A grande Corrente do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico), vai perder 51% da sua força até 2100, com margem de erro de mais ou menos 8%, mesmo que todos os países do mundo cumpram suas atuais promessas de redução de emissões de CO₂. A conclusão vem de um estudo recente liderado por Valentin Portmann, da Universidade de Bordeaux, na França, publicado na revista Science Advances, que reduziu drasticamente a incerteza das previsões anteriores sobre o tema.
Até o último relatório do IPCC, em 2021, as simulações mal conseguiam determinar se o enfraquecimento da Corrente do Atlântico de fato ocorreria: a estimativa era de uma redução de 32%, mas com uma margem de incerteza de 37%, tão ampla que praticamente não permitia afirmar nada com segurança. O estudo de Portmann corrigiu vieses que existiam nos modelos climáticos, especialmente na simulação da salinidade do Atlântico Sul e no cálculo do degelo da Groenlândia, e chegou a uma previsão muito mais assertiva. A redução de 51% da AMOC significa que a circulação oceânica que transporta calor dos trópicos para a Europa e traz água fria para as costas do Brasil funcionará com metade da potência atual antes de 2100. Para o Brasil, o impacto pode atingir diretamente a Amazônia e a Caatinga, alterando regimes de chuva que sustentam esses biomas.
O motor que move os oceanos e está desacelerando

A Corrente do Atlântico funciona como um motor que movimenta todo o sistema global de circulação oceânica. No Atlântico Norte, a água fria e salgada afunda até o fundo do oceano por ser mais densa, e esse afundamento puxa água quente da superfície desde os trópicos, criando um fluxo contínuo que distribui calor pelo planeta. É esse mecanismo que ameniza os invernos europeus, transportando massas enormes de água quente do Hemisfério Sul para o Norte, e que atenua os verões na região equatorial, trazendo água fria para as costas do Brasil e da África.
O combustível desse motor é a diferença de densidade entre as águas, determinada pela temperatura e pela concentração de sal. Quando a água é fria e salgada, ela é pesada e afunda. Quando é quente ou diluída por água doce, fica leve e permanece na superfície. O degelo da Groenlândia despeja volumes crescentes de água doce no Atlântico Norte, diluindo a salinidade, reduzindo a densidade e desacelerando o afundamento que mantém o motor em funcionamento. Menos afundamento significa menos circulação, e menos circulação significa que a Corrente do Atlântico perde força.
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O que o estudo francês corrigiu nas previsões anteriores
O trabalho liderado por Portmann trouxe precisão a um campo onde a incerteza reinava. A principal limitação dos estudos anteriores era a subestimação do degelo da Groenlândia e a imprecisão nas medidas de transporte de água salgada do Atlântico Sul para o Norte, uma variável fundamental para calcular a salinidade que alimenta o motor da AMOC. Sem dados confiáveis sobre quanto sal chega ao Atlântico Norte, os modelos não conseguiam prever com segurança se a corrente enfraqueceria pouco ou muito.
“Os modelos climáticos não são perfeitos. Eles são úteis para prever o clima futuro, mas para refiná-los é interessante incorporar observações do mundo real, como fizemos”, explicou Portmann. A correção do viés de salinidade no Atlântico Sul, aliada a dados mais recentes sobre o volume real de degelo, permitiu que o modelo francês entregasse uma previsão com margem de erro de apenas 8%, contra os 37% de incerteza dos trabalhos anteriores. A diferença é entre não saber se o problema vai acontecer e saber que ele é praticamente inevitável.
Amazônia e Caatinga: os biomas brasileiros na mira

O enfraquecimento da Corrente do Atlântico não é um problema exclusivamente europeu. A circulação oceânica influencia diretamente os padrões de chuva no Hemisfério Sul, e uma AMOC funcionando com metade da potência pode alterar a posição e a intensidade da Zona de Convergência Intertropical, o cinturão de chuvas que alimenta a Amazônia durante a estação úmida. Se essa zona se deslocar para o sul ou enfraquecer, a Amazônia pode receber menos precipitação, acelerando um processo de savanização que outros estudos já apontam como risco concreto.
A Caatinga, bioma semiárido que já opera no limite hídrico, seria ainda mais vulnerável a qualquer redução nas chuvas. Comunidades inteiras do Nordeste brasileiro dependem de ciclos de precipitação que estão conectados, em última instância, à circulação oceânica do Atlântico. Cristiano Chiessi, cientista da Universidade de São Paulo que pesquisa o tema, confirma que a tendência identificada por Portmann não é isolada: “Existe uma série de outros estudos recentes que apontam na mesma direção”, afirmou, indicando que a comunidade científica converge para a conclusão de que o enfraquecimento da AMOC é real e significativo.
A expectativa para o próximo relatório do IPCC
As conclusões do estudo francês aumentaram a expectativa de que o enfraquecimento da Corrente do Atlântico ganhe destaque no próximo relatório de avaliação do IPCC, previsto para 2027. No relatório de 2021, a AMOC foi tratada com cautela pela imprecisão das previsões, e o painel não conseguiu afirmar com confiança a intensidade nem o prazo do enfraquecimento. Com os dados de Portmann e de outros pesquisadores apontando na mesma direção, o próximo relatório pode classificar o enfraquecimento da AMOC como cenário de alta probabilidade.
Uma mudança de classificação pelo IPCC teria consequências práticas para políticas climáticas em todo o mundo. Se o painel confirmar que a corrente perderá metade da força até 2100 mesmo com redução de emissões, governos precisarão incluir essa variável em seus planos de adaptação climática. Para o Brasil, isso significaria repensar a gestão hídrica da Amazônia e do Nordeste, antecipar mudanças nos padrões agrícolas e preparar infraestrutura para cenários de seca prolongada em regiões que hoje dependem de chuvas conectadas à circulação oceânica.
O degelo da Groenlândia que alimenta o problema
O derretimento acelerado do manto de gelo da Groenlândia é um dos principais fatores que enfraquecem a Corrente do Atlântico. Os icebergs que se desprendem e a água de degelo que flui para o oceano diluem a salinidade do Atlântico Norte, tornando a água mais leve e reduzindo o afundamento que impulsiona a circulação. Quanto mais gelo derrete, mais água doce entra no sistema, mais o motor desacelera e mais a corrente perde força, num ciclo que se retroalimenta.
Os modelos anteriores subestimavam o volume de degelo e, consequentemente, seu impacto sobre a AMOC. Com dados atualizados sobre a taxa real de perda de gelo na Groenlândia, que vem se acelerando nas últimas décadas, as previsões se tornaram mais precisas e mais preocupantes. A incorporação dessas medidas reais aos modelos climáticos é o que permitiu ao estudo francês entregar uma previsão de 51% de redução com margem de erro estreita, substituindo a incerteza de trabalhos anteriores por uma resposta que a comunidade científica cada vez mais aceita como provável.
Metade da força, o dobro da preocupação
A grande Corrente do Atlântico vai perder 51% da força até 2100, segundo o estudo mais preciso já publicado sobre o tema. A redução da AMOC pode alterar padrões de chuva na Amazônia e na Caatinga, resfriar a Europa, modificar safras agrícolas e forçar adaptações que custam bilhões. O próximo relatório do IPCC, em 2027, deve refletir essa nova certeza científica, e a janela para agir antes que os efeitos se tornem irreversíveis diminui a cada ano de emissões que não são cortadas.
Você sabia que uma corrente oceânica no meio do Atlântico influencia as chuvas da Amazônia? Conte nos comentários o que acha da previsão de perda de 51% da força da AMOC, se acredita que o Brasil está preparado para os impactos nos biomas e como avalia a diferença entre saber que o problema vai acontecer e agir para amenizá-lo. Queremos ouvir a sua opinião.

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