Sem painéis solares, projeto liderado pela L3Harris alimentará por duas décadas a primeira sonda dedicada ao gigante de gelo a quase 3 bilhões de km do Sol.
A 19 unidades astronômicas do Sol, painéis fotovoltaicos perdem o sentido. Por isso o novo gerador nuclear da NASA em desenvolvimento pela L3Harris Defense Technologies acaba de passar pela revisão crítica de projeto.
Em 14 de maio de 2026, em editorial intitulado “Getting into the Space Nuclear Power Game“, a empresa confirmou que o Next-Gen RTG está apto para entrar em produção.
Segundo o World Nuclear News, a informação foi divulgada na mesma semana. O dispositivo entrega aproximadamente 250 watts elétricos de saída útil.
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Conforme a empresa, o combustível é o decaimento do plutônio-238. É energia suficiente para manter rádios, câmeras e instrumentos operando por mais de 20 anos no espaço profundo.
Além disso, a NASA está colocando de volta na mesa uma missão que estava no papel desde os anos 1980. Agora, com hardware nuclear pronto, ela pode finalmente sair do limbo orçamentário.
Por isso, a urgência tem rosto institucional. A Decadal Survey 2023-2032 das National Academies classificou a Uranus Orbiter and Probe como a prioridade máxima da ciência planetária americana.
Por que painéis solares não funcionam onde o gerador nuclear da NASA vai operar
Para entender o motivo da agência recorrer ao novo dispositivo, basta olhar para a equação da luz solar. A intensidade da radiação cai com o inverso do quadrado da distância.
De acordo com os dados básicos do Sistema Solar:
- Júpiter recebe cerca de 25 vezes menos luz solar que a Terra
- Saturno recebe aproximadamente 100 vezes menos radiação solar
- Urano fica a 19 unidades astronômicas, recebendo apenas 1/361 da irradiação solar terrestre
- Painéis equivalentes aos da ISS precisariam de área quase impraticável

Na prática, placas solares teriam que ser absurdamente grandes para gerar 250 watts a essa distância. Conforme estudo do Outer Planets Assessment Group, arranjos solares seriam mecanicamente inviáveis em sondas pequenas.
Por isso, a agência apostou desde os anos 1960 no plutônio-238 como combustível de espaço profundo. Posteriormente, esse ciclo se manteve com a Voyager 1, lançada em 1977.
Ainda assim, a Voyager 1 transmite dados do espaço interestelar após 48 anos. Cada sonda carrega três RTGs antigos que ainda operam com potência reduzida.
O que muda no Next-Gen RTG da L3Harris
Segundo o editorial da L3Harris, o Next-Gen RTG foi projetado em parceria com o Idaho National Laboratory do Departamento de Energia dos EUA. Esse laboratório é responsável pela retomada da produção doméstica de plutônio-238.
O DOE confirma que os laboratórios nacionais voltaram a fabricar Pu-238 em escala. Dessa forma, encerra a dependência de estoques herdados da Guerra Fria.

O design entrega cerca de 250 watts elétricos no início da vida útil. Em comparação, o Multi-Mission RTG usado pelos rovers Curiosity e Perseverance entrega cerca de 110 watts.
Isso significa que cada nova unidade praticamente dobra a potência disponível em relação ao padrão anterior. Além disso, o sistema foi otimizado para durar mais de 20 anos.
Por outro lado, o conjunto é modular. Pode ser combinado em pares ou trios para missões que exijam mais energia. Também pode ser dimensionado para baixo em sondas menores.
Missão a Urano: o último gigante negligenciado
O relatório das National Academies de 2022 classificou a sonda como missão flagship prioritária da próxima década.
De acordo com o documento técnico da própria NASA, Urano é o único dos quatro planetas gigantes que jamais recebeu uma missão dedicada.
A Voyager 2 fez um sobrevoo único em 1986, e desde então não houve outra visita. Saturno teve Cassini-Huygens. Júpiter recebe Juno. Netuno aguarda missão futura.

Por outro lado, a relevância científica vai além da curiosidade. Para os exoplanetas, gigantes de gelo são extremamente comuns na galáxia.
Por isso, estudar Urano de perto significa entender como se formam e evoluem mundos semelhantes em outros sistemas estelares. Em outras palavras, é exoplanetologia aplicada.
Cronograma do gerador nuclear da NASA aperta a janela
O documento aponta que a janela de lançamento ideal usa um sobrevoo gravitacional em Júpiter, disponível em 2031 e 2032. Perdida essa janela, a viagem pode levar quase o dobro do tempo.
Por isso, o cronograma da L3Harris é apertado. As unidades de voo do Next-Gen RTG devem estar prontas no início da década de 2030.
Em comunicado, a empresa afirmou que a Critical Design Review autoriza a construção das primeiras unidades. Os testes finais de vibração e vácuo devem ocorrer em 2027.
O que o Brasil pode aprender
O Brasil não opera reatores nucleares espaciais. Contudo, a curva de aprendizado vale para qualquer programa nacional de exploração.
A própria tradição brasileira em geração nuclear, com Angra 1 e 2, depende historicamente de combustível enriquecido importado. Dessa forma, replicar um RTG exigiria cadeia de Pu-238 que nenhum país sul-americano possui.

Por outro lado, o aprendizado em sistemas autônomos de alta confiabilidade é diretamente aplicável a setores como o pré-sal. Plataformas FPSO operam 25 anos em ambiente hostil.
Conforme pesquisadores acompanham tecnologias de longa duração, a régua de qualidade que a NASA aplica a um RTG é a mesma que define equipamentos críticos offshore.
O que pode dar errado
Apesar do avanço, há riscos concretos. Em primeiro lugar, o orçamento. A NASA estima que a Uranus Orbiter and Probe pode custar mais de US$ 4 bilhões.
Por isso, cortes orçamentários ou prioridades concorrentes podem adiar o lançamento, perdendo a janela gravitacional. Ainda assim, há outro risco: o suprimento de Pu-238 é limitado.
A taxa de produção do DOE é da ordem de poucas centenas de gramas por ano. Cada Next-Gen RTG, por sua vez, exige vários quilos. Haverá fila de espera entre missões.
Por fim, há ressalvas de segurança. O programa de RPS da NASA mantém protocolos rígidos de contenção. Os RTGs anteriores cumpriram esse padrão.
Porém, qualquer falha pública atrasaria toda a agenda nuclear espacial americana por anos. Vale lembrar que a segurança radiológica é o calcanhar de Aquiles do programa.
Se a humanidade já constrói geradores nucleares pequenos para alimentar sondas por 20 anos, por que ainda não conseguimos o mesmo em terra firme?
Bases científicas, hospitais isolados ou plataformas offshore poderiam usar a mesma tecnologia. O limite nunca foi técnico — sempre foi vontade política.

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