Cientistas investigam por que formigas usam cabeças de outras espécies como decoração e como isso se relaciona com caça, química e evolução.
O que leva formigas a colecionarem cabeça de outras espécies como decoração de seus ninhos? Essa é a pergunta que mobiliza cientistas há décadas e que, agora, começa a ganhar respostas.
Pesquisadores liderados por Adrian Smith, da Universidade Estadual da Carolina do Norte, publicaram um estudo recente explicando como a espécie Formica archboldi consegue caçar formigas muito maiores e perigosas.
A descoberta foi feita a partir de observações de campo e análises químicas realizadas no sudeste dos Estados Unidos, especialmente na Flórida, onde essas formigas vivem.
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O estudo revela como, quando e por que essa estratégia incomum pode ter evoluído, misturando comportamento agressivo, camuflagem química e uma curiosa prática de decoração macabra.
Quem são as formigas que colecionam cabeças?
A Formica archboldi é uma espécie pequena, de coloração ferrugem, mas com hábitos nada discretos.
Há cerca de 60 anos, cientistas já sabiam que seus ninhos costumam ser cercados por cabeças ou restos de corpos de formigas-de-estalo, insetos conhecidos por suas mandíbulas gigantes e movimentos rápidos.
Essas cabeças espalhadas ao redor do ninho chamam atenção não só pelo aspecto visual, mas também pelo risco envolvido.
As formigas-de-estalo possuem mandíbulas capazes de se fechar como uma armadilha e até lançá-las para longe em caso de perigo. Ainda assim, tornam-se presas frequentes.
Como as formigas conseguem vencer inimigos tão perigosos
Por muito tempo, a pergunta central foi: como essas formigas pequenas conseguem matar adversárias tão bem armadas?
A resposta veio com experimentos detalhados. Segundo o estudo, a Formica archboldi ataca usando jatos rápidos de ácido fórmico, uma substância tóxica produzida por muitas formigas, mas raramente usada de forma ofensiva.
Enquanto a maioria das espécies utiliza esse ácido apenas como defesa, essas formigas partem diretamente para o ataque.
O ácido é lançado de maneira precisa, imobilizando a presa em segundos. Assim, a cabeça é separada do corpo e levada para o ninho, onde passa a integrar a curiosa decoração.
A decoração do ninho é só estética? Provavelmente não!
À primeira vista, espalhar cabeças de inimigos ao redor do ninho parece apenas um comportamento estranho. No entanto, especialistas acreditam que essa decoração pode ter funções práticas.
Uma hipótese é que os restos das presas ajudem a mascarar o cheiro da colônia, confundindo predadores ou rivais.

Além disso, a presença dessas cabeças pode atuar como um aviso visual para outras formigas, indicando que aquele território já tem uma defesa eficiente. Embora ainda não haja consenso, a prática claramente vai além de um simples acaso.
As formigas dependem fortemente de sinais químicos, chamados hidrocarbonetos cuticulares, para se comunicar, reconhecer companheiras e identificar ameaças.
Curiosamente, análises mostraram que o cheiro da Formica archboldi é muito parecido com o das formigas-de-estalo que ela caça.
Esse detalhe intrigou os cientistas. Em teoria, imitar o cheiro da presa poderia facilitar a aproximação durante a caça. Porém, testes não confirmaram essa vantagem direta. Assim, outra explicação passou a ganhar força.
Uma terceira personagem entra na história: as formigas sequestradoras
A explicação alternativa envolve um terceiro tipo de formiga, conhecida por sequestrar colônias inteiras. Essas formigas parasitas invadem ninhos de espécies do gênero Formica, matam a rainha e usam o cheiro dela para se camuflar.
Como resultado, passam despercebidas e criam operárias que sequestram ainda mais formigas. Diante dessa ameaça, mudar o padrão de cheiro pode ser uma estratégia de sobrevivência.
Ao imitar o odor de formigas-de-estalo — que não são alvo dessas sequestradoras — a Formica archboldi poderia escapar do parasitismo.
Embora essa hipótese ainda não tenha sido comprovada, os dados apontam para uma relação evolutiva complexa.
As formigas decapitadoras só são encontradas em regiões onde também existem formigas-de-estalo nativas. Além disso, elas não imitam espécies introduzidas recentemente, o que reforça a ideia de coevolução.
Portanto, a semelhança de cheiro dificilmente é coincidência. Trata-se, possivelmente, de uma estratégia refinada ao longo de milhares de anos, envolvendo caça, defesa e sobrevivência.
O que os especialistas dizem sobre a descoberta?
A pesquisa chamou atenção da comunidade científica. Para o entomologista Andy Suarez, da Universidade de Illinois, o comportamento é surpreendente.
Ele compara o ataque com ácido a cenas de filmes de fantasia, destacando a eficiência inesperada dessas formigas.
Já Corrie Moreau, do Museu Field de História Natural, destaca que o estudo abre mais perguntas do que respostas.
Para ela, o uso das cabeças como decoração pode estar diretamente ligado à camuflagem química, mas isso ainda precisa ser testado.
No fim, a história das formigas, da cabeça transformada em decoração e das estratégias químicas mostra como até os menores seres vivos podem ter comportamentos complexos.
Cada descoberta revela um pouco mais, mas também reforça que a natureza ainda guarda mistérios profundos.
Fonte: National Geographic


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