Rotina criada em Canoas atrai diversas espécies de aves para uma janela, gera conteúdos virais e levanta debate sobre cuidados ao oferecer alimento a animais silvestres.
Um hábito simples, criado em um apartamento em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, transformou a rotina de Joélcio Oliveira e deu visibilidade a um pedaço da fauna urbana.
Ao montar um “café da tarde” diário na janela, ele passou a receber visitas de mais de dez espécies de aves e viu as imagens do encontro com os animais ganharem milhões de visualizações nas redes sociais.
Aves transformam janela em ponto de encontro em Canoas
A ideia surgiu em 2023, depois que Joélcio percebeu a intensa movimentação de aves nas árvores do vizinho.
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Apaixonado por beija-flores desde a infância, ele decidiu instalar bebedouros importados no parapeito da janela, voltados especialmente para essa espécie.
Segundo ele, a resposta foi imediata.
“Comecei a colocar na janela e eu percebi que foi muito fácil chamar a atenção deles”, lembra o morador, que trabalha como reparador automotivo.
Com o tempo, o espaço preparado para os beija-flores passou a atrair outros visitantes alados.
Hoje, bem-te-vis, sabiás e o sanhaço-papa-laranja frequentam o local em diferentes horários do dia.
De acordo com Joélcio, a diversidade de aves surpreendeu até quem já observava com atenção a movimentação no bairro. “Já passaram de 10 espécies”, relata.
Rotina organizada e cardápio com frutas para as aves

Para manter a rotina, Joélcio organiza a oferta de alimentos de forma controlada.
Ele não deixa as frutas expostas o dia inteiro, para evitar desperdício e acúmulo de resíduos.
Os pedaços de banana, mamão e laranja são colocados em momentos específicos, sempre que ele retorna do trabalho.
Com o passar dos meses, as aves passaram a associar o horário à chegada do alimento.
“Eles já sabem o horário que eu chego do trabalho. É quase um café da tarde”, conta, em tom bem-humorado.
A regularidade ajudou a consolidar a janela como um ponto fixo de alimentação e descanso para os animais.
Para registrar as visitas sem assustar os pássaros, o morador também foi ajustando a própria presença.
Ele investiu em roupas camufladas, seguiu orientações de seguidores e montou um pequeno cenário para que as aves se sentissem mais seguras.
Especialistas orientam sobre riscos e cuidados ao alimentar aves
A prática de oferecer alimento para aves silvestres em áreas urbanas é vista com cautela por biólogos e ecólogos.
Especialistas apontam que a estratégia pode ser positiva, desde que respeite alguns critérios básicos para não provocar desequilíbrios ambientais ou problemas de saúde para os animais.
Uma das principais recomendações é priorizar, sempre que possível, o plantio de árvores frutíferas nativas, medida que favorece a alimentação natural e a dispersão de sementes.
De acordo com o coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da Biodiversidade da PUCRS, Eduardo Eizirik, quando esse plantio não é viável, a oferta de frutas pode ser uma alternativa desde que seja feita de modo responsável.
A orientação é disponibilizar pedaços de banana, mamão ou laranja sem sementes, para evitar que plantas exóticas germinem e se espalhem como invasoras.
Outro ponto essencial é a higiene.
Antes de manusear as frutas ou abastecer bebedouros, a pessoa deve lavar bem as mãos e manter o local limpo.
A recomendação é reforçada em lares com aves domésticas, já que restos de comida ou superfícies contaminadas podem facilitar a transmissão de doenças para a fauna silvestre.
Eizirik destaca que sobras de frutas fornecidas a aves domésticas não devem ser reutilizadas em áreas destinadas a aves nativas.
Bebedouros para beija-flores exigem cuidados específicos
No caso dos beija-flores, os cuidados precisam ser ainda mais rigorosos.
Muitos desses animais dependem de néctar natural e podem adoecer se a solução açucarada estiver em concentração inadequada ou permanecer tempo demais nos recipientes.
O professor da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUCRS, Júlio César Bicca-Marques, reforça que é necessário estudar o preparo correto da solução para que ela seja nutritiva e segura.
A troca frequente do líquido e a limpeza rigorosa dos bebedouros são fundamentais.
Recipientes com acúmulo de açúcar cristalizado, fungos ou resíduos podem se transformar em foco de contaminação e afastar os animais.
Viralização dos vídeos e crescimento nas redes
A rotina de Joélcio ultrapassou a janela do apartamento quando ele decidiu compartilhar os registros nas redes sociais.
Os primeiros vídeos mostravam a aproximação dos beija-flores e, depois, a chegada de bem-te-vis, sabiás e sanhaços.
Com a frequência das postagens, o conteúdo começou a atrair um público fiel.
Uma das gravações, que mostra uma família de bem-te-vis se alimentando na bandeja presa ao vidro, ultrapassou 12 milhões de visualizações.
O crescimento também se refletiu no número de seguidores.
Segundo Joélcio, o perfil tinha cerca de 300 pessoas no início do ano, avançou para 10 mil e hoje supera 60 mil interessados em acompanhar o “café da tarde” das aves.
‘Passarinhar’ e o impacto da observação de aves na vida urbana
Mais do que o sucesso nas redes, a experiência alterou a forma como o morador percebe o ritmo da cidade.
Ele conta que aprendeu o termo “passarinhar”, usado por observadores para definir o ato de contemplar aves em ambientes naturais.
Segundo Joélcio, esse momento diário se tornou um espaço de pausa e tranquilidade.
“O ato de você contemplar a natureza traz uma paz para a pessoa. É incrível. Melhorou muito minha qualidade de vida”, afirma.
A observação das espécies, das diferenças de comportamento e da adaptação dos animais ao cenário urbano se transformou em parte importante do dia a dia.
Ao compartilhar as imagens, ele passou a receber relatos de pessoas que têm olhado com mais atenção para árvores, fios e parapeitos de suas próprias casas, identificando espécies que antes passavam despercebidas.
A experiência reacende o debate sobre como iniciativas cuidadosas de observação podem aproximar moradores da fauna local sem causar impactos negativos.
Em uma cidade movimentada, até que ponto gestos simples como esse podem mudar a relação das pessoas com a natureza ao redor?

A ta , os pássaros por acaso não vivem indo nos lixos pegarem comidas, principalmente em portas de restaurantes, pegam tudo que veem pelo chao , e cadê o cuidado para que eles não se contaminem? Agora o rapaz está dando frutas e tem que ter cuidado em o que oferecer. Afff cada uma