Projeto de R$ 181,7 bilhões da Voltalia avança na ZPE do Pecém, prevê 2,3 mil empregos e amplia geração solar e eólica no Ceará.
Antes de os servidores começarem a trabalhar, será preciso erguer uma infraestrutura avaliada em uma cifra incomum até mesmo entre os maiores projetos industriais do Brasil. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação aprovou em 25 de agosto de 2026 o projeto da Voltalia Energia do Brasil para instalar um novo data center na ZPE do Pecém, no Ceará.
O investimento previsto chega a R$ 181,7 bilhões, com expectativa de 2.300 empregos diretos durante a implantação e outros 400 na operação. O empreendimento ainda inclui expansão de usinas solares e eólicas para atender sua demanda elétrica e uso de água de reúso na refrigeração dos equipamentos.
A aprovação colocou R$ 181,7 bilhões sobre a mesa
O Conselho analisou o projeto em sua reunião de 25 de agosto. A Voltalia recebeu o aval para prestar serviços a clientes do exterior a partir da ZPE cearense.
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O valor chama atenção por sua escala. Sozinho, o empreendimento responde pela maior parte dos R$ 206 bilhões em projetos aprovados naquela reunião para ZPEs do Ceará, Maranhão e Piauí.
Agora começa uma sequência que envolve licenciamento, permissões, implantação de infraestrutura e cumprimento das condições necessárias para colocar o complexo em funcionamento.
O projeto não é apenas um prédio cheio de computadores
Dentro dele ficam milhares de equipamentos que armazenam informações, executam cálculos e entregam serviços digitais para empresas espalhadas pelo mundo.
Esses computadores trabalham continuamente. Por isso, precisam de eletricidade em grande quantidade, conexão rápida com redes de fibra óptica e sistemas capazes de impedir o superaquecimento.
Quanto maior o centro de processamento, maior também a infraestrutura que precisa existir ao seu redor.
No Pecém, o projeto liga diretamente essa expansão digital a outra cadeia que já cresce no Nordeste: a geração de energia renovável.
Novas usinas solares e eólicas entram no desenho
O MDIC informa que a proposta da Voltalia inclui a expansão de sua rede de usinas eólicas e solares para atender a demanda do centro de processamento.
Essa parte é importante porque eletricidade é uma das principais matérias-primas de um data center.
Servidores precisam funcionar 24 horas. Sistemas de refrigeração também consomem energia. Equipamentos de segurança e sistemas auxiliares não podem parar quando a carga de processamento aumenta.
A Voltalia já atua principalmente na geração renovável. No projeto cearense, essa experiência passa a ser conectada diretamente à economia digital.
Em vez de vender apenas eletricidade, a companhia pretende associar energia a uma estrutura capaz de exportar serviços de processamento de dados.
Água de reúso será usada para ajudar a resfriar os equipamentos
Computadores trabalhando em grande escala produzem calor. Se a temperatura ultrapassar os limites dos equipamentos, o desempenho cai e servidores podem ser danificados. Por isso, refrigeração é uma parte essencial de qualquer grande data center.

O projeto apresentado ao governo prevê água de reúso para essa função.
Água de reúso é aquela que já passou por algum processo de utilização ou tratamento e recebe nova destinação, em vez de depender exclusivamente de água potável.
A escolha ganha peso no Ceará, onde disponibilidade de água sempre foi um tema sensível para grandes projetos industriais.
O volume que será efetivamente consumido pelo empreendimento não foi detalhado nas informações públicas consultadas.
Durante a implantação, 2.300 empregos diretos estão previstos
Antes dos servidores, chegam trabalhadores da construção. A projeção apresentada ao CZPE aponta 2.300 empregos diretos durante a implantação.
Uma obra desse porte exige construção civil, instalações elétricas, redes de comunicação, montagem de equipamentos, sistemas de climatização, segurança e uma extensa estrutura de apoio.
Depois que o empreendimento estiver pronto, o número projetado cai para 400 empregos diretos na operação.
Essa diferença é comum em grandes instalações altamente automatizadas. Construir exige milhares de trabalhadores em várias etapas. Operar depende de equipes menores e mais especializadas.
O impacto indireto pode alcançar fornecedores, manutenção, transporte, alimentação, telecomunicações e outros serviços, mas não há uma estimativa oficial consolidada apresentada nas fontes consultadas.
A ZPE permite que o Ceará exporte serviço sem colocar carga em um navio
Essa é uma das partes mais diferentes do projeto. Quando se fala em uma Zona de Processamento de Exportação, a imagem mais comum é de fábricas colocando aço, combustível ou outros produtos em navios.
Um data center não precisa fazer isso.

A Resolução nº 122 do CZPE classifica o empreendimento da Voltalia como um projeto de prestação de serviços exclusivamente ao mercado externo.
Na prática, o serviço pode atravessar a fronteira por redes digitais. Informações entram e saem por fibras ópticas enquanto os computadores permanecem fisicamente dentro do Ceará.
A infraestrutura industrial continua em território brasileiro, mas parte do que ela vende ao mundo é capacidade de processamento.
A ZPE do Pecém já concentra uma fila de projetos digitais
O novo empreendimento não chega sozinho. A lista oficial do MDIC já apresenta vários projetos de data centers aprovados para a Zona de Processamento de Exportação do Pecém.
Nomes ligados à ExportData, CDV e ByteDance aparecem entre as empresas ou projetos autorizados. A concentração começa a criar algo diferente do antigo perfil industrial da área.
A região continua ligada a siderurgia, porto, energia e indústria pesada, mas começa a reunir também grandes estruturas digitais.
A ZPE é uma área alfandegada com regras tributárias, administrativas e cambiais específicas para empresas direcionadas ao mercado externo.
Isso ajuda a explicar por que estruturas que poderiam ser instaladas em outras partes do país passaram a olhar para o Pecém.
O Pecém oferece algo que data centers precisam em grande escala
Servidores precisam de energia. Também precisam transportar enormes quantidades de informação.
O Ceará reúne as duas condições. O estado possui forte geração solar e eólica e também está conectado a cabos submarinos de telecomunicações que chegam à região de Fortaleza.
Esses cabos funcionam como grandes rodovias para dados.
Quanto menor a distância entre um data center e as principais rotas digitais, menor pode ser o tempo necessário para enviar e receber informações.
É o que o setor chama de latência. Em palavras simples, latência é o atraso entre mandar uma informação e receber a resposta. Para serviços digitais usados em vários países, alguns milissegundos fazem diferença.
Outro data center bilionário já avança na região
O projeto da Voltalia chega quando a região do Pecém já vive outra corrida digital. Um grande empreendimento relacionado à ByteDance, controladora do TikTok, também foi aprovado para a ZPE.
Em 2026, o Governo do Ceará informou que as obras desse outro complexo já estavam avançando e destacou investimentos da ordem de centenas de bilhões de reais.
Uma área construída originalmente em torno de porto, siderurgia e grandes indústrias passa a disputar espaço também como endereço de enormes centros de processamento de dados.
Eles chegam atraídos por energia, infraestrutura, regras da ZPE e conexão internacional.
O resultado pode ser uma concentração de consumo elétrico e investimento digital de escala inédita na região.
R$ 206 bilhões foram aprovados em projetos de três estados
A reunião em que a Voltalia recebeu sinal verde também abriu espaço para outros empreendimentos industriais.
Somados, os projetos do Ceará, Maranhão e Piauí alcançam aproximadamente R$ 206 bilhões em investimentos previstos.
Em Bacabeira, no Maranhão, foram aprovados projetos ligados a biorrefinaria, hidrogênio renovável e ferro de baixo carbono.
Em Parnaíba, no Piauí, entrou uma proposta para produção de ferro-gusa usando hidrogênio e eletricidade renovável.
O governo calcula que o conjunto dos novos projetos poderá acrescentar cerca de R$ 40 bilhões anuais em exportações a partir de 2029.
A disputa agora passa a ser por energia, fibra e trabalhadores qualificados
Quando vários centros de dados se concentram na mesma região, a competição muda. O desafio não é apenas encontrar terreno.
É necessário garantir capacidade elétrica, subestações, transmissão, fibra óptica, sistemas de refrigeração e profissionais capazes de operar equipamentos de alta complexidade.
Também cresce a pressão para expandir a geração de energia sem comprometer o restante do sistema. No caso da Voltalia, a resposta apresentada ao CZPE inclui justamente novas instalações solares e eólicas.
A energia produzida no Nordeste começa, assim, a ganhar outra função. Ela deixa de alimentar apenas casas, fábricas tradicionais e linhas de transmissão para também sustentar máquinas que vendem processamento digital para outros países.
O próximo passo é transformar uma aprovação gigantesca em concreto e servidores
O Conselho já deu o primeiro sinal verde. Agora o projeto entra na parte mais difícil.
Licenças precisam avançar. Infraestrutura precisa ser dimensionada. A expansão de energia terá de acompanhar o consumo. Equipamentos terão de chegar e milhares de trabalhadores precisarão transformar o terreno em uma instalação capaz de funcionar continuamente.
Se o investimento previsto de R$ 181,7 bilhões for executado na escala apresentada ao governo, a ZPE do Pecém ganhará um empreendimento de tamanho muito superior ao de uma instalação tecnológica comum.
Ali, energia produzida pelo sol e pelo vento será convertida em processamento, armazenamento e movimentação de dados.
No lugar de contêineres deixando o porto carregados de mercadorias, parte das exportações poderá sair pelo Ceará em frações de segundo, através de cabos de fibra óptica.

