Documento escrito por Archibald Gracie a bordo do Titanic foi leiloado por cerca de US$ 399 mil no Reino Unido; carta é considerada item único e de valor histórico.
Em 10 de abril de 1912, Archibald Gracie embarcou no Titanic com destino aos Estados Unidos.
Instalado em uma cabine de primeira classe, aproveitou os primeiros momentos a bordo para escrever uma carta a um amigo.
O que parecia somente uma reflexão inicial sobre o navio acabou se tornando um dos últimos registros antes da tragédia que marcaria a história da navegação.
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A carta, enviada por Gracie antes do naufrágio, foi vendida recentemente em um leilão no Reino Unido.
O documento alcançou o valor de cerca de US$ 399.000, segundo a casa de leilões Henry Aldridge and Son, responsável pela venda.
O leilão foi realizado no dia 26 de abril, em Wiltshire, na Inglaterra.
Escrita a bordo
Gracie escreveu a carta enquanto o Titanic ainda estava em preparação para cruzar o Atlântico.
O texto foi breve, mas com um tom que hoje parece profético: “É um belo navio, mas aguardarei o fim da minha jornada antes de julgá-lo”, declarou.
O conteúdo foi endereçado a AP Brooks, embaixador europeu, que a recebeu no Hotel Waldorf, em Londres.
A correspondência foi postada em 11 de abril, quando o Titanic parou em Queenstown, na Irlanda — hoje conhecida como Cobh — e reenviada novamente no dia seguinte, já em Londres.
O papel ainda carrega o timbre da White Star Line, a companhia responsável pelo Titanic, com as palavras “A bordo do RMS Titanic”.

Henry Aldridge e Filho
Item raro e simbólico
Para Andrew Aldridge, o leiloeiro responsável pela venda, peças como essa ajudam a preservar a memória dos passageiros. “As histórias desses homens, mulheres e crianças são contadas por meio de memorabilia”, afirmou em entrevista à NPR.
A identidade do comprador não foi revelada. Já o vendedor foi identificado como um descendente direto do destinatário da carta.
De acordo com a própria casa de leilões, não existe outro registro conhecido de correspondência enviada por Gracie durante a travessia.
Isso faz do documento uma peça “verdadeiramente excepcional, digna de museu”.
A história de Gracie
Archibald Gracie nasceu em janeiro de 1858, na cidade de Mobile, no estado do Alabama, nos Estados Unidos.
Ele estudou no ensino fundamental em New Hampshire e chegou a ingressar na Academia Militar dos Estados Unidos, em West Point, mas não concluiu o curso.
Depois disso, alistou-se no Exército e se tornou coronel do Sétimo Regimento de Nova York.
Antes de embarcar no Titanic, Gracie havia viajado para a Europa no navio Oceanic.
Em vez de retornar ao continente americano no mesmo navio, ele decidiu reservar uma cabine no Titanic, que estava prestes a realizar sua viagem inaugural.
Na carta enviada a Brooks, Gracie menciona com carinho o navio anterior: “Embora ela não possua o estilo elaborado e a variedade de diversões deste grande navio, suas qualidades de navegabilidade e aparência de iate ainda me fazem sentir falta dela”.
Atividades antes do desastre
Durante a travessia, Gracie aproveitou o conforto oferecido aos passageiros de primeira classe.
Ele passou boa parte do tempo acompanhando mulheres que viajavam desacompanhadas, frequentou a biblioteca, nadou na piscina, conversou com outros passageiros e até jogou squash nas quadras do navio.
Na noite de 14 de abril, Gracie foi dormir cedo, mas acordou por volta das 23h40 ao perceber que os motores haviam parado.
Ao sair da cabine, notou a gravidade da situação. Voltou rapidamente para vestir o colete salva-vidas e conduziu as mulheres que acompanhava até os botes salva-vidas.
Mesmo depois disso, permaneceu a bordo para ajudar na evacuação de outras mulheres e crianças.
Quando todos os botes foram lançados ao mar, Gracie se uniu à tripulação no resgate de botes salva-vidas dobráveis. Logo depois, o navio afundou.
Sobrevivente do desastre
Gracie foi arrastado para baixo pela força do naufrágio, mas conseguiu retornar à superfície e subir em um dos botes desmontáveis, que estava virado.
Dividiu o espaço com vários outros homens. Muitos deles não resistiram ao frio intenso da noite.
Mais tarde, pela manhã, os sobreviventes do bote foram resgatados por outros barcos salva-vidas e depois recolhidos pelo navio Carpathia.
Em entrevista ao jornal New York Tribune, Gracie descreveu a experiência como a mais difícil de sua vida.
“As horas que se passaram antes de sermos resgatados pelo Carpathia foram as mais longas e terríveis que já passei”, relatou. “Praticamente sem qualquer sensação por causa da água gelada, estávamos quase caindo de cansaço.”
Últimos meses de vida
Após o resgate, Gracie retornou a Nova York e começou a escrever um livro sobre o que havia vivido.
O título, A Verdade Sobre o Titanic, foi publicado no ano seguinte. Gracie não teve tempo de ver a obra finalizada.
Com saúde debilitada pela hipotermia e já portador de diabetes, morreu em 4 de dezembro de 1912, oito meses após o desastre.
A carta vendida recentemente permanece como um dos últimos vestígios daquela travessia. Um lembrete físico de um dos episódios mais marcantes da história marítima.
