Quatro décadas depois do início das obras, a estátua de santo Antônio continua incompleta, mantém a cabeça separada do corpo e ainda enfrenta atrasos estruturais
Depois de mais de 40 anos de espera, a estátua de santo Antônio em Caridade, no interior do Ceará, voltou ao centro das atenções porque uma nova etapa do projeto foi anunciada pelo governo do estado em 2023. O plano era entregar a obra no segundo semestre de 2024, portanto um ano atrás. Isso não aconteceu.
O monumento continua incompleto e corpo permanece sem cabeça.
A cabeça existe, mas está distante quase três quilômetros do local onde deveria estar, posicionada em um conjunto habitacional da cidade.
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Uma história que começou em 1984
A construção teve início em 1984 e atravessou diferentes gestões. Além disso, não foi a primeira tentativa de finalizar o monumento. Já houve projetos apresentados em 1998, 2002, 2007 e 2009, todos sem conclusão, segundo noticiou o Folha de São Paulo.
O investimento atual é de aproximadamente R$ 11 milhões. Mesmo assim, a obra não foi finalizada.
Em nota, a Superintendência de Obras Públicas do Estado do Ceará afirma que a situação está encaminhada porque a prefeitura trabalha na contratação de um guindaste para transportar as peças de revestimento até o topo do Serrote do Cágado. O içamento está previsto para o início de dezembro.
A cabeça que virou literatura
A cabeça solta, separada do corpo, inspirou o livro “A Cabeça do Santo”, de Socorro Acioli. O título vendeu mais de 200 mil cópias no Brasil.
O objeto, portanto, deixou de ser apenas parte de uma obra inacabada. Virou referência cultural.
O tamanho da estátua e o complexo religioso
Quando concluída, a estátua terá 43 metros de altura. Serão 36 metros do santo e mais 7 metros de pedestal.
Isso significa que o monumento ficará maior que o conjunto do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, que tem 38 metros ao todo.
O projeto não se limita à estátua, já que Inclui um complexo religioso com museu, mirante, capela, áreas comerciais, escadarias, rampas e estacionamento.
De acordo com o ex-prefeito Júnior Tavares, o objetivo é fortalecer o turismo religioso na cidade, porque a localização tem forte simbolismo para fiéis da região.
O desafio da localização
O ponto escolhido é o Serrote do Cágado, área mais alta da cidade, onde a subida é longa e íngreme. O acesso é uma das principais causas do atraso.
Segundo Tavares, o percurso de quase um quilômetro dificulta o transporte de materiais e explica parte dos contratempos. Ele afirma que a entrega das obras como um todo deve ocorrer no primeiro semestre de 2026.
Memórias religiosas preservadas
Para o padre Felipe Calisto Martins, da Igreja Matriz de Santo Antônio, o monumento representa mais que uma construção. Simboliza o reconhecimento da espiritualidade tradicional do local.
Ele lembra que, durante a Semana Santa, muitas pessoas subiam o Serrote do Cágado a pé, fazendo penitências e vivendo momentos de encontro comunitário.
Essas lembranças fortalecem o sentido simbólico da obra e justificam o desejo de concluí-la, porque há um valor emocional ligado ao espaço.
O artista que iniciou a obra
O escultor Franzé D’Aurora, de 73 anos, foi o responsável pelo início do projeto. Ele foi convidado pelo então prefeito Raul Linhares após criar outra imagem de santo Antônio instalada na BR-020.
Dois anos após o início, em 1986, a construção foi interrompida por falta de verba. Franzé decidiu então produzir a cabeça com seus próprios recursos. Disse que buscava uma resposta artística ao momento.
Segundo ele, a ideia era criar algo diferente e que despertasse atenção. Ao fazer a cabeça separada, esperava gerar impacto e inspirar novas interpretações. E acabou conseguindo.
A cabeça que virou atração turística
Com o tempo, a cabeça isolada passou a atrair moradores e visitantes. A obra ganhou fama por sua estranheza e pela relação com o livro de Socorro Acioli.
A professora e ceramista Annelise Montenegro afirma que sempre ouvia falar sobre o objeto e que muitas amigas perguntavam se ela já tinha visitado o local.
Durante um trabalho na região, decidiu conhecer a peça. Ela descreveu a experiência como “muito curiosa” e considera que o lugar tornou-se um ponto turístico.
Histórias que despertam interesse
A estudante de publicidade Maria Eduarda Rocha conheceu a história durante uma visita a Canindé. O interesse cresceu depois de ler o livro. Em outra viagem à região, decidiu visitar Caridade para ver a cabeça de perto.
Esses relatos mostram como a obra, mesmo incompleta, se transformou em um atrativo local, porque desperta curiosidade e reforça a identidade da cidade.
Planos para o futuro
A prefeitura quer transformar o local em um museu. Segundo Tavares, a casa onde a cabeça está hoje já foi adquirida.
Com isso, o município espera aproveitar o fluxo crescente de visitantes enquanto a estátua principal aguarda conclusão.
Com informações de Folha de São Paulo.
