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Fim do mistério de 217 anos: inteligência artificial lê 24 linhas de símbolos de uma carta da era de Napoleão e completa uma frase que os livros deixavam pela metade

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 05/10/2026 às 14:40 Atualizado em 05/10/2026 às 15:40
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À esquerda, retrato pintado de Napoleão jovem de cabelo comprido e gola bordada a ouro; à direita, linhas de números e símbolos manuscritos da carta cifrada ao general Marmont.
Napoleão, em retrato do Metropolitan Museum, e o alto da carta cifrada de 1809 ao general Marmont. Foto: Retrato: The Metropolitan Museum of Art (domínio público); carta: reprodução de J. Vilcoq, Revue historique des Armées (1969), via Carter Church
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Uma carta cifrada de 1809 ficou ilegível por dois séculos; com a inteligência artificial GPT-6 Astra e uma única imagem escaneada, um engenheiro reconstruiu a chave em cerca de seis horas.

Imagina a cena: março de 1809, e Napoleão manda avisar um general isolado no Adriático. A ordem é carta cifrada, levada “por um oficial inteligente”. Agora, em 2026, a inteligência artificial finalmente leu o papel.

Segundo o relato de Church, o papel tem uma linha em francês comum e, embaixo, 24 linhas de rabisco: números de dois dígitos, letras soltas e sinais inventados. Ninguém tinha conseguido ler aquilo inteiro.

Quem leu foi Carter Church, engenheiro de IA da empresa de cibersegurança SentinelOne. No relato técnico que publicou, ele diz que o modelo GPT-6 Astra, da OpenAI, trabalhou cerca de seis horas.

E o ponto de partida foi pouco: uma única imagem da carta, publicada numa revista militar francesa em 1969.

Um general sozinho do outro lado do mapa

O destinatário era o general Auguste de Marmont. Ele tinha cerca de 13 mil homens na Dalmácia, a costa onde hoje fica a Croácia.

Linhas manuscritas de números, letras e símbolos inventados, com a palavra conséquent em letra comum no meio.
Trecho da carta cifrada de 1809; a palavra “conséquent” ficou em letra comum no meio dos sinais. Foto: Reprodução de J. Vilcoq, Revue historique des Armées (1969), via Carter Church

O problema é que, entre ele e o resto do exército francês, havia território austríaco. E a Áustria estava prestes a entrar em guerra contra a França.

Agora pensa no risco: se o papel caísse em mãos austríacas em francês comum, o inimigo saberia onde estava cada tropa. Cifrado, virava rabisco sem sentido para quem não tinha a tabela.

A carta saiu do quartel-general de Eugène de Beauharnais, enteado de Napoleão e vice-rei da Itália. Church data o envio do fim de março de 1809, semanas antes de a Áustria cruzar o rio Inn, em 10 de abril.

A revista de 1969 dizia que a carta era de 1807. Church mostra o erro com a própria primeira linha: as cartas de Eugène a Marmont dos dias 8, 14 e 20 são de março de 1809.

O que a carta cifrada dizia

A primeira linha, a única legível, avisa: “O senhor deve ter recebido, general Marmont, minhas cartas dos dias 8, 14 e 20 deste mês”.

O resto, decifrado, é um boletim de guerra. Lista onde estavam as forças de Napoleão e dos aliados: 40 mil bávaros em Munique e Passau, 30 mil poloneses no rio Vístula.

Segue com 80 mil franceses em Bayreuth, 60 mil homens em Ulm e Donauwörth e 40 mil soldados de elite em Augsburg.

E diz onde estavam os austríacos: Laybach, Klagenfurth, Villach e Salzburg. Era o mapa que Marmont precisava antes de marchar.

A frase que o livro deixava em pontinhos

Aqui vem a parte mais curiosa. A ordem de Napoleão de 16 de março de 1809 está impressa desde 1865, na Correspondência de Napoleão I, volume 18.

Página impressa em francês com a linha par une poignée de seguida de pontinhos destacada por um retângulo vermelho.
Na edição de 1865, a ordem de Napoleão para Marmont para nos pontinhos depois de “par une poignée de”. Foto: Correspondance de Napoléon Ier, vol. 18 (1865), via Internet Archive; marcação do CPG

Na página 358, Napoleão diz que Marmont não deve se deixar deter “por um punhado de”. E aí o livro para numa fileira de pontinhos. A palavra seguinte nunca apareceu.

A carta cifrada repete a mesma ideia, sem buraco. Marmont não deve se intimidar por “algumas tropas ou um bando de canalhas”, ou “un rassemblement de canailles” no francês original.

Só que tem ressalva, e o próprio Church faz questão dela. A carta é um repasse de Eugène, não o texto de Napoleão, então não prova a palavra exata do imperador.

Olha o tamanho do problema que a inteligência artificial pegou

A carta usa uma cifra homofônica. Em vez de trocar cada letra sempre pelo mesmo sinal, o escrivão alternava vários sinais para as letras mais comuns, como o E.

Isso mata o truque clássico de contar qual sinal aparece mais. Segundo a contagem de Church, são cerca de 1.300 sinais escritos, com 155 desenhos diferentes.

E tinha mais um obstáculo antes de decifrar: a inteligência artificial precisou ler a imagem de 1969. Foi ela que decidiu quais das 175 marcas feitas à mão eram o mesmo sinal escrito duas vezes.

Um terço da chave já existia

A ajuda veio do historiador francês da criptologia Daniel Tant. Ele tinha publicado, pela associação francesa ARCSI, uma tabela parcial dessa cifra, com 33 valores de letras, segundo a conta de Church.

Tabela com o título Code entre Eugène de Beauharnais et le Général Grammont 1809, com letras de A a J e números e sinais ao lado.
A tabela parcial de Daniel Tant, ponto de partida da leitura. Foto: Daniel Tant, Codes anciens nº 373, ARCSI

Esses 33 valores liam 435 das 1.300 unidades da carta. Na conta do CPG, é cerca de um terço; os outros 865 sinais tiveram de ser descobertos do zero.

E a página dos sinais que valem uma palavra inteira estava toda em branco na tabela. Segundo Church, a busca achou 29 deles, como “de”, “que” e “vous”, e mais dois para o S dobrado.

O resto, segundo Church, foi tentativa e erro em escala de máquina. Um programa testou milhares de combinações e deu nota a cada uma conforme ela parecia “francês de verdade”, com base em Victor Hugo, Alexandre Dumas e nas memórias de Marmont.

Como saber que a inteligência artificial não chutou

Essa é a dúvida certa com qualquer inteligência artificial. Church rodou tudo de novo tirando os textos de Napoleão e as memórias de Marmont da base, e a leitura saiu igual.

A prova mais forte veio de fora, mostra Church. A lista de Napoleão de 16 de março e a carta cifrada trazem as mesmas sete forças, na mesma ordem e com os mesmos números.

Depois, o japonês Satoshi Tomokiyo, que mantém o site Cryptiana de cifras históricas sem solução, recebeu o trabalho. No Cryptiana, a carta agora aparece como resolvida, com a data corrigida de 1807 para 1809.

Os números da carta na ponta do lápis

Na conta do CPG, com os números de Church, 1.300 sinais em 24 linhas dão cerca de 54 sinais por linha. É linha lotada de código, de ponta a ponta.

Dos 155 desenhos diferentes, a tabela de Tant explicava 33. Sobraram 122 sinais novos, cerca de quatro em cada cinco, segundo a mesma conta.

E o ano também fecha: 2026 menos 1809 dá os 217 anos do título. Dá para refazer cada número com o pacote que Church publicou.

Cinco sinais ainda em dúvida

Nem tudo fechou, e Church admite. Cinco sinais seguem em aberto: um pode ser “Sua Majestade” ou “o Imperador”, outro “o exército do Friul” ou “no Friul”.

Pela leitura dele, nenhum dos cinco muda o sentido da carta. E qualquer um pode conferir: o pacote publicado traz imagem, transcrição, chave e scripts que refazem a leitura.

O outro limite é a própria fonte. Tudo saiu de uma reprodução de 1969, com cerca de 19 pixels por sinal, e o original de 1809 não foi consultado no arquivo.

O que muda para quem guarda papel velho

A lição de Church é de custo, não de gênio. Nada estava escondido: a tabela de Tant era pública, o livro de Napoleão está impresso desde 1865 e a imagem circulava na internet.

Segundo ele, um especialista paciente poderia ter feito isso em 1970. Só que seriam semanas de trabalho por uma folha só, e ninguém pagava esse preço.

Com seis horas de inteligência artificial, a conta virou. Em aviso de 18 de setembro, o Cryptiana diz que as soluções estão chegando mais rápido do que dá para registrar.

O site já registra outras cifras históricas resolvidas com ajuda de IA neste começo de outubro, com ChatGPT e com Claude Opus 5.5.

A gaveta de papéis “impossíveis” dos arquivos antigos tende a encolher. E o trabalho que sobra é conferir cada solução com o cuidado que Tomokiyo teve.

E o cadeado do aplicativo do banco?

Pode respirar: a carta cifrada de 1809 caiu porque troca letra por símbolo, e língua deixa rastro. Certas letras e palavras se repetem de um jeito previsível.

Já a criptografia do banco e do navegador é outro bicho. Ela embaralha os dados com chaves matemáticas enormes e não depende da estatística do português.

Mas o Calcalist, site israelense de tecnologia, levantou o tal “uso duplo”. A mesma habilidade de achar padrão e reconstruir o que falta pode servir para analisar dados escondidos hoje.

E o caso cai bem nessa fronteira: quem leu a carta de Marmont trabalha com inteligência artificial dentro de uma empresa de segurança digital.

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Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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