Nova espécie Gibellula mineira infecta 25% das aranhas hospedeiras em fragmento de Mata Atlântica dentro do campus da UFV em Viçosa, MG, e revela mecanismo de manipulação comportamental que a ciência ainda não consegue explicar completamente
A descoberta parecia coisa de ficção científica — mas aconteceu numa mata preservada dentro do campus de uma universidade brasileira. Pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, identificaram uma nova espécie de fungo zumbi de aranhas que consegue reprogramar o comportamento de suas vítimas e obrigá-las a morrer em posições e locais específicos. Segundo o G1 Terra da Gente, o fungo foi encontrado na “Mata da Biologia”, uma área de 75 hectares dentro do campus da UFV, e recebeu o nome científico de Gibellula mineira.
A publicação dos resultados ocorreu em meados de março de 2026, na revista científica Fungal Biology, da British Mycological Society. A confirmação da nova espécie envolveu análises de DNA e comparações morfológicas com todas as outras espécies conhecidas do gênero Gibellula. Portanto, não se trata de uma variação — é uma espécie inteiramente nova para a ciência.

Como o fungo zumbi de aranhas transforma suas vítimas em marionetes
O mecanismo de manipulação comportamental observado pela equipe da UFV impressionou até os próprios pesquisadores. Enquanto aranhas saudáveis da espécie Iguarima censoria costumam ficar na face superior das folhas para caçar, as infectadas pelo Gibellula mineira apresentam um comportamento completamente diferente.
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As aranhas parasitadas são levadas a morrer na face inferior das folhas, em locais mais altos e com menor luminosidade. Dessa forma, o fungo não apenas mata — ele controla onde e como a vítima morre.
“Nossa interpretação inicial é que a morte em posições mais altas favorece a dispersão dos esporos, enquanto a escolha de locais menos iluminados pode reduzir a desidratação do fungo”, explicou o professor Thiago Gechel Kloss, co-orientador da pesquisa e professor do Departamento de Biologia Geral da UFV.
Além disso, a face inferior das folhas protege os esporos da chuva, garantindo que o fungo permaneça viável por mais tempo. Assim, cada detalhe do comportamento “zumbi” serve a uma função precisa para a sobrevivência do parasita.
Outros casos de parasitismo comportamental já chamaram a atenção no Brasil, como a tarântula infectada por fungo zumbi na Amazônia, que revelou comportamento raro nunca antes documentado.

Os números que surpreenderam os cientistas sobre o fungo zumbi de aranhas
A pesquisa revelou dados que a equipe não esperava encontrar. Aproximadamente 25% da população de aranhas hospedeiras analisadas na área de estudo estava infectada pelo Gibellula mineira — uma taxa considerada alta para interações parasitárias desse tipo.
Contudo, o resultado mais surpreendente foi outro. Conforme comunicado oficial da Metrópoles: “Aranhas menores apresentaram maior probabilidade de serem parasitadas, um padrão inesperado que levanta novas questões sobre a dinâmica da interação entre o fungo e suas aranhas hospedeiras.”
A pesquisa teve início em 2024, durante o mestrado de Aline dos Santos, autora principal do estudo. A equipe contou com:
- Dra. Thairine Mendes Pereira — orientadora, pesquisadora do Laboratório de Ecologia e Comportamento da UFV (Labecom)
- Professor Thiago Gechel Kloss — co-orientador, do Departamento de Biologia Geral da UFV
- Camila Ribeiro — estudante de iniciação científica, responsável pelos registros fotográficos noturnos
- Instituto Butantan — forneceu apoio na identificação da espécie hospedeira Iguarima censoria
Mata Atlântica urbana revela espécies que a ciência desconhecia
A descoberta reforça um ponto que muitos pesquisadores tentam demonstrar há anos. Mesmo fragmentos florestais pequenos, inseridos dentro de cidades, podem abrigar espécies completamente novas para a ciência.
A “Mata da Biologia” e o “Recanto das Cigarras” — ambas áreas de mata preservada no campus da UFV — ficam ao lado de Viçosa, uma cidade de 80 mil habitantes. Ainda assim, o Gibellula mineira permaneceu escondido ali até que pesquisadores o encontraram por acaso, durante um estudo que inicialmente buscava avaliar alterações comportamentais em aranhas.
A biodiversidade oculta do planeta continua surpreendendo a ciência em locais inesperados. Recentemente, pesquisadores encontraram espécies desconhecidas a quase 5.000 metros de profundidade no Japão, dentro de um raro “castelo de vidro” no fundo do oceano.

O que falta descobrir — e o que já se sabe sobre riscos para humanos
Por mais assustador que o mecanismo pareça, o Gibellula mineira não representa nenhum risco para seres humanos. Conforme esclareceram os pesquisadores, esse tipo de parasitismo comportamental ocorre somente em insetos e aranhas — diferentemente do que filmes e jogos como The Last of Us retratam na ficção.
Ainda assim, identificar a aranha hospedeira representou um dos maiores desafios técnicos do estudo, já que o fungo cobre quase todo o corpo do animal durante o parasitismo. Por consequência, a equipe precisou do apoio do Instituto Butantan para confirmar que a espécie hospedeira era a Iguarima censoria.
O próximo passo dos pesquisadores da UFV será entender como exatamente o Gibellula mineira consegue manipular o sistema fisiológico da aranha para forçá-la a agir contra seus próprios instintos de sobrevivência. Segundo a Folha da Mata, essa é uma das perguntas mais intrigantes que a ecologia brasileira terá que responder nos próximos anos.
