Mudanças adotadas no Sítio Recanto da Mata, em Santa Rita do Itueto, aproximaram conservação da água, recuperação vegetal e cafeicultura, enquanto o trabalho conduzido por Flávia Lopes e Cláudio Silva também ganhou projeção nacional e passou a receber visitantes interessados em restauração ambiental.
Ao perceber que a água disponível diminuía em determinadas épocas do ano, Flávia Aparecida Lopes Silva e o marido, Cláudio Elias Moraes da Silva, decidiram reorganizar o manejo do Sítio Recanto da Mata, localizado em Santa Rita do Itueto, no interior mineiro.
Com 37,32 hectares, a propriedade passou a reunir proteção de nascentes, recuperação de áreas de recarga hídrica e plantio de cerca de mil árvores, enquanto aproximadamente dois hectares foram destinados a sistemas agroflorestais sem retirar o café da posição de principal atividade econômica familiar.
Esse processo ganhou projeção em 2025, quando o conilon produzido por Flávia alcançou a quinta colocação na categoria canéfora do Coffee of the Year, resultado que colocou o Sítio Recanto da Mata entre os destaques nacionais da competição realizada durante a Semana Internacional do Café.
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Paralelamente ao reconhecimento do café, a família avançava em um modelo que integra produção agrícola e conservação ambiental, reunindo café, banana, cacau, graviola, palmeira-pêssego e espécies nativas nas áreas destinadas aos sistemas agroflorestais implantados com apoio do programa Terra Doce.
Proteção das nascentes passou a orientar o manejo
Antes da implantação das mudanças, a família havia percebido que a disponibilidade de água deixava de permanecer estável durante o ano, sobretudo em períodos marcados por temperaturas mais elevadas, irregularidade das chuvas e estiagens capazes de interferir diretamente na rotina da produção agrícola.
A partir dessa percepção, Flávia e Cláudio passaram a integrar o Terra Doce, programa de desenvolvimento rural sustentável do Instituto Terra, cujas primeiras intervenções na propriedade concentraram-se justamente nas nascentes e nos pontos considerados importantes para a recarga hídrica do terreno.
Nas áreas mais sensíveis, o manejo incluiu cercamento, recuperação da vegetação e plantio de aproximadamente mil árvores ao redor das nascentes, trabalho que passou a se somar aos cerca de 70% de vegetação nativa preservada existentes dentro dos limites da propriedade rural.
Além da extensão preservada, o número de pontos de água ajuda a dimensionar a importância desse cuidado, pois a família contabiliza entre 15 e 20 nascentes e olhos d’água no terreno, embora considere possível que existam outros locais semelhantes ainda não identificados.
Segundo Flávia, os primeiros efeitos puderam ser percebidos antes mesmo de as árvores plantadas atingirem maior porte, já que determinados pontos apresentaram aumento da disponibilidade de água depois da proteção das áreas e do avanço gradual da recuperação da cobertura vegetal.
Com a restauração em andamento, o Instituto Terra também relatou a presença de animais silvestres no entorno, entre eles macacos-uivadores, saguis-de-topete-amarelo e diferentes espécies de aves, retorno associado pela organização à ampliação das áreas cobertas por vegetação na propriedade.
Agrofloresta combina café, frutas e espécies nativas
Depois das primeiras ações direcionadas aos recursos hídricos, aproximadamente dois hectares passaram a receber sistemas agroflorestais, nos quais cultivos agrícolas e espécies florestais ocupam o mesmo espaço produtivo, permitindo ampliar a diversidade vegetal sem afastar o café da atividade econômica central da família.
Dentro dessas áreas, café, banana, cacau, graviola, palmeira-pêssego e espécies nativas passaram a integrar o mesmo sistema, incluindo a palmeira-juçara, apontada pelo Instituto Terra como ameaçada de extinção e incorporada ao conjunto de plantas cultivadas no Sítio Recanto da Mata.
Já no sistema agroflorestal implantado mais recentemente, foram introduzidas mais de 30 espécies nativas, o que ampliou a diversidade vegetal de uma área onde diferentes plantas passaram a desempenhar funções simultâneas dentro do manejo adotado por Flávia e Cláudio na propriedade.
Em vez de tratar conservação e atividade agrícola como frentes independentes, a família incorporou os cuidados com nascentes, árvores e solo à própria organização produtiva, mantendo a lavoura de café enquanto ampliava a presença de vegetação em pontos considerados estratégicos dentro do sítio.
Conilon ficou entre os cinco melhores do Coffee of the Year
Enquanto as mudanças ambientais avançavam, o café produzido na propriedade também conquistou reconhecimento nacional no Coffee of the Year 2025, competição em que Flávia ficou na quinta colocação entre os canéforas, representando o Sítio Recanto da Mata e as Serras do Leste Mineiro.
Com esse resultado, a produtora de Santa Rita do Itueto passou a figurar entre os destaques nacionais da categoria, acrescentando um reconhecimento de qualidade à trajetória construída paralelamente às ações de conservação, restauração vegetal e diversificação produtiva implementadas pela família ao longo dos últimos anos.
Outro aspecto da produção está na presença de duas espécies de café, pois o sítio trabalha com conilon e arábica, combinação descrita pelo Instituto Terra como menos comum naquela região em razão das diferenças de altitude, clima e relevo encontradas no leste mineiro.
Mesmo com a diversificação do manejo, o café continua sendo a principal atividade econômica da família, enquanto Flávia e Cláudio dividem o trabalho cotidiano em uma propriedade onde proteção hídrica, recuperação vegetal e produção agrícola passaram a funcionar de maneira integrada.
Experiência passou a receber estudantes e visitantes
Além da produção rural, o Sítio Recanto da Mata passou a receber visitantes, estudantes e jovens ligados ao Núcleo de Estudos em Restauração Ecossistêmica do Instituto Terra, aproximando o trabalho realizado pela família de atividades relacionadas à educação ambiental e à observação de práticas de restauração.
Nesse contato, os sistemas agroflorestais e as áreas recuperadas funcionam como espaços para conhecer uma experiência que reúne conservação da água, diversidade vegetal e cafeicultura, sem separar essas práticas da realidade econômica de uma propriedade que continua dependente da produção agrícola.
Com nascentes protegidas, cerca de mil árvores plantadas, aproximadamente dois hectares de agrofloresta e um conilon colocado entre os cinco melhores do Coffee of the Year 2025, que outras propriedades poderiam incorporar estratégias semelhantes sem afastar a conservação de sua própria dinâmica produtiva?

