Uma operação aérea incomum reacendeu a história de uma figura gigante gravada em uma colina inglesa, criada por soldados neozelandeses após a Primeira Guerra Mundial e preservada como memória militar e patrimônio histórico.
Um helicóptero Chinook da Royal Air Force despejou 10 toneladas de giz sobre Beacon Hill, em Wiltshire, no sul da Inglaterra, durante uma operação de restauração do Bulford Kiwi, figura gigante criada por soldados da Nova Zelândia em 1919.
A ação foi conduzida pela Defence Infrastructure Organisation, ligada ao Ministério da Defesa britânico, com participação de militares, voluntários, conservacionistas, representantes neozelandeses e equipes de apoio em solo.
Escavado em uma encosta de Salisbury Plain, o monumento representa um kiwi, ave associada à identidade nacional da Nova Zelândia.
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O desenho foi feito com giz, material claro que cria contraste com a vegetação e permite que a imagem seja vista à distância.
Segundo a Historic England, a figura mede cerca de 127 metros da cabeça aos pés, tem bico de aproximadamente 45 metros e traz as iniciais “N Z” abaixo das patas.
O que é o Bulford Kiwi
O Bulford Kiwi integra uma tradição visual presente em áreas de colinas calcárias da Inglaterra, onde figuras são formadas pela exposição de camadas claras do terreno.
Em Bulford, porém, a imagem tem origem diretamente ligada à história militar.
Ela foi criada por integrantes da Força Expedicionária da Nova Zelândia que aguardavam o retorno ao país depois do fim da Primeira Guerra Mundial.
A composição depende do contraste entre o giz e a cobertura vegetal.
Por isso, a figura precisa de manutenção periódica para continuar visível.
O “chalk” é uma forma de calcário branco, macio e poroso, formado principalmente por carbonato de cálcio.
Em áreas expostas, a ação da chuva, do vento e do crescimento de plantas reduz a nitidez dos contornos com o passar do tempo.
Na restauração, o Chinook transportou o material até a colina e o depositou sobre a área do desenho.
Depois da descarga, voluntários e equipes técnicas espalharam o giz manualmente, ajustando o material ao traçado da figura.
Esse trabalho em solo é necessário para recompor as linhas sem alterar a forma reconhecida do monumento.
Monumento foi criado por soldados da Nova Zelândia
A figura foi criada em 1919 por tropas neozelandesas instaladas em Sling Camp, área próxima a Bulford Camp.
O registro histórico informa que militares dos batalhões de Canterbury, Otago e Wellington participaram da execução sob coordenação do capitão Harry Clark.
O desenho foi concebido pelo sargento-major Percy Blenkarne, enquanto o contorno no terreno ficou a cargo do sargento-major Victor Low.
O método de construção foi direto e exigiu trabalho manual.
Os soldados removeram parte da camada superficial do solo e preencheram o traçado com pedras de giz, criando a imagem branca sobre a colina.
A Historic England associa a obra ao período de espera pela repatriação das tropas, quando militares neozelandeses permaneciam na Inglaterra após o encerramento do conflito.
Décadas depois, a vegetação chegou a cobrir parte da figura.
O registro oficial aponta que o kiwi foi restaurado em 1980 por soldados do 249 Signal Squadron e passou por ações de manutenção em anos posteriores.
Como ocorre com estruturas feitas diretamente no terreno, as intervenções buscam preservar o desenho sem transformar a encosta em uma peça artificial ou fora de seu contexto original.
Restauração com Chinook e trabalho manual
A operação de conservação reuniu a Defence Infrastructure Organisation, a Alta Comissão da Nova Zelândia, o grupo Landmarc, organizações locais de conservação, voluntários do 3rd (UK) Division Signal Regiment e integrantes da Operation Nightingale.
O trabalho combinou transporte aéreo, manejo de material calcário e atuação manual na encosta.
Criada em 2011 em Salisbury Plain, a Operation Nightingale é uma iniciativa britânica de arqueologia militar.
Segundo o governo do Reino Unido, o programa usa escavações e atividades arqueológicas para auxiliar na recuperação de militares feridos, lesionados ou doentes, além de veteranos.
No Bulford Kiwi, o grupo atuou com outras equipes no processo de recomposição do monumento.
A restauração também incluiu manifestações culturais ligadas à Nova Zelândia.
Durante a ação, foram realizadas uma waiata, canto tradicional māori, e uma dança kukri, associada à Força de Defesa da Nova Zelândia e às tradições dos Gurkhas nepaleses.
Essas apresentações foram registradas pelo governo britânico como parte da cerimônia de preservação do local.

Por que o desenho é protegido no Reino Unido
O Bulford Kiwi recebeu proteção oficial em 2017, quando foi reconhecido como monumento histórico nacional no Reino Unido.
A decisão foi tomada pelo Departamento de Cultura, Mídia e Esporte britânico, com recomendação da Historic England, no contexto das homenagens ligadas ao centenário da Batalha de Messines.
Para a Historic England, o monumento registra a presença de tropas neozelandesas em território britânico e a participação desses militares na Primeira Guerra Mundial.
A instituição afirma que quase 10% da população da Nova Zelândia à época lutou no conflito, o que correspondeu a cerca de 100 mil integrantes das forças do país.
A relação com Messines também aparece nos registros oficiais.
A batalha ocorreu em junho de 1917, na Frente Ocidental, na região da atual Bélgica, e teve participação relevante de forças neozelandesas.
Ao proteger o Bulford Kiwi, a Historic England classificou a figura como um dos locais associados à memória dessas tropas e às perdas registradas durante a guerra.
Richard Osgood, arqueólogo sênior da Defence Infrastructure Organisation, afirmou que o órgão é responsável por 772 monumentos protegidos em áreas do Ministério da Defesa britânico, com registros que vão da pré-história à Guerra Fria.
Sobre o Bulford Kiwi, ele disse que, embora seja um dos mais jovens, por ter sido construído em 1919, o monumento tem “importância nacional e internacional” por sua associação com as Forças Armadas da Nova Zelândia.
Osgood também afirmou que a reposição anual do giz “reforça os laços” entre Reino Unido e Nova Zelândia e mantém a lembrança dos sacrifícios feitos na Primeira Guerra Mundial.
A declaração foi divulgada pelo governo britânico no anúncio da restauração.
Giz, memória e conservação em uma colina inglesa
A preservação do Bulford Kiwi depende de um processo diferente daquele aplicado a monumentos construídos em pedra, bronze ou concreto.
Como o desenho está incorporado ao relevo, sua manutenção envolve a reposição de material, o controle da vegetação e a proteção do traçado original.
A cada intervenção, equipes responsáveis precisam equilibrar visibilidade, conservação arqueológica e respeito às características da paisagem.
A operação com o Chinook tornou visível esse esforço de manutenção.
O helicóptero foi usado para levar o giz até uma área de difícil manejo por métodos convencionais, enquanto voluntários fizeram o acabamento diretamente no solo.
O resultado não cria uma nova obra, mas recompõe uma figura que já faz parte da encosta há mais de um século.
O caso também mostra como marcas feitas em paisagens naturais podem se tornar documentos históricos.
No Bulford Kiwi, o valor patrimonial não está apenas na escala do desenho, mas no vínculo entre o local, os soldados que o criaram e o período de transição entre o fim da guerra e o retorno das tropas à Nova Zelândia.
Mais de cem anos depois, a ave desenhada no giz segue associada a uma memória militar construída fora do país que representa.
Ao permanecer visível na colina, o monumento preserva uma forma de registro histórico que depende tanto da documentação oficial quanto do trabalho físico de manutenção.


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