Megaempreendimento urbano no Uzbequistão prevê canais, torres gigantes, bairros inteligentes e monitoramento por inteligência artificial para transformar a expansão de Tashkent em uma nova metrópole planejada para 2,5 milhões de habitantes, em meio a desafios envolvendo infraestrutura, energia, crescimento populacional e escassez hídrica.
A implantação de Nova Tashkent começou no leste da capital uzbeque, ocupando uma área de 25 mil hectares entre os rios Chirchiq e Karasu, com capacidade projetada para receber aproximadamente 2,5 milhões de moradores ao longo das próximas décadas de expansão urbana.
Responsável pelo plano diretor, a empresa britânica Cross Works desenvolveu um modelo baseado em bairros de uso misto, transporte integrado, canais artificiais, áreas verdes e uma plataforma digital capaz de centralizar o monitoramento da nova cidade em tempo real.
Dentro desse cronograma inicial, o chamado Distrito 1 concentra cerca de 6 mil hectares e já entrou na fase de preparação estrutural, com abertura de vias, movimentação de solo e definição das primeiras áreas reservadas para infraestrutura pública e residencial.
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Pressionada pelo avanço populacional de Tashkent, cuja estrutura urbana passou a enfrentar limitações físicas e operacionais, a expansão surge como resposta à necessidade crescente por moradias, hospitais, escolas, empregos e serviços distribuídos em larga escala.
Em vez de repetir o modelo tradicional de bairros-dormitório afastados dos centros econômicos, o governo pretende consolidar um novo polo urbano autônomo, reunindo funções administrativas, culturais, comerciais e residenciais dentro de uma mesma malha integrada.

Nova Tashkent aposta em bairros caminháveis e superquadras
Inspirado no conceito tradicional de mahalla, o desenho urbano de Nova Tashkent adapta antigas formas de convivência comunitária a uma escala contemporânea, reorganizando os bairros para aproximar moradia, comércio, serviços públicos e áreas de convivência dentro de um mesmo espaço urbano.
Com essa configuração, a proposta reduz a dependência de automóveis e encurta deslocamentos diários, já que escolas, mercados, equipamentos públicos e áreas comerciais ficam distribuídos em zonas caminháveis conectadas por corredores destinados a pedestres e ciclistas.
Além da malha ortogonal predominante, o planejamento incorpora grandes vias diagonais para acelerar conexões entre diferentes setores da cidade, evitando percursos excessivamente longos e criando uma circulação mais eficiente entre áreas residenciais, comerciais e institucionais.
Enquanto o fluxo pesado de veículos permanece concentrado nas bordas das quadras, os núcleos internos recebem pátios arborizados, espaços de convivência, ciclovias e áreas sombreadas desenhadas para reduzir ruídos e ampliar a circulação de pedestres.
Sistema de canais e inteligência artificial moldam a nova cidade
Cerca de 20% da área total foi reservada para parques, corredores verdes e uma extensa rede de canais alimentada por fontes localizadas nas montanhas ao norte da capital, estrutura planejada para integrar paisagismo, drenagem urbana e controle climático dentro da futura metrópole.

Ao mesmo tempo, os canais devem funcionar como corredores ambientais conectando diferentes bairros da expansão, criando áreas de circulação mais frescas e separando parte dos trajetos de pedestres das principais vias destinadas ao transporte motorizado.
Para coordenar toda essa infraestrutura, a administração do projeto passou a utilizar um gêmeo digital, sistema que reúne modelos tridimensionais, mapas georreferenciados, dados operacionais, cronogramas e simulações voltadas ao monitoramento permanente da nova cidade.
Com auxílio dessa plataforma tecnológica, governo, engenheiros e urbanistas conseguem acompanhar possíveis falhas estruturais, testar cenários operacionais e planejar intervenções antes mesmo da conclusão física das obras previstas para os próximos anos.
Arranha-céus de 575 metros devem mudar o horizonte da Ásia Central
Entre os principais símbolos arquitetônicos previstos para Nova Tashkent aparece o complexo Tashkent Twin City Towers, anunciado com 575 metros de altura e projetado para dominar o horizonte da futura expansão urbana uzbeque.
De acordo com a Global Construction Review, as torres devem integrar um dos maiores conjuntos verticais da Ásia Central, ocupando uma área conectada diretamente aos parques públicos e à rede de canais planejada para atravessar diferentes setores da cidade.
Outro empreendimento de destaque envolve o Alisher Navoi International Scientific Research Centre, assinado pelo escritório Zaha Hadid Architects e concebido para reunir funções culturais, acadêmicas e científicas dentro do novo núcleo urbano.
Além de museu de literatura e auditório para 400 pessoas, o complexo contará com centro internacional de pesquisa e escola residencial para estudantes, incorporando fachadas em tijolos produzidos localmente e sistemas passivos de ventilação inspirados na arquitetura histórica da região.

Escassez de água ameaça expansão urbana bilionária
Apesar da escala bilionária e da ambição urbanística envolvida no projeto, a questão hídrica permanece como um dos maiores obstáculos para a consolidação de Nova Tashkent nas próximas décadas.
Dependente de rios transfronteiriços e pressionado pelo aumento do consumo agrícola e urbano, o Uzbequistão enfrenta um cenário de crescente escassez de água, acompanhado com preocupação por organismos internacionais e especialistas em infraestrutura regional.
Estimativas do Banco Mundial indicam que o déficit anual de água do país pode alcançar 7 bilhões de metros cúbicos em 2030 e atingir 15 bilhões de metros cúbicos em 2050, cenário que amplia a pressão sobre sistemas de abastecimento, irrigação e expansão urbana.
Nesse contexto, a construção de Nova Tashkent reúne interesses econômicos, reorganização territorial, atração de capital estrangeiro e desafios ambientais de grande escala, especialmente em relação à capacidade de sustentar milhões de moradores em uma região marcada por limitações hídricas.
Mais do que erguer torres, avenidas e bairros inteligentes, o sucesso da nova metrópole dependerá da eficiência dos sistemas de água, energia, transporte e geração de empregos previstos para transformar o peso econômico da capital uzbeque na Ásia Central.

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