reverter a imagem de empreendimento encalhado.
O hotel chinês que nasceu para disputar a faixa mais alta do mercado hoje tenta preencher quartos com tarifas de hostel, sem conseguir mascarar a escala do vazio.
Corredores artísticos vazios, túnel sinistro e rua comercial abandonada
Fora dos quartos, o percurso pelo Crown of Beauty revela uma sequência de espaços pensados para encantar, mas que hoje reforçam a sensação de abandono.
Um túnel que abriga uma galeria de arte foi concebido como corredor artístico, com iluminação forte, paredes decoradas e ambientação teatral.
Na prática, o visitante caminha sozinho por um espaço completamente vazio, sem uma única pessoa, em um clima descrito como sinistro e desconfortável.
A rua comercial localizada na base da floresta de nove árvores repete o mesmo padrão.
Fachadas fechadas, vitrines vazias, portas trancadas e ausência total de movimento indicam que os estabelecimentos comerciais vizinhos foram abandonados.
A entrada principal, que deveria funcionar como grande portal urbano para o hotel chinês, hoje lembra mais um cenário de cidade fantasma do que a porta de um empreendimento de luxo sete estrelas em Sanya China.
Até o playground, instalado na área comum sob as nove torres em formato de árvore, ajuda a contar a história.
Os brinquedos parecem limpos e utilizáveis, mas não há crianças brincando, nem famílias circulando.
O contraste entre a infraestrutura montada e a ausência de usuários transforma o conjunto em um retrato silencioso de excesso de oferta, planejamento desconectado da demanda real e decadência difícil de reverter.
Estética dos novos ricos e crítica social embutida no hotel chinês
A decoração interna do Crown of Beauty segue a estética descrita como típica dos novos ricos chineses.
Lustres enormes, materiais brilhantes, detalhes dourados e uma tentativa de replicar referências ocidentais compõem ambientes que, segundo o relato, exalam mais obsessão por dinheiro do que sofisticação.
O hotel chinês em Sanya China sintetiza essa linguagem visual: tudo é pensado para parecer caro, mas o resultado final transmite cansaço, excesso e falta de apelo estético consistente.
O comentário de bastidor é direto: essa estética não é um caso isolado, mas sim reflexo de uma transformação social acelerada.
Após a reforma e abertura econômica, aqueles próximos ao poder puderam enriquecer da noite para o dia, saltando da pobreza para a riqueza sem tempo para construir um repertório cultural equivalente ao tamanho da fortuna.
Muitas casas de magnatas, segundo o relato, repetem o mesmo padrão de decoração do hotel chinês, com ambientes carregados e referências ocidentais mal assimiladas.
Sob essa lente, o Crown of Beauty deixa de ser apenas um empreendimento mal administrado e passa a funcionar como símbolo arquitetônico de uma fase da China em que consumo e ostentação foram tratados como substitutos de projeto urbano e cultural.
A floresta de nove árvores e o discurso de luxo sete estrelas escondem, na prática, um vazio que é estético, social e econômico.
Decadência silenciosa, Sanya China e o futuro desse hotel chinês
A experiência de caminhar pelos fundos do complexo, entrando em prédios fechados e encontrando tudo muito bagunçado, reforça a sensação de que a manutenção foi abandonada em várias áreas.
Mesmo sem risco imediato aparente, a percepção é de que partes do Crown of Beauty ficaram presas no tempo, enquanto o restante de Sanya China tenta seguir o roteiro oficial de destino turístico de alto padrão.
No curto prazo, a diária de 10 dólares e a tentativa de manter alguns serviços funcionando podem manter o hotel chinês tecnicamente aberto, mas não respondem à pergunta central: que papel esse conjunto em forma de floresta de nove árvores terá em uma cidade que disputa visitantes com praias, resorts renovados e experiências mais alinhadas ao gosto atual do público?
Se nada mudar, o Crown of Beauty tende a permanecer como monumento de luxo sete estrelas que virou ruína viva, misto de atração de exploração urbana e alerta sobre os limites da euforia imobiliária.
Depois de conhecer a história desse hotel chinês em Sanya China, que já foi luxo sete estrelas e hoje cobra diária de 10 dólares no meio de uma floresta de nove árvores quase vazia, você teria coragem de se hospedar ali ou preferiria vê-lo apenas como cenário de decadência turística?


-
-
-
4 pessoas reagiram a isso.